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terça-feira, abril 12, 2016
quarta-feira, março 16, 2016
terça-feira, agosto 26, 2014
Sobre ausência e saudade...
| Com Ronald - no ano passado... |
Meu joelho já não doi tanto;
a depressão cede seu lugar à tristeza;
a saudade vai, aos poucos, substituindo a ausência.
Continuo buscando a alegria - em substituição à dor, que vem sem ser chamada.
Fernando, meu sobrinho e afilhado, fez-me companhia durante um mês -
o que me ajudou muito.
Estou refazendo o jardim,
ordenando livros e fotos,
jogando fora objetos inúteis,
abrindo a casa e deixando entrar luz ...
E, como sempre, arrumando a mala...
Devo partir no final desta semana...
![]() |
| Com Fernando - há 10 anos... |
Já sobre meu vazio coração
Desceu a inconsciência abençoada
De nem querer uma ilusão."
Fernando Pessoa
terça-feira, julho 08, 2014
Paxton: agradecimentos
| Amanhecer em Paxton |
No final de maio, cheguei, desta vez sozinha, no interior da pequena e acolhedora Paxton. Apesar da ausencia tao dolorosa de Daniel e Ronald, foi - me confortavel o acolhimento afetivo e gentil da familia. Sinto-me realmente em casa, cercada por pessoas queridas, objetos conhecidos, paisagem sempre igual.
| Daniel e Ronald |
No meu quarto, livros, roupas e objetos meus e de Ronald. Organizo detalhadamente tudo. Embora eu pretenda voltar no ano que vem, sei que nada do que foi sera... Todos da familia procuram me auxiliar na solucao de questoes burocraticas e planejam atividades que tornem mais leve minha permanencia - sem Ronald pela primeira vez. Investem no meu retorno `a casa da familia todos os anos...Prometo retornar.
| Kupferschmid' s House |
Lora, com invejavel vitalidade, eh amorosa e prestativa; Anna e Keneth sao cuidadosos e gentis; Judah, agora um menino grande, jah com carteira de habilitacao, continua doce e disponivel. Sharon, Randy e Pam ajudaram-me, com afeto e solidariedade, a passar por momentos de muita dor. Meu agradecimento e meu afeto a toda a familia Kupferschmid.
| Lora e eu |
O Memorial Service for Ronald Dean McKinney estara, na minha memoria, como um dos momentos mais comoventes da minha vida. Emociono-me quando lembro daquele escoces, na gaita-de-foles, executando o Toque de Silencio, enquanto um telao projetava imagens de Ronald no exercito, e uma bandeira do pais me era entregue.
| Toque do Silencio |
Emociono-me quando penso nas mensagens de parentes e amigos , que testemunharam amor e respeito ao meu marido e disseram da saudade que ele deixou. Quero escrever a cada uma dessas pessoas , para externar minha gratidao . Agradeco muitissimo a Kevin e Sherry, Vicki e Shanna Ferrel, Randy e Candy Rigglemann, Brinda e Daiana, Patricia e Mike Tipsord, Tim Roth e Familia, Dave e Kitty . Agradeco aos familiares e amigos do Brasil que tambem enviaram mensagens e testemunhos.
"Ron e eu nos conhecemos numa festa de Natal, em 2005.Trocamos cartas, mensagens e decidimos nos reencontrar em 2009.Vinte dias depois, o querido Kevin Haiser fez nosso casamento, na casa da familia Kupferschmid.Vivemos integralmente cada dia durante 4 anos, 6 meses e 20 dias ( completariamos hoje 5 anos de casados). Tivemos um tempo pleno de harmonia, cuidado mutuo, afeto e companheirismo.Em janeiro, seu generoso coracao parou.Ficou sua lembranca e a forte dor de sua ausencia."
| Vicki e Candy - queridas amigas |
"Ron e eu nos conhecemos numa festa de Natal, em 2005.Trocamos cartas, mensagens e decidimos nos reencontrar em 2009.Vinte dias depois, o querido Kevin Haiser fez nosso casamento, na casa da familia Kupferschmid.Vivemos integralmente cada dia durante 4 anos, 6 meses e 20 dias ( completariamos hoje 5 anos de casados). Tivemos um tempo pleno de harmonia, cuidado mutuo, afeto e companheirismo.Em janeiro, seu generoso coracao parou.Ficou sua lembranca e a forte dor de sua ausencia."
| Memorias |
Ja estou no Brasil, procurando valorizar o presente deste presente que, cotidianamente, recebo: a vida. Aprendi que a tristeza vem sem ser chamada, mas que a alegria precisa ser buscada no dia a dia. Pela memoria de Ron, quero buscar a alegria de viver porque acredito que ele gostaria de me ver bem.
| Memorias |
"Ter pressa eh nao saber chegar.
Vou devagar.
Vou devagar porque o que eh sorte,
E o que eh morte.
Nao as busco, nao as evito.
Vem-me buscar.
Por isso vou sob o infinito
Sem me apressar.
Se eu for depressa, nunca chego.
Devagar,vou
Com o meu ser e com sossego:
Existo,estou."
Fernando Pessoa
quinta-feira, junho 26, 2014
Triste retorno a Illinois
Estou em Illinois ha um mes. Pouco escrevi - e muito vivi - durante esse tempo. Alternei momentos muito tristes, com momentos bonitos e emocionantes e momentos de muita apredizagem. Foi muito triste retornar a Paxton sozinha e encontrar roupas, livros e objetos pessoais meus e de Ron. Foi muito bonita e emocionante a celebracao preparada pela familia e pelos amigos, na igreja protestante frequentada por ele. Foi um intenso aprendizado relacionar-me com a burocracia do pais - embora agil....eh burocracia igual. Amanha, irei para Atlanta. Estarei duas semanas com meu filho, meu neto e minha nora. Espero retornar ao Brasil melhor do que cheguei aqui. Esse eh meu desejo maior.
"Um inseto feio
Cuja cor agrada
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USA
domingo, fevereiro 23, 2014
Bonn, onde nasceu Beethoven.
| Centro Histórico de Bonn |
Recordarei a visita a Bonn, no dia de Natal, com carinho e saudade....para sempre. Pedro, Ronald e eu, acompanhados de mapas e roteiros, feitos por Gisela e Alex, partimos de Colônia, carregando presentes, alegria e afeto. Íamos ao almoço natalino com pessoas muito queridas: a familia Arintzis. Emanuel e Alex nos esperavam na Estação de Trens.
| Entradas no almoço de Natal |
Gisela nos esperava com a mesa posta, lindamente decorada, deliciosamente preparada, combinando pratos gregos e alemães. Esperava-nos também a pequena Joanna, filha de Emanuel, que, com seus 11 anos, ajudava a avó e nos recebia como gente grande.
| Prato principal |
Pedi para Gisela uma cópia do cardápio. Queria dividir essas informações com gente amiga que gosta de cozinhar.Ela, então, escreveu:
Entradas: Sarmades ( aquelas trouxinhas gregas deliciosas); torta de galinha; bolinhos de carne; tomates secos com azeite de oliva; frutos do mar.
Prato principal: purê de batatas ( assados como se fossem pãezinhos); filé de suino com creme de nata; e ervilhas e cenoura baby na manteiga.
Sobremesa: torta e sorvete deliciosos.
| Centro Histórico de Bonn |
Após o almoço, fomos, com nossos amigos, visitar Bonn. Não são muitas as ex-capitais que conheço, principalmente uma ex-capital que conservou fama e charme e é bastante visitada por turistas nacionais e internacionais. Entre 1949 e 1992, a cidade foi capital da República Federal da Alemanha.Hoje tem cerca de 300 mil habitantes, é cosmopolita e destaque econômico e cultural no país.
| No Centro, bela iluminação natalina |
Bonn surgiu, ainda no período pré-romano, como local de passagem sobre o rio Reno. Tornou-se muito importante com a chegada dos poderosos arcebispos de Colônia, no século 13. Há uma exposição permanente da Fundação Casa da História ( Haus der Geschichte ) que conta a história da cidade e narra o contexto político da pós-guerra até a reunificação.
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| Munsterplatz e Basílica ao fundo |
A Basílica e a Rathaus ( Prefeitura ) são visitas imprescindíveis. Na praça Münsterplatz, está a Basílica de Bonn, construída nos séculos 11 e 12 em estilo românico e gótico. A Prefeitura foi construída no final do período barroco - 1737 - 1738. Foi destruída em 1944/1945 e reconstruída de acordo com seu projeto original. É o cartão postal da cidade.
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| Praça do Mercado |
Imprescindível também é uma visita à Praça do Mercado ( Marktplatz ). O Mercado, com seus prédios estreitos que mesclam arquitetura moderna e barroca, situa-se na rua favorita para quem faz compras em Bonn. Essa rua é a maior pedonal contígua da Alemanha. Fiquei encantada com as cafeterias da Praça - além de elegantes e bem atendidas, servem tortas fantásticas.
A cena cultural em Bonn é constante e de alta qualidade. Sua fama como cidade das artes é bem difundida. O Teatro de Bonn é conhecido pelas suas produções de repercussão internacional. Desde 1992, realiza-se aqui a Bienal do Teatro.
| Arte em espaços públicos |
Há muitos museus na cidade. De arte, informaram-me que dois deles merecem demoradas visitas: o Museu de Arte de Bonn e o Salão de Artes e Exposições da República Federal da Alemanha. Mais um motivo para retornar! Além dos museus, há fantásticos exemplares de arte e arquitetura nos espaços públicos da cidade.
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| Casa de Beethoven + grafite em frente a ela |
Como se não bastassem todos os belos atributos da cidade, ainda nasceu aqui Ludwig van Beethoven, numa rua tranquila, numa casa simples, construída no século 18, em estilo barroco. A Beethovenhaus hoje abriga um museu, onde estão preservados escritos originais dele. Interessante que, pelos registros, os japoneses são os que mais visitam o museu.
| Estátua de Beethoven |
Bonn de muitas formas homenageia seu cidadão famoso. Uma dessas homenagens é a Beethovenfest, uma série de concertos que todos os anos , nos meses de setembro e outubro, mostram ao público a beleza da grande música clássica. Há outro espetáculo de música bastante conhecido na cidade, quando uma frota de embarcações cruza o Reno, entre fogos de artifícios e sons de tendências variadas. É o Rhein in Flammen.
| Universidade de Bonn |
Fundada em 18 de outubro de 1818, por Frederico Guilherme III, rei da Prússia ( de que fazia parte a Renânia) possuía, ao seu início, os cursos de Teologia, Direito, Farmácia e Estudos Gerais - não consegui saber a abrangências desses Estudos Gerais, mas vou pesquisar porque fiquei bastante curiosa. Teve como precursora a Academia de Bonn, fundada em 1777.
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| Universidade de Bonn |
O curso de Teologia estava dividido entre Teologia Católica Romana e Teologia Protestante. Posteriormente criou os cursos de Medicina e Filosofia. A Faculdade de Filosofia atualmente é a maior, tendo cerca de 10 mil alunos. A Universidade iniciou com 35 professores titulares e 8 adjuntos. Seu prédio impressiona pela imponência e grandiosidade.Mais que os prédios, porém , impressionam seus professores e seus alunos, que realmente construíram uma história de excelência e competência.
| Universidade de Bonn |
A Universidade está classificada na 3a. posição no ranking das universidades alemãs e , num ranking mundial ,divulgado pela Espanha, está em 6o. lugar. No quadro dos professores, constam 9 ganhadores do Prêmio Nobel - entre eles Luigi Pirandello. Na relação dos alunos que a frequentaram estão Conrad Adenauer, Papa Bento XVI, Jurgen Habermas, Karl Marx e Friedrich Nietzsche. Era dia de Natal. Foi impossível visitá-la toda, como eu gostaria. Outro motivo para retornar.
| Centro Histórico |
Agradeço muito a Alex, Gisela, Emanuel e Joanna por este dia tão especial, tão bonito, de que Ronald , Pedro e eu gostamos tanto. São lembranças como essas que me ajudam a suportar a dor pela perda de meu marido e a construir um novo caminho, pavimentado com a saudade e desenhado com a vontade de continuar vivendo.
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| Alex fotografou Ronald fotografando a Pedro e a mim |
" Nem tudo é dias de sol,
E a chuva , quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade.
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva ... "
Fernando Pessoa
Em agradecimento : https://www.youtube.com/watch?v=983rtDXkFek&vl=pt
sexta-feira, fevereiro 14, 2014
" Assim é..."
"Nem tudo é dias de sol,
E a chuva , quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade.
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva ...
O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha, pensar como quem anda,
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica....
Assim é e assim seja."
Fernando Pessoa
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Ronald Dean Mckinney
quarta-feira, janeiro 29, 2014
Viver é preciso. Sim!
Escrevi muitas vezes que a vida é simplesmente isto: uma sucessão de chegadas e partidas. O sentido dessa afirmação me era leve, porque estava vinculado à escolha de um estilo de vida andarilho, que tanta alegria me proporcionava.
Nestas últimas semanas, percebo, entretanto, desenhos marcantes de tristeza e dor no traçado das mesmas palavras. Percebo, na sucessão de chegadas e partidas, viagens sem retorno, ausências físicas e dores de cruel extensão. Já não há projetos, planos, partilhas.
Resta-me , no entanto, a vida em oposição à morte. E viver é preciso. Abro, por isso , agendas, câmeras, cadernos e papeis avulsos, de onde retiro fotos e textos esparsos sobre Aachen, Bonn, Heidelberg e Colônia, na Alemanha, e Edinburgh , na Escócia, e, com esse material, passo a compor e relatar aqui, no Correndomundo, passeios lindos, com lembranças bonitas , que amenizam dor e saudade. É a minha tentativa de reencontrar um sentido para a travessia. Urge escolher um novo itinerário - e percorrê-lo até a partida final - única certeza de nossa humana transitoriedade.
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Ronald Dean Mckinney
segunda-feira, janeiro 13, 2014
Fernando Pessoa
Na paisagem sepulta desta vida
Encontrarei uma alma tão querida
Às coisas que em meu ser são as reais.
..........................................................
Não mais, não mais, e desde que saíste
Desta prisão fechada que é o mundo,
Meu coração é inerte e infecundo
E o que sou é um sonho que está triste.
Porque há em nós, por mais que consigamos
Ser nós mesmos a sós sem nostalgia,
Um desejo de termos companhia —
O amigo como esse que a falar amamos.
Fernando Pessoa
quarta-feira, janeiro 08, 2014
Sobre o inesperado de uma viagem - 3a. e ultima parte.
( ...continuacao)
Pelos numeros dos monitores, percebi que a situacao dele piorava gradativamente. Pediram-me que eu saisse do quarto ( ocupavamos um quarto dentro do Intensive Care ) por 20 minutos. Iriam muda-lo de posicao e trocar alguns aparelhos. Vim para a sala de visitantes e recomecei a escrever - unica maneira que eu encontrara de me administar. A qualquer momento, tocaria o telefone da sala, autorizando-me a voltar para junto com Ron. Meus labios estavam secos, eu sentia sede, dor de cabeca, tremia muito, estava com medo e assustada. Dava-me conta de que nao temos informacoes minimas sobre a morte de qualquer ser humano - informacoes basicas, como respiracao, pressao, dor. Ate da morte - certeza absoluta - nossa visao eh idealizada.
Quando voltei ao quarto, encontrei-o limpinho e vestido com uma bata branca, com pequenos desenhos verdes e azuis. Pensei em contar a ele sobre o modelito que estava usando. Informaram-me que ele estava totalmente sem sedacao. Percebi que o estava testando no aspecto neurologico. Nao havia, entretanto, reacoes ou respostas. Continuei falando com ele o tempo todo. Eu o abracava e contava das noticias enviadas, das mensagens recebidas, da preocupacao e da tristeza de tantas pessoas, em diferentes lugares do mundo. Relembrava nosso cotidiano: os meus tenis que ele lavava e punha os cordoes; os armarios que ele arrumava por eu ser baixinha; o cafe que ele aprendera a fazer no Brasil...Falava no Gifford, nosso Labrador, adotado pelo Antonio Angelo; falava da mesa de carpinteiro que ele esta construindo em Torres e do seu gosto de trabalhar com madeira; relembrava planos e projetos nossos. Falava de nossos filhos,de Jim, na China; de Kevin, em Oregon; de Gugu,na Bahia; de Patati em Atlanta; de Fabiana,em POA.
A enfermeira preocupa-se comigo. Mede minha pressao. Diz que esta alta no momento. Aconselha-me a procurar um cardiologista. Prometo que farei isso no Brasil. Surge um problema a mais: Pedro tem 14 anos e, neste pais, ninguem com menos de 16 anos, pode estar sem acompanhamento de adulto por ele responsavel. O gerente do hotel me comunica que Pedro nao pode mais ficar no hotel sem mim. O pessoal do hospital , por saber da situacao do Pedro, sente-se responsavel tambem. Improvisam, novamente, na ultima noite, um quarto para mim e para ele, numa sala dos funcionarios. Conseguem ate um DVD e filmes para o Pedro ver. Em torno de 02h, fui ver como Pedro estava. Ele acordou e propos-me uma troca: eu dormiria durante uma hora, e ele ficaria ao lado do Ron. Duas horas depois, ele me acordou. Havia mesmo estado, esse tempo todo, ao lado do Ron.
De manha cedo, vim trazer Pedro ao Hotel. Em menos de hora, chamaram-me ao hospital para uma reuniao com a medica e a enfermeira responsaveis pelo Ron. Como envolvia muitos termos tecnicos e era preciso que eu tivesse clareza da situacao, haviam chamado uma tradutora tambem. Detalharam o quadro cardiologico e neurologico do Ron, evidenciando a certeza de que nao havia mais funcao cerebral. As maquinas seriam, entao, desligadas. Perguntaram quanto tempo eu gostaria de estar sozinha com nele antes do desligamento. Pedi 15 minutos. Perguntaram-me onde eu queria estar quando os aparelhos fossem desligados totalmente. Escolhi ficar junto com ele. Deram-me todas as informacoes, incluindo o que ocorreria ate ele ser declarado morto. Perguntaram-me quais pessoas do hospital eu queria que estivessem presentes naquela momento. Pedi que fosse somente Louise, a enfermeira.
Voltamos as duas para o quarto do Intensive Care. Abracei o Ron. Contei-lhe o que seria feito, mesmo sabendo que ele nao me ouvia. Pedi-lhe que nao tivesse medo nem ficasse assustado. Louise ia desligando cada aparelho e me explicando a consequencia que teria. Eu chorava muito e o abracava muito forte. Por ultimo, ela me disse que desligaria o oxigenio, e ele deveria morrer em pouco tempo. desligou. Ele ainda viveu 15 minutos. Nesse tempo, a respiracao foi ficando mais suave, mais espacada, ate que parou completamente. Sua expressao ficou serena. Fechei-lhe os olhos e rezei, rezei tudo o que eu sabia rezar. As maquinas foram todas retiradas, e eu permaneci - acredito - mais uns 15 minutos com ele, ate que consegui decisao e forca para afastar-me.
Aguardava-me outra reuniao para que me orientassem como proceder a partir dai , no que se referia `a parte burocratica: atestado de obito ( que em poucos minutos me foi entregue ), registro desse atestado, pagamento do hospital pelo Seguro de Viagem - ou por mim; escolha da funeraria; rituais de cremacao; documentacao exigida para transporte da urna com as cinzas. Terminada a reuniao, voltei onde estava Ron. Fiquei um tempo com ele. Tinha expressao serena. Estava bonito como sempre foi. Vim para o hotel avisar o Pedro, que me disse ja ter-se despedido do Ron, ainda de manha cedo.
A partir dai, ate este momento, procuro ser a mulher corajosa e forte de que Ronald sempre se orgulhou. Meu unico objetivo eh preservar minha vida , unico bem que realmente importa , mesmo que seja uma vida dilacerada pela dor e pela saudade. Ainda nao sei como poderei continuar...mas vou descobrir e tracar o caminho. Sobram-me a memoria das boas lembrancas e a certeza de que Ron e eu vivemos plena e intensamente o pouco tempo que tivemos casados: 4 anos, 6 meses e 20 dias. Ele inspirava confianca, serenidade, afeto. Era essencialmente do bem. Eu fui prioridade na vida dele. Ronald deixa, a todos que o conheceram, um legado de respeito , um exemplo de homem honesto, correto , trabalhador, sensivel e com inesgotavel condicao de amar.
Dorme doce, meu amor. Ajuda-me a cuidar das pessoas que amamos - nossos familiares e nossos amigos.Ajuda-me a continuar vivendo. Se existir mesmo vida apos esta, a gente se encontra, como se encontrou em Illinois, naquela festa de Natal, em 2005.
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O inesperado em viagem,
Ronald Dean Mckinney
Sobre o inesperado de uma viagem - 2a. parte
Pedro e eu fomos para o apartamento no hotel, conectamos os notes e falamos rapidamente com pessoas da familia. Vi que chegavam muitas mensagens. Nao as li; nao havia tempo. Mile, Viviana, Rosana,Ricardo Mendes e Gugu tentavam, a distancia, ajudar de diferentes formas, contatando embaixadas - do Brasil e dos Estados Unidos - enviando-me numeros de telefone e localizando amigos e amigos de amigos que vivem na Escocia. Voltei logo para o hospital, deixando o Pedro no Hotel.
Encontrei Ron estavel - os numeros continuavam os mesmos. Fiquei com ele, segurando-lhe a mao, que estava muito fria. Pediram-me , depois, que saisse de perto, pois iam proceder a colocacao de um cateter nno pescoco. Sai. Acompanhou-me a lembranca de ter passado exatamente por isso, na UTI de Santa Maria, quando o mesmo procedimento foi feito com o meu filho. Confiei que Ron se recuperaria, assim como meu filho se recuperou. Eu precisava de esperancas.
Aqui estou agora, esperando ser chamada para perto de Ron. Escrevo na tentativa de diminuir minha tensao, de tornar mais leve a espera e de preparar-me para todas as esperas que estao por vir. Tenho esperanca de que vamos sair dessa e e continuar vivendo , como nos 4 anos e 6 meses que estamos juntos, numa delicada e cuidadosa relacao de amor, companheirismo, solidariedade, partilha. Uma relacao de bondade, como me diz sempre a Neneca.
Nao retornei ao hotel. Decidi ficar, durante a noite, perto do Ron. O pessoal da enfermagem improvisou um quarto para mim, numa sala dos funcionarios. Depois da meia-noite, expliquei ao Ron que dormiria um pouco, mas que estava por perto e que, a qualquer alteracao, eu seria chamada por Paul, o enfermeiro responsavel por ele. Dormi apenas uma hora. Retornei ao meu lugar, entre monitores e multiplos aparelhos.
Conversou comigo uma outra pessoa, talvez fosse a chefe da unidade. Aconselhou-me a avisar os filhos do Ron e demais familiares. Percebi o que significava isso. Eu ja conhecia os numeros dos monitores e sentia cada mudanca como uma ameaca. Fui orientada por medicos e enfermeiros a conversar com o Ron - segundo eles, faria bem a mim e ttalvez a ele. Conversei muito. Relembrei fatos da nossa vida. Falei das pessoas que gostavam muito dele: Mile, Fernando, Pedro, Fabianinha, Marcel, Gugu, Cleber, Fabio, Rosana, Clovis, Adriana, Neneca, Antonio Angelo, Renildo e muitos, muitos outros.
Falei de nossa combinacao de que deveriamos ser cremedos e nossas cinzas incluidas `a terra de um pequeno morro, no meu campo , na bela Uniao. Combinaramos que sobre nossas cinzas se faria uma cruz, com pedras do proprio campo. Relembrei pessoas de Illinois, familiares e amigos.Rezei muito.Rezei como Ron sempre fazia antes das nossas refeicoes.Minha dor de cabeca aumentava. Sentia-me no limite. Pensei no Pedro, sozinho no hotel. Tentei acalmar-me. Voltei ao meu improvisado quarto e escrevi este texto, porque escrever era minha alternativa de acalmar-me, reunir forcas e administrar minha dor. Nao consegui dormir, voltei para junto do meu marido, que nunca me deixava sozinha, ate mesmo quando eu tinha uma simples gripe.
Escrevo, novamente, por necessidade de usar a minha lingua e tentar, com ela, analisar a situacao, planificar o que preciso fazer e tomar as decisoes necessarias. Escrevo tambem para nao me sentir tao soh. Consegui organizar um esquema de conexao com familia e amigos. Pedro reune as informacoes e, pelo IPad, repassa-as a algumas pessoas...Gugu contatou Jim e Kevin , os filhos do Ron. Jim, que mora na China, telefona-me com frequencia. Esta preocupado com o pai e comigo. Pediu-me para que eu tentasse dormir um pouco.Choramos muito e externamos nossos medos - mais medo que esperanca. Jim falou com o medico responsavel pelo Ron. As noticias foram muito ruins. Jim 'e favoravel ao desligamento das maquinas.
Andreza, gaucha de Encantado, amiga de Viviana Neves, veio encontrar-nos no hotel. Ela mora em Edimburgo. Levou-me para comprar um celular e trouxe -me ate o hospital. Solidaria e atenciosa, ofereceu-se para nos ajudar aqui. Numa vinda para o hotel, um velho taxista, vendo-me chorar, perguntou-me o que acontecera. Contei-lhe. Ao saber que Pedro e eu estavamos sozinhos, parou o carro, escreveu num pedaco de papel os nos. de seus telefones de casa e celular. Disse-me que se eu precisasse de ajuda, telefonasse que ele e a esposa viriam nos ajudar.Choro muito quando algo assim me testemunha o quanto de bondade existe num mundo onde insistimos em enxergar apenas o ruim. Conversei com Pedro sobre voltar ao Brasil. Ele reafirma que a prioridade somos o Ron e eu - e esforca - se para ajudar e para cuidar de mim.
Andreza, gaucha de Encantado, amiga de Viviana Neves, veio encontrar-nos no hotel. Ela mora em Edimburgo. Levou-me para comprar um celular e trouxe -me ate o hospital. Solidaria e atenciosa, ofereceu-se para nos ajudar aqui. Numa vinda para o hotel, um velho taxista, vendo-me chorar, perguntou-me o que acontecera. Contei-lhe. Ao saber que Pedro e eu estavamos sozinhos, parou o carro, escreveu num pedaco de papel os nos. de seus telefones de casa e celular. Disse-me que se eu precisasse de ajuda, telefonasse que ele e a esposa viriam nos ajudar.Choro muito quando algo assim me testemunha o quanto de bondade existe num mundo onde insistimos em enxergar apenas o ruim. Conversei com Pedro sobre voltar ao Brasil. Ele reafirma que a prioridade somos o Ron e eu - e esforca - se para ajudar e para cuidar de mim.
Na noite seguinte, dormi no hotel, conforme Jim me pedira. Tomei um tranquilizante e dormi durante 6 horas. Tomei cafe com Pedro e logo chamei para o Intensive Care. Disseram-me que eu fosse imediatamente para o hospital. Fui e encontrei Louise , a doce e competente enfermeira que assistia Ron. Fui informada de que ele havia piorado, estava sendo aquecido para ver se reagia. Agora rins, coracao e pulmao funcionavam com aparelhos. Perguntaram minha opiniao sobre o desligamento das maquinas que o mantinham vivo. Ja sabiam que os filhos do Ron eram favoraveis ao desligamento. Pedi um tempo para pensar e fui para junto dele.
Voltei a falar com Ron. Pedi-lhe ajuda. Ele deveria decidir sobre a vida dele. Repeti isso. Vi , pela primeira vez, uma lagrima escorrer pelo rosto dele. Mostrei para a enfermeira. Ela assegurou-me que era uma reacao mecanica, porque ele havia vomitado. Eu ainda acredito que nao. Esperava-se quem depois de aquecido, houvesse alguma reacao. Nao houve. Ele parecia muito tranquilo. Passei a falar com ele sobre o tempo em que estiveramos juntos, como o haviamos aproveitado bem, de como minha familia e meus amigos gostavam dele e de como os filhos dele gostavam de mim. Falei depois sobre nossos mortos amados: nossos pais, os irmaos dele, a filha que ele perdera. Falei muito sobre Daniel, nosso amado Dan, pai adotivo dele e que morrera ha pouco tempo. Disse-lhe que nao sentisse medo e nem se sentisse sozinho nessa hora.
Como na Escocia so o medico pode determinar o desligamento das maquinas, informaram-me que esperariam ate o dia seguinte . Estou convencida de que temos um limite de forcas alem do limite que pensamos ter. O resto deste dia, a noite toda e ate as 11 horas da manha comprovaram-me isso. Administrei a minha dor no limite do que me foi possivel. Perguntaram a religiao do Ron e ofereceram-se para chamar um ministro protestante. Concordei. Veio um senhor e rezou pelo Ron e, mais ainda, por mim. Falei com Gugu. Ele me pediu que nao permitisse o desligamento das maquinas. Choramos muito. Expliquei-lhe que essa decisao nao era nossa. Eu seria apenas comunicada dela - como o fui na manha seguinte..........
Voltei a falar com Ron. Pedi-lhe ajuda. Ele deveria decidir sobre a vida dele. Repeti isso. Vi , pela primeira vez, uma lagrima escorrer pelo rosto dele. Mostrei para a enfermeira. Ela assegurou-me que era uma reacao mecanica, porque ele havia vomitado. Eu ainda acredito que nao. Esperava-se quem depois de aquecido, houvesse alguma reacao. Nao houve. Ele parecia muito tranquilo. Passei a falar com ele sobre o tempo em que estiveramos juntos, como o haviamos aproveitado bem, de como minha familia e meus amigos gostavam dele e de como os filhos dele gostavam de mim. Falei depois sobre nossos mortos amados: nossos pais, os irmaos dele, a filha que ele perdera. Falei muito sobre Daniel, nosso amado Dan, pai adotivo dele e que morrera ha pouco tempo. Disse-lhe que nao sentisse medo e nem se sentisse sozinho nessa hora.
Como na Escocia so o medico pode determinar o desligamento das maquinas, informaram-me que esperariam ate o dia seguinte . Estou convencida de que temos um limite de forcas alem do limite que pensamos ter. O resto deste dia, a noite toda e ate as 11 horas da manha comprovaram-me isso. Administrei a minha dor no limite do que me foi possivel. Perguntaram a religiao do Ron e ofereceram-se para chamar um ministro protestante. Concordei. Veio um senhor e rezou pelo Ron e, mais ainda, por mim. Falei com Gugu. Ele me pediu que nao permitisse o desligamento das maquinas. Choramos muito. Expliquei-lhe que essa decisao nao era nossa. Eu seria apenas comunicada dela - como o fui na manha seguinte..........
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