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segunda-feira, março 24, 2014

Escócia: tours de um dia


Entrada principal do Castelo de Stirling

Na busca de informacões, com que precedo qualquer viagem, descobri vários tours de um dia, com  11 ou 12 horas de duração, pelo interior da Escócia. Depois de ler apreciações e análises de outros viajantes, optei por dois que me pareceram bem interessantes - um que incluía o Castelo de Stirling; outro, o Lock Ness.
Loch Lomond

O primeiro ia, além do Castelo, ao Loch Lomond e a Glengoyne Distillery. O segundo, além do Loch Ness, ia às Terras Altas e a outra Distillery. Tinham cerca de 12 horas de duração e custavam um preço bastante razoável ( menos de 40 libras por pessoa).Nos dois, a presença dos ícones culturais da Escócia: kilt,gaita de foles e whisky.
Percurso com paisagens lindas
As paisagens do interior da Escócia são tão variadas e bonitas que  amenizam o desconforto do ônibus com que fizemos o tour - um dos piores em que já viajei. Ainda bem que a primeira visita compensa - e muito - o esforço feito. O Castelo de Stirling , um dos exemplos da cultura renascentista no país, situado no alto de um vulcão extinto, oferece , além dos tesouros que guarda, uma vista fantástica dos campos da região e da antiga cidade próxima a ele, que é conhecida como Colina do Castelo.

Detalhes do Castelo de Stirling
Stirling é um dos maiores castelos do país, famoso pela arquitetura e pela história. Sua existência começa no ano 1100, mas a maior parte dele foi construída entre 1496 e 1583. Foi residência de reis e rainhas durante mais ou menos cinco séculos e objeto de lutas e disputas em batalhas sangrentas - o que  propicia, até hoje,  cenário para muitas histórias de assombração. Viveu também aqui a rainha  Maria Stuart - muito criticada por participar de jogos de golfe logo depois do assassinato de seu marido, lord Darnley, em 1568.

No Castelo, muitas estátuas de heróis que o defenderam.

O Castelo é cercado por escarpas íngremes em três de seus lados. Mesmo assim, foi sitiado e atacado 16 vezes e testemunhou grandes batalhas nas planícies de sua proximidade, como a célebre - assim dizem os escoceses - Batalha de Stirling Bridge, em 1297, em que William Walace venceu o exército inglês, que tentava atravessar o rio Forth e chegar ao Castelo.

Vista a partir da estrada de acesso ao Castelo

Após muitas batalhas que o defenderam, Stirling tornou-se, entre 1800 e 1964, propriedade do Gabinete de Guerra da Escócia e transformou-se em quartel. Lamentavelmente, nesse período, sofreu alterações diversas, como a transformação da capela Real em sala de jantar.

Detalhe da arquitetura do Castelo
Em setembro de 1964, a Sociedade de Proteção aos Monumentos Históricos responsabilizou-se pelo Castelo Stirling. Hoje ele abriga um museu do exército, uma pequena galeria de arte e um estúdio de tapeçaria, que procura reproduzir as peças existentes antigamente no local -  hoje muitas dessas tapeçarias estão espalhadas por diferentes museus nacionais e internacionais.

Portas e portões majestosos

Há, ainda, um grande espaço - e um cenário fantástico -  para concertos e apresentações de grandes artistas, como Bob Dylan e os R.E.M. que já se apresentaram nesse lugar. É um passeio que eu recomendo, acrescentando que, se possível, use carro de modo a ter tempo para ver, detalhadamente, o castelo e seu entorno. Visita realmente aconselhada.

Ronald e Pedro no Loch Lomand
Saindo do Castelo Stirling e de seu magnífico entorno, incluindo cemitérios com jardins muito bem cuidado, cruzamos por estradas e estradinhas, passando por outros castelos e por charmosos povoados. Chegamos,então, ao local onde almoçamos, um desses espaços turísticos muito artificiais e sem grandes encantos. Daí partimos para a segunda visita que constava do programa: Loch Lomond , um  bonito lago, mas nada surpreendente ou capaz de provocar um prolongado  ohhhhhh!!!!

Loch Lomond
Loch Lomond e os Trossachs foram designados como o primeiro Parque Nacional da Escócia , em 2002. Tornou-se  uma área bastante popular entre os habitantes locais e os visitantes. Lomond é um lago - loch em gaélico escocês - de água doce, na Falha das Highlands, com 39 km de comprimento para um máximo de 8 km de largura.
Lojinha turística em Balmaha

A profundidade média do loch Lomond é de 37 metros, mas ele chega a alcançar uma profundidade máxima de 190 metros. Situa-se a 23 Km ao norte de Glasgow. Pela sua extensão, é o maior dos lochs da Grã-Bretanha; e o segundo, depois do Loch Ness, em volume de água.

Cascata na Glengoyne Distilaria
Após a visita ao Lago e uma bela caminhada pelas suas margens, fomos ver a  Glengoyne Distillery, situada em um vale arborizado nas Southern Highlands . Essa destilaria, que leva o nome de ' Glen Guin ' ou Glen dos gansos selvagens , produz , há quase 200 anos,  um único malte de alta qualidade. Sua localização é muito bonita, em meio a um bosque , com uma cascata de água puríssima, usada na fabricação do wisky ali produzido.
Entrada na Glengoyne Distilaria
Ronald foi assistir à demonstração de todos os processos de fabricação do famoso wisky. Pedro e eu, como não bebemos, fomos conhecer e fotografar o bonito lugar onde a Glengoyne está instalada. Terminávamos, assim, o primeiro tour que havíamos planejado para o interior da Escócia.

Cascata nas Highlands fotografada por Pedro
No dia 1o. de janeiro, Ronald , Pedro e eu fomos à Estação Central de Trens com o objetivo de ir à cidade de Dundee. Não sabíamos, entretanto, que o primeiro dia do ano é feriado integral para os escoceses. Nesse dia, os trens locais não funcionam - somente funcionam os de longa distância que vão a outros países. Gastamos o dia passeando por Edimburgo.

Lago Ness  fotografado por Pedro
Tínhamos programado um tour de 12 horas para conhecer o Loch Ness - e quem sabe fotografar o monstro ou comprar uma simpática miniatura dele. Mas, como diz o velho ditado Iídiche,  "O homem planeja e Deus dá risada". Eu passei muito mal a noite, não consegui dormir, estava angustiada, tensa e sentia fortes dores nas pernas. Ronald propôs-me que eu ficasse no hotel e tentasse descansar e dormir. Ele iria com o Pedro. Foram. Voltaram felizes, trazendo chocolates e comidinhas para mim. Não o acompanhei, portanto, nesse  que foi seu último passeio. Enfartou na manhã seguinte.

Highlands by Pedro Menini

" Lançou-me a mágoa seu véu:
Menos um ser neste mundo
E mais um anjo no céu."

Fernando Pessoa

sábado, janeiro 04, 2014

Sobre o inesperado de uma viagem - 1a. parte



Dia 2 de janeiro, fiquei no hotel todo o dia, enquanto Ronald e Pedro foram ao Lago Ness. Estava angustiada, com dor no joelho e sentia necessidade de ficar soh, de ficar parada. Eles voltaram bem, contando as avbenturas do dia. Ron disse que se lembrara muito de mim quando fizeram um passeio de barco, durante meia hora, pelo Ness. Eu havia organizado nossa bagagem e revisado tudo para o dia seguinte irmos a Bristol. Lembro que Ron foi ao banheiro, duas vezes, durante a noite, mas me pareceu que voltara a dormir tranquilo.


`As 06h , despertou o relogio. Notei que ele estava respirando com dificuldade, o que era comum acontecer de manha por causa da asma de toda a vida dele.Era cedo para o cafe , que comecava as 07h no hotel, onde estavamos hospedados a uma semana. O funcionario da recepcao sugeriu, entretanto, que fossemos tomar cafe, ja que estava tudo preparado. Descemos.Eu tomei cafe puro; Pedro comeu algo; Ron nao quis nada. Falei na respiracao dele - disse-me que era o problema de sempre e que eu ficasse tranquila.

Haviamos decidido ir caminhando ateh a estacao central de trens, jah que era perto e tinhamos tempo. Caminhamos menos de duas quadras, e o Ron comecou a passar mal. Assustei-me porque ele me disse que sentia dor no estomago e queria ir ao banheiro. Sugeri que voltassemos para o hotel. Ele, entao, parou, comecou a respirar pior ainda, a ficar palido e a gemer desesperadamente. Por sorte, Pedro viu passar um taxi e chamou. Assim que entramos no carro, Ron comecou a ter fortes dores no peito. Pedro e eu dissemos ao motorista que nos levasse urgente a um hospital.

O hospital era longe. Creio que levamos uns 15 minutos para chegar. De 3 a 5 minutos da chegada - nessas horas eh dificil precisar medida de tempo -  ele desmaiou. Pedro e eu o seguramos. Nesse momento, senti seu pulso inexistir e percebi que ele parara de respirar. A cabeca dele caiu sobre o meu ombro. O hospital estava perto; nos o avistavamos. Assim que o carro parou, o taxista chamou  uma pessoa que estava na frente da emergencia e , imediatamente, apareceram quatro outras pessoas. Ron foi retirado do carro, colocado numa maca, que desapareceu no corredor do hospital, antes mesmo que saissemos do carro.Foi tudo muito rapido, mas muito mesmo.

Apareceu mais alguem do hospital ( Royal Infermary of Edinburgh ) , retirou nossa bagagem do taxi e acomodou Pedro e eu numa sala. Estavamos assustadissimos. Lembro que eu tremia muito. Veio , inicialmente, uma moca para saber a data de nascimento do Ronald. Perguntei a ela se Ron estava vivo. Respondeu-me que um medico viria falar comigo. A mesma moca voltou outra vez, mas sem informacao nova. Disse apenas que havia leite, cha e agua na sala onde estavamos e que precisavamos aguardar ali.


Apos um tempo que foi o mais longo e dificil da minha vida, o medico veio. Era o intensivista. Muito gentil e preciso, perguntou-nos das nossas relacoes familiares com o Ronald, onde moravamos, se estamos em ferias. Depois perguntou-me se ele era fumante - respondi que nao;  como era a saude dele - respondi que fora a asma, era otima. Meu panico era tal que varias vezes pedi que Pedro traduzisse o que ele me dizia.Nao entendia, naquele momento, o ingles e o mundo que me rodeava.


Soh me fixei numa unica frase dita pelo medico: Ronald estah vivo. Disse que ele havia tido um enfarto, sido ressuscitado e estava passando por uma serie de exames para que fosse avaliada a extensao das consequencias disso. Disse que o tempo que ficara sem oxigenio, poderia ter-lhe afetado o cerebro, o que soh saberiam com exames posteriores, depois de 24 horas. 


Logo depois, uma outra moca, penso que assistente social, veio falar conosco, dizendo que Ronald estava em coma induzido. Retornou o medico , perguntando se eu precisava de algo. Falei que gostaria de telefonar para minha familia no Brasil. Ele mesmo fez a ligacao para que eu falasse com o Mile em Torres. Informou-nos tambem que Ron permaneceria talvez uma semana na UTI - Intensive Care. A seguir, vieram duas pessoas com a assistente social e nos transferiram, com bagagem e tudo, para uma sala proxima ao Intensive Care, onde ficamos umas duas horas, aguardando noticias.


Soubemos, entao, que Ron havia sido transferido da emergencia onde fora atendido para o Intensive. Uma moca muito gentil, como todas as outras, acompanhou Pedro e eu ateh onde estava Ron. Deram-nos cadeiras para sentar e disseram poderiamos ficar com ele o tempo que quisessemos. Ver Ron todo conectado por fios, cheio de tudos e todo marcado por esparadrapos e agulhas foi uma dor tao intensa que me parecia fisica tambem.


Nessa hora, Pedro me disse que Ron nao morreria, que ia voltar para Torres, onde ele, Pedro, ficaria muitos dias conosco. Disse que gostava muito do Ron e nao queria perde-lo. Disse, ainda, que estava com muito medo e nervoso, mas que eu e ele nos ajudariamos a superar essa historia ruim. Pedro falava muito comigo. Com seus 14 anos, era um adulto sensivel e lucido. 


Naquele monento eu me senti muito proxima de Ron, segurava-lhe a mao e rezava todas as rezas de todas as religioes que eu conhecera. Falava com ele, dizendo-lhe o quanto eu o amava e que, por isso, nao suportaria perde-lo.Lembrei-me de haver vivido dor semelhante quando Patati, meu filho, foi picado por cobra cascavel. Ateh minha reacao fisica era a mesma: eu tremia muito, sentia dor de cabeca e sentia frio, como se um ar gelado soprasse sobre mim.


Pedro e eu ficamos 4 horas no Intensive Care. Com a ajuda do pessoal da enfermaria, localizamos um hotel proximo ao hospital - 8 min de3 taxi. Fomos ate o hotel com toda a bagagem nossa e do Ron e mais um pacote que me entregaram com tudo o que ele usava quando deu entrada na emergencia. Foi uma dor imensa ver as roupas dele, os tenis, o relogio...As roupas cortadas testemunhavam a urgencia com que fora atentido. No hotel, o funcionario da recepcao, ao olhar meu passaporte, disse que eu falasse portugues, que ele era de Lisboa e que percebia que eu estava muito nervosa. A cada manifestacao de " humanidade" eu fragilizava muito. Queria mesmo era o Ron, a familia e os amigos por perto .


Escrevo na tentativa de dimunuir a tensao, de sentir-me menos confusa e desesperada, de agradecer `as pessoas pelo afetos e preocupacoes demonstradas. Amanha, continuarei. Preciso de forcas para administrar a minha dor.