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| Meus tricôs! |
Ainda em fevereiro, quando percebi que seria impossível fazer a viagem já roteirizada para 2020/1, pensei, com certa tristeza: e agora, que farei? Eu não percebia, naquele momento, que me rondava uma tristeza muito mais triste e uma dor bem maior do que o simples cancelamento de uma viagem.
Comecei logo,logo, a sentir medo por fazer parte do grupo de risco: além da idade e da asma, há menos de dois anos, uma cirurgia retirara metade de meu pulmão esquerdo, e a totalidade de um câncer genético que ali se alojara ( esclareço que nunca fui fumante!)
Meu medo foi, gradativamente, crescendo e ampliando o espaço geográfico brasileiro, onde vivo, e passou a incluir os Estados Unidos, onde vive Patati, meu filho; a China, onde vive Jim, meu enteado; o Uruguai, o Canadá, a Espanha, a Itália, a Grécia, a Alemanha, a Índia e outros espaços em que vivem tantos amigos e parentes. Logo, veio a inclusão de todas as pessoas - gente como a gente que fazem a dor e a alegria de cada lugar ser o que é.
O medo foi cedendo lugar à tristeza - tristeza continuamente intensificada nesses dois meses de isolamento social, quer pelas notícias, quer pelo rumo dos acontecimentos. A inveja, um dos pecados capitais de que eu me julgava distante, apareceu agora na Pandemia. Invejo profundamente os países que são governados por pessoa séria, competente, sensível, democrática e - se não for pedir demais - sem fanatismo religioso e com linguagem adequada ao momento.
Estou na casa e na companhia de Maria do Horto e Potiguara Brites - amigos/irmãos há mais de 50 anos. Estaria bem se não fosse a saudade de muitas pessoas, e a dor que se espalha pelo mundo. A constante imagem de crianças assustadas, de olhares suplicantes, de pessoas que choram, vêem seus mortos em caixões fechados e os enterram em covas rasas, mais do que sensibilizam, machucam, agridem, revoltam. Para algumas pessoas, entretanto, essas que enxergam o outro unicamente no limite de próprio umbigo, os números da estatística de mortes só farão sentido quando tiverem a cara de um familiar ou amigo.
Mas o que faço eu sem viajar neste 2020/1 ? Espero pela vacina - obrigada, Claudio Zoppi, pela boa notícia - acompanho declarações de governantes e faço tricô. Acolho as tristezas deste momento que será estudado por gerações futuras. Busco sobreviver - afinal ainda não fui a Teruel.
