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domingo, julho 24, 2016

Pamplona: Tradição e Fascínio.

...de todas as idades.
Peregrinos....





















Centro histórico de Pamplona
Idem





















Meu filho - Paulo de Tarso - escreveu  ( http://correndomundo.blogspot.com.es/search/label/Cuba )
que nossos olhares sobre as cidades eram bem diferentes: eu via magia no mundo; ele  via "trânsito, pressa, gente tentando fazer o que pode para pagar as contas, criar os filhos, não morrer de câncer;  gente esperando  chegar a hora de ir para casa ..."



Plaza del Castillo

Lembrei-me da afirmação dele ao conviver com a cidade de Pamplona. Acredito que os muitos séculos  de encontro com peregrinos que fazem o Caminho de Santiago de Compostela, passando pelo meio da cidade, tenham influído sobre a cultura local, tornando as pessoas receptivas, gentis e agradáveis, ao menos com os estrangeiros.

                                                                                 
 
Centro Histórico


Não somos tratados unicamente como turistas - alguém que deixa dinheiro na cidade e incentiva outros a conhecê-la - mas como Peregrinos do Caminho, que " buscam ser gente melhor, para si mesma e para o mundo" , como me falou a senhora de uma cafeteria. Um amigo de Madrid também me havia informado de que a gente de Navarra era maravilhosamente gentil. Confirmo!





tracei partes do Caminho de Santiago em ônibus, carro e trem. Ontem realizei meu sonho: traçá-lo caminhando ......ainda que tenha feito 1,5 km.- sim! um km e meio.   De Sant Jean Pied de Port a Santiago de Compostela - o caminho mais percorrido pelos peregrinos - a distância é em torno de 800 km....mas eu iniciei...





Não se diz, em alguns discursos no lançamento de projetos ou de pedras fundamentais, que "toda jornada se inicia com o primeiro passo " ? Escutei isso algumas vezes - com um sorriso nos lábios para combinar com a assertiva - sempre me perguntando: Como iniciar com outro passo? Como pular diretamente para o segundo passo? 




Pois fiz o primeiro passo e mais um mil e tantos passos....embora continue lamentando jamais ter encarado ao menos os 180 km finais do Caminho. Resta-me esperança de ter vida e tempo ainda para fazê-lo - esperança renascida depois de ver , em Burgos, León, Oviedo e Pamplona, dezenas de velhinhas e velhinhos caminhando... Alguém se dispõe a ir comigo?



                                                 Hemingway , em frente à Plaza de Toros...


Parece mesmo ter sido Ernest Hemingway que, ao publicar o livro O sol nasce sempre, em 1926, tornou Pamplona e sua Fiesta de San Fermin mundialmente conhecida. As homenagens, Hemingway  as recebe até hoje ; a Fiesta - Los Sanfermines - segue acontecendo durante oito dias, sempre de 6 a 14  de julho, para comemorar o aniversário do Santo. Não há touradas atualmente, mas acontece o encierro - a corrida de touros.



                           A foto não é minha. Busquei-a em material de divulgação da Fiesta.


O encierro - tema de grandioso monumento do escultor bilbaíno Rafael Huerta, inaugurado em 2007 -  é nuclear na Fiesta de San Fermin. Todos os dias, às  23  horas  da  noite, 6 touros são soltos para correr 440 metros pela cidade, no silêncio e quase às escuras, a caminho da Plaza de Toros, onde antes aconteciam as touradas. Muitos homens correm à frente dos touros. Contaram-me que o magnetismo do ato é inesquecível para quem participa ou para quem comtempla.






Na Festa de San Fermin, portanto, muitos homens correm com esses touros...ou fogem deles, arriscando a vida. E chamam isso de divertimento - ou de grande emoção. Além do encierro, há fogos de artifício, rituais, desfiles, festas, músicas e danças. Esperei que a festa terminasse para ir a Pamplona - há muito turista e ... emoção demais para minha idade...nos dias de Los Sanfermines...



                                                          Detalhe da Plaza de Toros



Pamplona, cidade do norte da Espanha, capital de Navarra desde o século IX, tem, no entanto, bem mais a oferecer aos visitantes, além de ser parte do Caminho e de ter a tradicional corridas de touros. Encantei-me com o traçado da ciudadela no formato de uma estrela; encantei-me com suas muralhas,  parques, praças e passeios; suas muitas - mas muitas mesmo - igrejas e conventos; seus palácios, museus e universidades. E tem, ainda, o rio Arga, suas pontes e seu belíssimo verde ao redor.



                                                                          Rio Arga


Nas muralhas, construídas por Felipe II com o objetivo de defender a cidade das invasões francesas, estive um tempo olhando o rio Arga, com suas pontes e suas margens belamente ajardinadas e bem cuidadas. Após, fui caminhar no Parque de la Taconera, o mais antigo e bonito de Pamplona, onde se podem ver cervos, gansos e pavões reais que moram nos fossos das muralhas. Há também o Parque de la Media Luna, situado num dos extremos das muralhas , com miradores para o rio Arga.



                                                                   Plaza del Castillo                        



A Praça do Castelo é o coração da cidade - lugar de encontro de pamploneses e visitantes. Neste espaço grande, com 14 mil metros quadrados, muitos eventos já se realizaram: mercados, torneios, concentrações políticas, desfiles militares e corridas de touros até 1844, ano da construção de uma praça de touros permanente. Muito bonita a Praça do Castelo ... porém  sem nada de castelo por perto. O nome provém de um castelo erguido pelo rei Luis El Hutin, no século XIV, e desaparecido no século XVI.


                                             Detalhe da Catedral de Santa Maria la Real
                                                      

A Catedral de Santa Maria foi construída, nos séculos XIV e XV, onde antes havia um templo românico, destruído em 1276. Mostra fachada neoclássica e interior gótico, cuja nave central mede cerca de 27 metros de altura. É uma construção muito sóbria e austera. Dentro dela, na nave central, está o túmulo do rei Carlos III e de sua esposa Leonor. Diz-se que tanto a Catedral quanto esses túmulos,  constituem-se em joias arquitetônicas de Pamplona.


                                                                      Fachada da Prefeitura


A Prefeitura  está construída no lugar da junção dos três burgos - Navarreria, San Saturnino e San Nicolás - que foram unificados por Carlos III o Nobre, com a promulgação , em 1423, do Privilégio da União, que visava a acabar com as tensões existentes entre os burgos. A fachada deste Ayuntamento é do século XVIII, nela estão as esculturas da justiça, da prudência, da força e da fama. À noite, fui tomar um café nesse lugar - muita gente e muita festa. Depois do café, tracei toda a Calle Mayor, principal via de passagem de peregrinos. Belo passeio!


 
                         Todas as indicações estão em Espanhol e em Euskara, idioma basco.  
Ao redor do ano 70 a.C. o general romano Pompeo estabeleceu um acampamento militar estratégico, num povoado basco, chamado Uruna - foi o início da cidade que teria o nome de Pamplona. A partir daí, a pequena cidade romana seguiu a mesma sorte dos impérios, com alto e baixos, dores e alegrias.





Foi conquistada pelos godos, invadida pelos árabes, teve suas muralhas destruídas por Carlos Magno, tornou-se protegida de Sancho III o Maior, conhecido, nas crônicas árabes como O Senhor dos Bascos. vieram  franceses e, depois deles outros estrangeiros, surgiram novos burgos, os burgos foram unificados, foi governada por Foros, sofreu invasão das tropas de Napoleão, precisou destruir um pedaço das muralhas ao sul, para que a cidade crescesse e incluísse os que viviam do lado de fora delas. Tem hoje mais de 200 mil habitantes, uma Universidade Pública, um Centro de Pesquisas Médicas Aplicadas e...é uma cidade bonita, tranquila, com alto padrão de vida e muito bem organizada.



Se você pensa visitar Pamplona - o que aconselho vivamente - reserve um tempo para ir com calma e caminhar muito, olhando para todos os lados, o tempo todo, surpreendendo-se certamente com que vê. Estude-a bem antes de ir, assim terá mais condições de apreciá-la. Procure hospedar-se dentro das muralhas, mas passeie também fora delas. Desfrute do convívio com as gentes de Navarra. De Madrid a Pamplona, vai-se, num trem Alvia,  em 3h10 min - procure viajar em poltrona de janela, assim terá o bônus de ver o Aqueduto de Olite e alguns castelos espalhados pelo percurso. 




O meu olhar azul como o céu
É calmo como a água ao sol.
É assim, azul e calmo,
Porque não interroga nem se espanta...

Se eu interrogasse e me espantasse
Não nasciam flores novas nos prados
Nem mudaria qualquer coisa no sol de modo a ele ficar mais belo..."

Fernando Pessoa


                                                Campos de Navarra, perto de Pamplona.


quarta-feira, julho 22, 2015

O Fantástico Museu Guggenheim de Bilbao

                                                                   

Tulipas - Jeff Koons
                                                      
A cidade basca de Bilbao possui um dos cinco museus, no mundo,  pertencentes à Fundação Salomon Robert Guggenheim. Salomon ( 1861 - 1949 ) nasceu na Filadélfia, nos Estados Unidos e foi educado em escolas públicas e privadas, tanto na sua cidade natal, quanto na Suíça, país de origem de Meyer Gugenheim, seu pai.

Puppy

O pai deixou-lhes uma grande e sólida empresa - a Guggenheim Brothers - dividida entre seus seis filhos. Os irmãos multiplicaram a herança. Salomon passou a colecionar obras de arte abstrata da década de vinte. A par disso, continuou com os trabalhos filantrópicos, que eram uma marca forte da empresa. Com o intuito de atingir um grande público e de divulgar a arte moderna, criou a Fundação Guggenheim, responsável hoje por museus mundialmente conhecidos.

Guggenheim de Bilbao visto desde o rio Nervion
Até este ano, são cinco os Museus mantidos pela Fundação, sendo o de Nova Iorque e o de Bilbao os mais famosos . Os dois exibem arte moderna e pós - moderna. O museu americano foi construído por Frank Lloyd Wright; o espanhol, por  Frank Gehry.

Outra perspectiva do Museu de Bilbao
A Fundação é reconhecida por contratar arquitetos famosos e por construir edifícios fantásticos e singulares, que fogem aos padrões já estabelecidos. Em razão dessa característica , existe uma crítica bastante divulgada de que os edifícios são mais famosos e mais conhecidos do que os trabalhos artísticos neles expostos.

Interessantes combinações...

Verdade que o Museu Guggenheim projetou Bilbao no panorama cultural  mundial e tornou-se um ícone da Espanha do século XX. A ideia de um grande museu na cidade nasceu no final dos anos 80, quando o governo basco, face aos problemas com a extração de ferro, decidiu diversificar as atividades econômicas através de uma requalificação da área portuária.  O país atravessava um momento bastante difícil com a crise da indústria siderúrgica.Era preciso abrir novos caminhos - tornar-se atraente para o turismo seria um deles.


Jeff Koons

Assim como a construção do Museu Guggenheim de Bilbao, surgiram muitos  -  e arrojados - projetos na cidade - aeroporto, metrô, ponte pedonal, centro cultural. Se o objetivo era a revitalização de Bilbao, pode-se afirmar que foi plenamente alcançado. Mais de um milhão de visitantes, no ano passado, viram a cidade e comentaram o Guggenheim - valeu para toda a região. Além de tudo isso, uma cidade que tem um povo hospitaleiro, gentil, agradável.
Puppy - Jeff Koons

Ouve-se , com frequência, um comentário brincalhão de que Puppy , imperdível pelas sua dimensão e colorido, foi o primeiro cachorro que ganhou uma grande casa antes mesmo de nascer. Com um sistema interno de manutenção do que seria um grandioso jardim, essa obra de Jeff Koons, à entrada principal do Museu, encanta adultos e crianças, especialmente pela originalidade e engenhosidade.



Esculturas na parte externa do Museu
Em 1992, a construção do Guggenheim de Bilbao foi iniciada. Foi concluída cinco anos mais tarde. Trabalharam, em conjunto, na elaboração do projeto, duas equipes, uma em Bilbao; outra, em Los Angeles. A grande dificuldade estava nos cálculos estruturais. Muitos especialistas questionaram sua execução em razão das formas bastante complexas. As discussões foram longas e complexas.

      

Contrastes


" Externamente, o museu é coberto por superfícies de titânio curvadas em vários pontos, que lembram escamas de um peixe, mostrando a influência das formas orgânicas presentes em muitos trabalhos de Gehry. Do átrio central, que tem 50 metros de altura e lembra uma flor cheia de curvas, partem passarelas para os três níveis de galerias. Visto do rio, o edifício parece ter a forma de um barco, homenageando a cidade portuária de Bilbao que teve bons anos de festa marítima"...www.guggenheim.org/bilbao

Interatividades
As exposições , neste museu, mudam frequentemente, mantendo, entretanto , a característica de terem sido feitas ao longo do século XX. Predominam as instalações artísticas, sendo as obras tradicionais de pintura e de escultura bem minoritárias. Somente a exposição de esculturas de aço, desenhadas por Richard Serra, é permanente.

Aço,cores,luzes
Impressiona e encanta a localização do museu. Está num terreno alongado, na curva do rio, ocupando os 32.500 m2 de uma antiga fábrica abandonada, O espaço interior, ocupado por exposições, tem 11.000m2. A revitalização proposta pelo Governo Basco procurou tornar o rio Nervion o foco do visual da cidade. A construção do museu nesse local foi ponto de partida para recuperação e valorização dessa área.
Proximidade com o rio Nervion

" O projeto do prédio segue o estilo de Frank Gehry. Inspirado nas formas e texturas de um peixe, pode ser considerada uma escultura, uma obra de arte em si. As formas não têm nenhuma razão geométrica ou governado por qualquer lei. O museu é essencialmente um shell que evoca o passado industrial e do porto de Bilbao vida , suas indústrias tradicionais , metalurgia e construção naval estão presentes nos materiais e formas: de titânio e aço , velas , barcos e peixes imenso ...."www.guggenheim.org/bilbao


Vista do lado oposto do rio

Construído em calcário , vidro e titânio,   foram usadas 33 mil peças de titânio, a  metade com um milímetro de espessura , cada uma com forma única de acordo com o seu lugar. Essas peças tão fina encaixam-se  perfeitamente nas curvas necessárias . O vidro usado teve um tratamento especial para deixar passar o sol, mas não o calor, e evitar que a luz natural pudesse danificar as exposições.O calcário usado , em tom ocre, veio de Granada. Foi, de fato, uma obra de arte delicada e complexa.


ludicidade e cor
Os Museus Guggenheim, especialmente os de Bilbao e Nova Iorque já foram concebidos para a função que exercem. Eles albergam obras de arte constituem motivo para visita às cidades onde se situam e - mais ainda - ilustram a filosofia da Fundação: “A Arquitectura em prol das Artes.”


Visitantes refletidos na escultura

"Por outras palavras, a ideia e um dos principais objectivos da fundação, para além de coleccionar peças de arte contemporanea e promover a sua divulgação, é fazer rodear a arte de mais arte, na forma do próprio museu." Material de divulgação do Museu


Arte que acolhe arte