terça-feira, setembro 01, 2020

Projetos de Viagem: revisão em tempo de pandemia



Sinaia - Romênia


Não sei se a revisão a que me proponho hoje, tem a ver com real necessidade de organização, ou ter esperança de sobreviver, ou ainda de ver o tempo passar quando já estou em isolamento social há mais de cinco meses.

Assim eu havia começado este texto ... mas fui surpreendida por uma dor maior, muito maior - a dor de uma amiga-irmã cujo filho morreu. Desculpem.Impossível continuar. 

Decidi, portanto, dar um tempo à publicação  de textos, tanto pela solidariedade à dor da minha amiga, como por ser a dor dela um acréscimo às minhas dores dos últimos anos e às dores de novas perdas durante a Pandemia - destaco, entre minhas perdas por covid 19, a morte de quatro professores - índios de quem eu havia acompanhado, em Roraima e no Mato Grosso do Sul, o estudo e o trabalho por vários anos. 

Retornarei a escrever aqui, no Correndomundo - quando a dor da perda se transformar em saudade. Viajar, que para mim é viver, só depois de estar vacinada. Estou no grupo de risco. Preciso ter paciência. Gosto da vida. Nào quero, portanto, correr riscos. Releio, no entanto,  Fernando Pessoa e espero. "Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.O que for, quando for, é que será o que é."  FP




"Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.
Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma
Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.
Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é."

Fernando Pessoa





domingo, agosto 16, 2020

Fernando Pessoa

 

San Antonio/US - Day of the Dead


" Todo o estado de alma é uma passagem. Isto é, todo o estado de alma é não só representável por uma paisagem, mas verdadeiramente uma paisagem. Há em nós um espaço interior onde a matéria da nossa vida física se agita. Assim uma tristeza é um lago morto dentro de nós, uma alegria um dia de sol no nosso espírito. E - mesmo que se não queira admitir que todo o estado de alma é uma paisagem - pode ao menos admitir-se que todo o estado de alma se pode representar por uma paisagem. Se eu disser "Há sol nos meus pensamentos", ninguém compreenderá que os meus pensamentos são tristes."

Fernando Pessoa



Inspiração Mexicana



terça-feira, agosto 04, 2020

Fernando Pessoa e Exposição de Esculturas em Chicago

" Borders "


"Não tenho ambições nem desejos.
Ser poeta não é uma ambição minha.
É a minha maneira de estar sozinho."



Escultor Islandês...


"Quando me sento a escrever versos
Ou passeando pelos caminhos ou pelos atalhos,
Escrevo versos num papel que está no meu pensamento,
Sinto um cajado nas mãos
E vejo um recorte de mim
No cimo dum outeiro,
Olhando para o meu rebanho e vendo as minhas ideias,
Ou olhando para  as minhas ideias e vendo o meu rebanho.
E sorrindo vagamente como quem não compreende o que se diz
E quer fingir que compreende."


Steinunn Thórarinsdóttir.

"Saúdo todos os que me lerem,
Tirando-lhes o chapéu largo
Quando me vêem à minha porta 
Mal a diligência levanta no cimo do outeiro.
Saúdo-vos e desejo-lhes sol,
E chuva, quando a chuva é precisa,
E que as suas casas tenham
Ao pé de uma janela aberta
Uma cadeira predileta
Onde se sentem, lendo meus versos.


2014 - Gran Park de Chicago


Ao lerem os meus versos pensem
Que sou qualquer cousa natural
Por exemplo a árvore antiga
À sombra da qual quando crianças, 
Se sentavam com um baque, cansados de brincar..."

Fernando Pessoa

PS. Visitei, em 2014, em Chicago, essa fantástica instalação - Borders - em Chicago;
      é um  magnífico trabalho do escultor islandês Steinunn Thórarinsdóttir, que estudou na Itália e nos          Estados Unidos;
      lamento a qualidade das fotos, mas foram elas feitas com um celular antigo, bem inferior aos atuais.
PS. Pode ser interessante, agradável e informativa a leitura do seguinte post  : https://correndomundo.blogspot.com/2014/06/chicago-vibrante-e-arrojada-texto-sem.html
Desejo-lhes boa semana, com paciência e resistência para manterem-se em isolamento social.Vai passar!


sábado, julho 25, 2020

Julho de 2020 - A Vida Continua...


                                                        

Quando percebi a gravidade da pandemia e que,  por mim, pelo sistema de saúde e  pela pessoas todas, eu teria de viver um tempo sem mobilidade, mesmo para cidades vizinhas, decidi que procuraria ficar tranquila e que colocaria o 2020 entre distanciados parênteses que eu deixaria abertos. A data e as condições de fechamento  dos parênteses nós continuamos sem saber, já que dependemos da aplicação de vacina ainda em estudo. Pensava ficar sem dor, mas sem euforia. Era toda uma situação desconhecida e eu sou eu e as minhas circunstâcias.






A dor veio com perdas de amigos e companheiros de trabalho atingidos pela Covid -  como acontece usualmente, a alegria pode ser buscada, mas a dor vem sozinha. Não está sendo fácil essa experiência, apesar da situação minha, que reconheço ser bastante privilegiada, bem acolhida por amigos e sem problemas de casa, de alimentação e de saúde. O medo e a insegurança, entretanto, por nós, pelas pessoas que amamos e por aqueles a quem falta condições de mínimas de bem-estar social, é constante e doído. 





Ontem, contudo, foi dia de colocar parênteses dentro do parêntese maior da minha vida e tentar fazer do dia do meu aniversário, um dia normal, com direito a alegrias, emoções, sonhos e desejos para a  nova idade. As surpresas começaram na véspera, com a chegada de presentes pelo correio. À noite, já havia, nas redes sociais e no meu e-mail, mais de uma centena de mensagens. Ao ler cada mensagem, eu pensava na pessoa, desde quando a conhecia, onde eu a encontrara ( se era aluna/aluno eu lembrava até da letra) , de que cidade era - felizmente ainda consigo recordar até detalhes 😁. Sou agradecida a todos por essa realimentação da esperança e da crença na Humanidade...





Foi uma comemoração realmente singular e muito afetiva. Éramos, presencialmente, três pessoas na festa - Maria do Horto, Potiguara Brites e eu, mas sentíamos a participação de muitas pessoas, entre elas Fabiana, minha filha, Paulo de Tarso e Juliano, meus filhos; meus netos, Pedro e Massimo; minhas noras - Adriana e Valéria; meus sobrinhos - Fabricio, Cleber, Clezer, Frederico, Fernando -  e sobrinhas - Fabianinha, Dalvinha, Elaine, Fernanda; minha irmã Alda; minha tão importante família ampliada por escolhas - Rosana, Adriana Wagner, Isolda, Neneca e muitas pessoas mais; meus amigos, ex-alunos, colegas e vizinhos. Gostaria de agradecer pessoalmente a cada um - espero ter vida e tempo para abraçá - los. 






O bolo de aniversário ( fotos acima ) foi uma surpresa de Pedro e Fabiana: "Pensamos muito em um presente pra mãe, é a primeira vez em anos que ela está no Brasil no dia do aniversário!!! Achamos uma artista pra executar nossa ideia !
Aldema Menini Mckinney
e
Pedro Menini
fazendo o que adoram :VIAJAR JUNTOS ! " Foi um sucesso o presente. Agradeço muito.


Comprovante! Pedro, em janeiro, na Áustria.


Meu desejo era postar aqui todas as mensagens recebidas. Na impossibilidade de fazer isso, optei por compartilhar apenas as mensagens das minhas crianças : Fabiana ( acima ) , Patati,  Gugu e Fabianinha. Agradeço, também com muito afeto, a todas as pessoas que, por telefone ou por internet, se fizeram presentes no meu aniversário, neste estranho 2020.





Hoje é aniversário da minha mãe. Estamos perto mas infelizmente com a pandemia não tenho como visitá-la. Mas isso não é um grande problema, a tecnologia ajuda a amenizar a distância nestas horas.
Minha mãe sempre nos preparou para o mundo. Desde pequenos nos tratava como adultos, tínhamos conversas sérias sobre assuntos diversos. Lembro que conversamos muito sobre o meio ambiente e as agressões à floresta amazônica mesmo antes disso se tornar um debate nacional e global. Ela nos possibilitou conhecer e vivenciar coisas que mudaram nossas vidas, nos jogou no mundo muito cedo. Sempre falo que devemos agradecer a mãe por muito cedo nos tirar da nossa cidade natal, depois nos fazer viajar, conhecer o mundo. Minha mãe também nos tornou pessoas curiosas, Graças a ela tivemos oportunidade de conversar com pesquisadores de diversas áreas e aprender muito. Eu também falo que por causa disso tudo, no colégio e na universidade, foram fáceis de viver.
Hoje a mãe está igual a quando eu era criança, adora ver o que tem em cada esquina, de cada cidade deste mundo. Sua mente sábia costuma antecipar acontecimentos e pensamentos dos outros com muita facilidade, adora ler Fernando Pessoa e guias e demais de viagem. Se diz cansada mas não descansa a mente e o corpo por nada neste mundo.
Mãe, feliz aniversário, tenho certeza que ainda comemoraremos muitos outros. E depois que toda essa pandemia passar, faremos uma grande festa.
Te Amo Muito
Gugu



Hoje é o aniversario da MAIOR MAE DO MUNDO! A mae sempre conseguiu ser mae de muitas pessoas, sempre ser o ouvido para escutar, o ombro para chorar, o conselheiro sabio e firme quando necessário. Tambem é mãe de muitos projetos, desde plantar arvores e construir jardins a transformar e construir sistemas e instituições. Fez tudo isto sabendo que o caminho que seus filhos e ideias e projetos vão trilhar vão ser proprios deles, por mais que ela sofra a angustia disto.
Ela faz tudo isto sem por um segundo deixar de ser a minha mãe, a mãe que me escuta, a mãe com quem eu sempre pude contar quando os problemas eram muito grandes para min, a mãe que sempre nos respeitou como gente e deixou que tomássemos nossas decisões sozinhos, por mais que ela nao estivesse de acordo. A mae bonita, inteligente, divertida, de quem eu sinto um enorme orgulho. Mais que tudo a mae lutadora, desbravadora, corajosa, que sempre me deu o exemplo que as barreiras do mundo são superáveis, e que as limitações com que lidamos são quase sempre invenções nossas e não barreiras insuperáveis da realidade.

No fim do ano passado a mãe veio me visitar. Conversamos muito. Ela estava cismada com que está doente e ficando velha, e por isto se esquece das coisas. Eu ria muito de ver, porque para min ela segue exatamente a mesma pessoa bonita, inteligente e interessante de sempre, e essas eram exatamente as reclamações que ela tinha ha 30 anos, quando já as mesmíssimas coisas!
Te amo muito mae, feliz aniversário! Os anos não passam, os anos acrescentam.
Patati



O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda,
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica...
E que se assim é, é porque é assim."

Fernando Pessoa



sábado, julho 18, 2020

Erma Bombeck - chapeus roxos ou vermelhos?


Em Indiana, almoço de  Senhoras do Chapeu Vermelho.


Aos 3 anos: Ela olha pra si mesma e vê uma rainha.

Aos 8 anos: Ela olha para si e vê Cinderela.

Aos 15 anos: Ela olha e vê uma freira horrorosa.

Aos 20 anos: Ela olha e se vê muito gorda, muito magra, muito alta, muito baixa, cabelo muito liso, muito encaracolado, decide sair mas, vai sofrendo.

Aos 30 anos: Ela olha pra si mesma e vê muito gorda, muito magra, muito alta, muito baixa, muito liso muito encaracolado, mas decide que agora não tem tempo pra consertar então vai sair assim mesmo.

Aos 40 anos: Ela se olha e se vê muito gorda, muito magra, muito alta, muito baixa, muito liso, muito encaracolado, mas diz: pelo menos eu sou uma boa pessoa e sai mesmo assim.

Aos 50 anos: Ela olha pra si mesma e se vê como é. Sai e vai pra onde ela bem entender.

Aos 60 anos: Ela se olha e lembra de todas as pessoas que não podem mais se olhar no espelho. Sai de casa e conquista o mundo.

Aos 70 anos: Ela olha para si e vê sabedoria, risos, habilidades, sai para o mundo e aproveita a vida.

Aos 80 anos: Ela não se incomoda mais em se olhar. Põe simplesmente um chapéu violeta e vai se divertir com o mundo.

Talvez devêssemos por aquele chapéu violeta mais cedo!

Erma Bombeck 



Fotografia que me foi permitida fazer


Conhecia , por circular na internet, o texto que transcrevi acima e que foi escrito por  Erma Bombeck  -  escritora e roteirista americana, nascida, em 1927, em Bellbrook e criada em Dayton/Ohio, tendo falecido em  São Francisco, na Califórnia, em 1996. Manteve, durante 30 anos, uma coluna de jornal, com grande sucesso popular, em que escrevia sobre problemas cotidianos de uma dona de casa suburbana. 


 Erma Bombeck

 

Escreveu mais de 4.000 colunas de jornal, narrando a vida comum de uma dona de casa suburbana, com eloquente humor. Na década de 1970, suas colunas foram lidas, duas vezes por semana, por 30 milhões de leitores de 900 jornais dos Estados Unidos e Canadá. Publicou 15 livros e alcançou muito sucesso com alguns.  




Ouvi e muitas vezes referências às mulheres de chapeus roxos - ou de chapeus vermelhos, outro grupo com outros objetivos, nunca , entretanto, havia me deparado com algum desses grupos, até abril de 2011. Ronald e eu, quando íamos de Illinois a Michigan, visitar Nina e Bill, nossos parentes muito queridos, almoçávamos em um restaurante, em Monon,  Indiana, cuja comida era deliciosa e o ambiente muito original. Lá encontramos um grupo de talvez 30 mulheres, a maioria com vestidos longos e todas de chapeu.





Lembrei-me logo do texto de Erma Bombeck e dos grupos de mulheres hoje existentes em mais de 10 países, tendo como objetivo partilhar alegria, companheirismo, convívio prazeroso, fazendo brincadeiras com chepeus e roupas. Aproximei - me de algumas que me pareceram mais simpáticas e receptivas. Pedi para fotografá-las. Autorizaram-me a fazer somente duas fotos e da parte do grupo com quem eu falara. Fiz as duas fotos primeiras que posto aqui e fiquei muito feliz observando a alegria delas. 



  Restaurante Monon - Indiana - US


Erma Bombeck é também a autora das afirmações seguintes: " Maternidade: a Segunda Profissão mais Antiga; Insanidade é hereditária. Você pode pegá-lo de seus filhos; Sonhos têm apenas um dono de cada vez. É por isso que os sonhadores são solitários. É preciso muita coragem para mostrar seus sonhos a outra pessoa. Quando você estiver igual à foto do seu passaporte... é hora de ir para casa."



...quase na hora de ir para casa...

Agradeço às queridas amigas Arlete Oliveira e Eloah Mpr que encontraram o texto de Erma Bombeck para mim, pois eu o havia perdido e queria muito encontrá-lo. Bom domingo a vocês. Cuidem-se. PS. Quando eu fizer 80 anos, para a festa a que vocês já estão convidadas, os chapeus poderão ser roxos ou vermelhos!




sexta-feira, julho 10, 2020

Rememorando em Tempos de Pandemia I - Expo Shanghai 2010 - República Popular da China



Identidade visual da Expo/ 2010



"Das minhas remotas lembranças de criança de meio rural, que sonhava um dia "ver o mundo", surge Shanghai como minha única referência à China. Essa cidade aparecia, no meu imaginário infantil, cheia de mistérios, intrigas, crimes, bandidos e ...sem mocinhos (...) Eu não imaginava, realmente, conhecê-la um dia. Quando comecei a ler sobre a China, já com o intuito de visitá-la, constava Shanghai da minha lista, antes mesmo de Pequim. Quando lá cheguei, senti um "respirar difícil", um aperto no estômago, um olhar que não dava conta de enxergar tudo o que eu queria. Encontrava, enfim, a metrópole que eu sonhara ver." Correndomundo, 2010. 



Shanghai / 2010



Com 25 milhões de habitantes permanentes ( em 2019 ) e 5 milhões que, diariamente, movimentam-se ali, apresenta-se até bem organizada, embora eu pense que jamais conseguiria mover-me, dirigindo um carro, naquele trânsito. Shanghai, cujo nome significa acima do mar,  é uma das cidades de maior e mais rápido crescimento no mundo. 



                                          Detalhes do Centro Histórico de Shanghai



Não me decepcionei com Shanghai, mas me assustei um pouco. Tive a certeza de que com ela não estabeleceria laços, mesmo com a tocante beleza do Jardim Yu, com suas árvores, flores, lagos e obras de arte por todo lado. A grandiosidade local, no entanto,  dava-me um certo medo. Decidi que eu apenas  visitaria Shanghai uma vez e por razão muito especial - a Expo 2010.



Inesquecível o grandioso Jardim Yu



Devo contar que Exposições Mundiais me atraem tanto, que as persigo sempre que posso, muitas vezes alterando ou mudando roteiros para visitá-las - assim foi com a Expo Sevilha,  a Expo Lisboa e a Expo Milano. Por essa razão , a Expo Shanghai/2010 muito me impulsionou a visitar essa parte da República Popular da China.  Como Ronald e eu estávamos nos Estados Unidos, partimos de Chicago a São Francisco e de São Francisco  a Pequim. Ainda sinto a lembrança das tantas horas de vôo.,.,l



Pavilhão da China



Qualquer Expo é um passeio pelo mundo, e o passeio de Shanghai foi o mais rico e bonito que fiz. Foram dois dias intensos e ...insuficientes! Cerca de 200 países apresentavam ali sua cultura e seu urbanismo. Desde 2000, na Expo Hanover, os países participantes passaram a criar sua própria arquitetura - o que passou a ser  uma das grandes atrações para os visitantes.



Chegada no Pavilhão da Expo



Rememoro, com nostalgia, o primeiro momento em que me defrontei com Pavilhão do Brasil - era simples, elegante e informativo. Assistimos , Ronald e eu, a um espetáculo em que se informava sobre a cultura brasileira. Cheguei com medo, temendo as apresentações, em geral predominantes , de carnaval e futebol.




                                                                     Pavilhão do Brasil
                                   


Não  foi, entretanto, esse o enfoque  do que vi. Havia carnaval e futebol sim, mas havia bem mais do que isso. Lá estava a culinária - arroz, feijão, churrasco, vatapá, ensopado de peixe; a música, a dança, o artesanato, as pessoas e seu cotidiano.... Tudo tecnicamente apresentado em filmes e vídeos impecáveis. Bonito de ver. Saí comovida e agradecida.




                                                                    Filipinas



Todo o espaço destinado à Expo Shanghai foi preparado e decorado com esmero. Profusão de flores, árvores e objetos decorativos. Pessoal de segurança discreto e bem informados. Havia países que mostravam um exagero de criatividade, beleza e riqueza. Pavilhões magníficos. Montagens funcionais e relevantes. Difícil fazer escolhas do que ver e de que tempo ficar em cada pavilhão.




                                                                    Tailândia



Desde a primeira Expo, realizada em Londres, no Reino Unido, e que foi idealizada pelo Príncipe Albert, marido da Rainha Victoria, até a atualidade, ampliou-se gradativamente, no mundo todo, a repercussão do evento. Seus pavilhões de alto custo e a incorporação de temas atuais mantêm o interesse de nações que, algumas vezes, competem entre si na realização de espetaculares estruturas.




Canadá
                     

Em razão dos custos altos na construção dos pavilhões, a China fez um acordo com  países alguns países da África e construiu uma grande  estrutura que abrigou, neste evento, várias nações como Zambia, Malawi, Uganda, Ruanda, Djibouti, Comoros, Guiné-Bissau, Congo, Camarões, Gabão e Botswana. Havia aqui uma bela amostra de artesanato africano.




                                Detalhe do Pavilhão para algumas Nações Africanas

  

Em 2020, a Expo Mundial deveria estar sendo realizada em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos. Em razão da Pandemia, foi transferida para o próximo ano. Atualmente, a previsão é que o evento seja realizado de cinco em cinco anos por escassez de recursos. Até o presente tenho me negado a ir a Dubai - só estive no aeroporto uma vez. Em sobrevivendo até o próximo ano, quem sabe não é a hora de ir lá?
 


                                                                       Ronald, em casa!


" Nem sempre sou igual no que digo ou escrevo,
Mudo, mas não mudo muito. 
A cor das flores não é a mesma ao sol
De que quando uma nuvem dura
Ou quando fica a noite
E as flores são cor da lembrança."

Fernando Pessoa




segunda-feira, junho 29, 2020

Festas Juninas: Recordações de Senhor do Bonfim/BA


Festa de São João, Senhor do Bonfim - 2002


O mês de junho me traz lembranças agradáveis e comoventes dos 6 anos e 8 meses em que morei na Bahia. Lá aprendi a desejar Feliz São João com mais intensidade e frequência do que desejo Feliz Ano Novo, no mês de dezembro. Havia cenário e clima apropriados para que nos envolvêssemos nas festas juninas. Lamento apenas não ter ido às festas de Amargosa, cidade conhecida por seus festejos genuínos e animados, mas tenho preciosas lembranças de Senhor do Bonfim, considerada a segunda localidade mais festeira do interior baiano ( ou seria a primeira? )


                                              Juliano ( Gugu ) na Praia do Forte - Ba - 2003


É de se perguntar como fui parar na Bahia, logo que me aposentei da UFSM. Tive uma diarista que, para eventos que ela não conseguia explicar a causa, costumava dizer: foi destino ou milagre. Explicação que eu passei a usar por preguiça de falar, escrever, pensar, mesmo em situações - como minha ida para a Bahia - que têm realmente a ver com trabalho realizado e trajetória de vida. 


                                                    Pedacinho de Ondina, perto de onde morei.


O convite recebido, em dezembro de 1999, para coordenar um Seminário sobre Ensino Superior, no ISBA e , posteriormente, para trabalhar na elaboração do projeto de criação da Faculdade Social da Bahia, foi marcante na minha vida. Os poucos dias que eu pensava permanecer em Salvador, foram-se ampliando....e lá morei até início de setembro de 2006. Além do trabalho  que eu fora contratada para fazer, desenvolvi,  como trabalhos voluntários, dois projetos comunitários, que se tornaram relevantes nas minhas experiências e na minha história pessoal e profissional - um deles, o de Senhor do Bonfim, cujas fotos, lamentávelmente, estão na  minha casa, em Torres, neste tempo de distanciamento social. O outro, na Plataforma, comunidade muito pobre da periferia de Salvador. Os dois, vinculados à Igreja Católica.



                                              Feira Livre, aos sábados, em Senhor do Bonfim


Senhor do Bonfim localiza-se no Semiárido, a 360 km de Salvador e a 110 km de Juazeiro - cidade que divide Bahia e Pernambuco. Bonfim tem uma população ao redor de 75 mil habitantes, e a segunda maior feira do Nordeste - a maior é a de Caruaru. Nos sábados, essa feira é uma festa. Pode-se, entre outras coisas, comprar frutas, verduras, legumes, flores e árvores; cerâmicas, roupas, sapatos, redes; galinhas mortas e galinhas vivas, bodes vivos e bodes em pedaços;  artesanato em couro e em madeira. Pode-se ouvir ali o genuíno forró e as músicas de Luís Gonzaga. Uma festa!


                                                                        Feira de Bonfim


A história de Senhor do Bonfim está  relacionada à busca de ouro e pedras preciosas e à introdução da criação de gado no sertão baiano. Ainda no século XVI, portugueses pertencentes à Casa da Torre, organizaram expedições com destino ao rio São Francisco e às minas de ouro de Jacobina, iniciando a ocupação do interior da província e a formação de canais de comunicação com o litoral. A zona de passagem dessas expedições, com suas rancharias, possibilitou a fixação de vaqueiros, bandeirantes e desbravadores. Foi em  1750, que se estabeleceu  o núcleo que deu origem à cidade.


                                            Paisagem nas proximidades de Senhor do Bonfim


Considerada Capital do Forró, o São João de Bonfim dura em torno de cinco dias. Contam que um prefeito perdeu sua reeleição porque diminuiu a festa para três dias. Na rodoviária, onde chegam centenas de ônibus de todo o estado, percebe-se o início das festividades juninas. As pessoas são recebidas com música - gaita, pandeiro, triângulo e voz. A primeira vez em que lá cheguei, ri sozinha, entre a surpresa e o encantamento, com a animação local - o povo amanhece - e passa o dia - dançando e cantando.


Guerra de Espadas ( foto de divulgação do evento)


Senhor do Bonfim preserva características tradicionais, como trios de sanfoneiros, quadrilhas, bandas de pífanos e alvoradas juninas, quando  multidões dançam pelas ruas durante as madrugadas. Mais tradicional, entretanto , é a guerra de espadas - bambus cheios de pólvora . A guerra é realizada em área determinadas, as casas recebem proteção especial, as luzes são apagadas e as pessoas que brincam com as espadas precisam usar capacetes. Embora me dê medo, é um belo espetáculo. Por indescritível, indico um vídeo onde esse espetáculo pode ser visto: http://www.youtube.com/watch?v=L41vOxvx-UQ



                                                Material de divulgação do São João em Bonfim

Conheci essa parte do sertão em razão de pedido feito por Ramón Serrano, padre espanhol mais brasileiro que muitos nascidos aqui, para que eu assessorasse a Diocese de Bonfim no credenciamento, junto ao Ministério de Educação ( MEC ) de um curso de bacharelado em Teologia. O Instituto Superior de Teologia e Pastoral de Bonfim – ISTEPAB,  locus do curso de Teologia, fora instituído em 2001. No dia 30 de março de 2005, por meio da Portaria Nº 994 de 30 de março de 2005, do Ministério da Educação, foi credenciado o Instituto Superior de Teologia e Pastoral de Bonfim e, no dia 31 de março de 2005, por meio da Portaria de Nº 1.022, foi aurorizado o funcionamento do Bacharelado em Teologia.

                                   Pe. Ramón, um Santo Moderno, um lutador por dias melhores.

 
Esse trabalho fez com que eu fosse a Bonfim uma vez por mês, durante quatro anos. Tornei-me de casa lá.  Como eu ficava hospedada no Seminário, fiz vínculos com pessoas da igreja e da cidade. Da construção à aprovação dos Projetos, tanto do ITEPAB quanto do bacharelado vivi um tempo de intenso aprendizado, humano e intelectual, com pessoas inesquecíveis, coordenadas pelo Pe. Ramón Cazalas Serrano, com a contribuição de Pe. Luís Tonetto, Peu ( Pedro Paulo Souza Rios ), Norma Leite, José Salgado e ...esqueci o nome de alguns cuja fisionomia bem recordo. Deixei amigos e quatro afilhados no Sertão; carrego gratidão e saudades. Segundo uma amiga, sou como uma plantinha - conhecida como alegria do jardim - crio raízes facilmente, basta me largar na terra...


                                                                 Letícia, minha afilhada.


Voltei a Senhor do Bonfim, em 2012. Queria reencontrar amigos e afilhados. Encontrei-os adultos bem formados. Pedro Paulo, o Peu, publicou um belo livro de poesias ( atualmente é professor universitário com Doutorado em Educação) ; Jânio mora em São Paulo; Antônio é padre em Campinas. Jantei na casa de minha amiga Zoraide, que reuniu seus familiares, meus afilhados e alguns amigos meus. Conversamos muito. Relembramos histórias. Rimos ao recordar a Romaria da Terra, em 2004, com seis mil pessoas que percorreram, sob sol escaldante e terra seca e árida, mais de 5km. Eu, sem experiência de peregrinações no sertão, estava sem chapéu e sem bloqueador solar, num vermelhão que tornava pálido o mais robusto camarão, passei mal e fui socorrida por uma senhora na entrada da cidade onde findava a Romária. Tinha febre, dores no corpo e vomitava muito. Desidratação. Fui salva por batida de polpa e  água do coco. Procurei fazer com que o mico fosse um mico discreto. Impossível. Dormi, mas, ao acordar, percebi que a dona da casa fazia relatos do meu estado de saúde para amigos meus, participantes da Romária e curiosos. Fui levada de carro para Bonfim.



                                            Peu, meu querido afilhado. Sou muito orgulhosa dele.


Uma vez eu escrevi : Não é fácil morar no sertão. Como escreveu Euclides da Cunha, o sertanejo é, antes de tudo,um forte. Quem nunca palmilhou a terra seca e árida dificilmente o entenderá. Paradoxalmente, é , no entanto, o povo mais doce e generoso que eu conheço. Dizem que o sol do sertão desperta a doçura das frutas e a coragem de viver. Acredito que desperta também a doçura das gentes. Saudades de lá, mais ainda, neste tempo de Pandemia. Cuidem-se!


                                                            Lidia e eu na Feira de Bonfim

"Tenho fome da extensão do tempo, e quero ser eu sem condições." Fernando Pessoa