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domingo, maio 24, 2020

Fernando Pessoa - Bom fim de semana!

Norte da Bulgária  /  2019/2o.semestre

"Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe um paladar,
E se a terra fosse uma cousa para trincar,
Seria mais feliz um momento...
Mas eu nem sempre quero ser feliz,
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural...
Nem tudo é dias de sol, 
E a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedo e erva...

O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda,
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica...
E que se assim é, é porque é assim."

Fernando Pessoa


Norte da Bulgária  /  2019/2o.semestre




sexta-feira, dezembro 20, 2019

Feliz Natal!

Romênia


"Natal...Na província neva.
Nos lares aconchegados,
Um sentimento conserva
Os sentimentos passados.

Coração oposto ao mundo,
Como a família é verdade!
Meu pensamento é profundo,
'Stou só e sonho saudade.

E como é branca de graça
A paisagem que não sei,
Vista de trás da vidraça
Do lar que nunca terei."

Fernando Pessoa


Mosteiro de Snagov - Romênia


quarta-feira, junho 26, 2019

Fotos de Viagem ( 2019/1 ) e Textos de Fernando Pessoa


Dalvinha e Elaine - excelentes companheiras de viagem - Paris

" Todo o estado de alma é uma passagem. Isto é, todo o estado de alma é não só representável por uma paisagem, mas verdadeiramente uma paisagem. Há em nós um espaço interior onde a matéria da nossa vida física se agita. Assim uma tristeza é um lago morto dentro de nós, uma alegria um dia de sol no nosso espírito. E - mesmo que se não queira admitir que todo o estado de alma é uma paisagem - pode ao menos admitir-se que todo o estado de alma se pode representar por uma paisagem. Se eu disser "Há sol nos meus pensamentos", ninguém compreenderá que os meus pensamentos são tristes."

Fernando Pessoa


Bélgica


" Assim, tendo nós, ao mesmo tempo, consciência do exterior e do nosso espírito, e sendo o nosso espírito uma paisagem, tempos ao mesmo tempo consciência de duas paisagens. Ora, essas paisagens fundem-se, interpenetram-se, de modo que o nosso estado de alma, seja ele qual for, sofre um pouco da paisagem que estamos vendo - num dia de sol uma alma triste não pode estar tão triste como num dia de chuva - e, também, a paisagem exterior sofre do nosso estado de alma - é de todos os tempos dizer-se, sobretudo em verso, coisas como que "na ausência da amada o sol não brilha", e outras coisas assim...

Fernando Pessoa


Espanha - Sevilha

De maneira que a arte que queira representar bem a realidade terá de a dar através duma representação simultânea da paisagem interior e da paisagem exterior. Resulta que terá de tentar dar uma intersecção de duas paisagens. Tem de ser duas paisagens, mas pode ser - não se querendo admitir que um estado de alma é uma paisagem - que se queira simplesmente interseccionar um estado de alma (puro e simples sentimento) com a paisagem exterior (...) "

Fernando Pessoa

Córdoba - Espanha

"Considero a vida uma estalagem onde tenho que me demorar até que chegue a diligência do abismo. Não sei onde me levará, porque não sei nada. Poderia considerar esta estalagem uma prisão, porque estou compelido a aguardar nela; poderia considerá-la um lugar de sociáveis, porque aqui me encontro com outros. Não sou, porém, nem impaciente nem comum. Deixo ao que são os que se fecham no quarto, deitados moles na cama onde esperam sem sono; deixo ao que fazem os que conversam nas salas, de onde as músicas e as vozes chegam cómodas até mim. 


Madrid

Sento-me à porta e embebo meus olhos e ouvidos nas cores e nos sons da paisagem, e canto lento, para mim só, vagos cantos que componho enquanto espero. Para todos nós descerá a noite e chegará a diligência. Gozo a brisa que me dão e a alma que me deram para gozá-la, e não interrogo mais nem procuro. Se o que deixar escrito no livro dos viajantes puder, relido um dia por outros, entretê-los também na passagem, será bem. Se não o lerem, nem se entretiverem, será bem também."

Fernando Pessoa


Toledo - Espanha

"Tenho fome da extensão do tempo, e quero ser eu sem condições."

Fernando Pessoa


domingo, junho 16, 2019

Fernando Pessoa (Texto) - Fotos ( Dobraduras Portuguesas)

Dobraduras na parede
.
"Depus a máscara e vi-me no espelho
Era a criança de há quantos anos,
Não tinha mudado nada...



Dobraduras na parede

É essa a vantagem de saber tirar a máscara.
É-se sempre a criança,
O passado que fica,
A criança.



Dobraduras na parede

Depus a máscara, e tornei a pô-la.
Assim é melhor,
Assim sou a máscara.



Dobraduras na parede

E volto à normalidade como a um término de linha."


Fernando Pessoa


Dobraduras na parede



quinta-feira, janeiro 10, 2019

Retomando os relatos sobre a Península Balcânica

Madre Teresa de Calcutá - Centro de Pristina/Kosovo

Em 2018, nos meses de abril e maio, minha amiga Isolda e eu, percorremos a quase totalidade da Península Balcânica. Já no final dessa viagem, um problema familiar nos fez retornar com urgência. Eu havia escrito somente sobre  Eslovênia,  Croácia,  Bósnia Herzegovina e  Sérvia. A partir daí , perdi o " fio da meada". Retorno, neste início de janeiro de 2019, para acrescentar os relatos sobre Montenegro, Macedônia, Albania e Kosovo, países que não seria justo ficarem sem registro.


Sarajevo - Bósnia Herzegovina

É a segunda vez que visito os Balcãs, uma das três penínsulas dessa região do continente europeu. Na  primeira vez, fiz uma viagem de 10 dias, bastante superficial. Na segunda vez, idem. Nesta vez fiz uma visita bem mais longa e planejada, suficiente para perceber as grandes diferenças entre seus diversos países, a ponto de a gente se perguntar como conseguiram coabitar, por tanto tempo, uma mesma república.


Dubrovnik - Croácia

Vivem ali, no mínimo, seis etnias e três religiões fortes e rivais: católica, ortodoxa e islâmica - os templos dessas três religiões constituem belas atrações. Em algumas cidades, para conseguir vencer distâncias e visitar a todos, contratamos carro com motorista -  custa bem pouco em relação a outros países e ganha-se tempo no percurso. Os templos principais geralmente estão no centro das cidades; os conventos e mosteiros, todavia, podem estar até bem distantes - e oferecem muito o que ver.



Budva - Montenegro

Para percorrer a região, precisa-se usar o tempo que  precede a viagem para estudá-la bem. Analise o tempo de deslocamento entre um país e outro, por exemplo,  não esquecendo a demora nos postos de fronteira, que, obviamente, são vários e demorados. Decida, portanto , sobre o meio de transporte, a partir da distância e do tempo a ser percorrido considerando, ainda, esses entraves burocráticos.


Podgorica - Montenegro

O principal meio de transporte que se costuma usar na Europa, é o trem. Nos Balcãs, entretanto, a malha ferroviária é limitada, com pouco conforto e lenta - ser lenta torna-se um up  em razão das belas paisagens com que somos surpreendidas com frequência. O trem, por exemplo, entre Zagreb e Liubliana, mostra cenários belíssimos, já de ônibus esse mesmo trecho e meio sem graça.


Mostar - Bósnia e Herzegovina

Os ônibus são comuns , nada de mais...mas são econômicos e frequentes. Nós os usamos em alguns trechos, como Montenegro/ Macedônia por onde se tem um interessante panorama da Albânia rural. De Zagreb a Belgrado, optamos por ir de avião ( desses que o nome parecia ser Jesus está chamando)O voo, no entanto, foi tranquilo. Também o trecho Belgrado/Sarajevo foi feito por via aérea. Para outros tantos percursos, optamos por contratar carro com motorista. Viagens econômicas e possibilidade de fazer paradas  em sítios históricos e cafeterias - é óbvio!


Albânia

É bastante difícil indicar roteiros para visita à Península Balcânica, no que se refere à chegada e à saída. Depende do projeto total de cada viajante. Isolda e eu, nesta última viagem,  chegamos de avião, vindas de Budapest, diretamente a Zagreb, capital da Croácia. Partimos de Skopye, capital da Macedônia, usando carro contratado, até Thessaloniko, na Grécia.


Skopye - Macedônia

Numa outra viagem,  cheguei pela Eslovênia, a partir de Trieste, na Itália. Ainda uma outra vez, entrei  por Dubrovnik, um dos mais belos lugares da Croácia, vindo de navio pelo Mar Adriático. A saída dos Balcãs vai depender da continuidade do roteiro estabelecido: se forem entrar na Grécia, aconselha-se deixar a Macedônia por último; se forem continuar pela Romênia, melhor partir de Belgrado.


Interior da Bósnia Herzegovina

Não importa, acredito, por onde começa e por onde termina uma viagem a Antiga Yugoslavia. Todos os países de hoje constituem uma grande aula de História. Há sítios incríveis para se ver e sobre eles refletir. Mostar, com sua Ponte Romana,  na Bósnia Herzegovina; Kosovo, com as feridas da guerra tão recente; Croácia, com sua exuberante beleza; Sarajevo com a ponte onde Ferdinando foi assassinado e muito mais.


Sarajevo - Capital da Bósnia

A península Balcânica nos oferece condições para uma viagem econômica, tranquila - muito tranquila  desde que sigamos as orientações para evitar algumas travessias,   como entre a Sérvia e Kosovo. Oferece-nos incrível diversidade de paisagens e de história - dependendo do interlocutor, o fato histórico pode ter interpretações bem diferentes. E oferece, ainda, saborosa gastronomia - do café da manhã ao jantar. É uma dessas viagens que dá vontade de retornar.


No meio do caminho...uma cafeteria!

"Não tenho pressa: não a têm o sol e a lua.
Ninguém anda mais depressa do que as pernas que tem.
Se onde quero estar é longe, não estou lá num momento.
Sim: existo dentro do meu corpo.
Não trago o sol nem a lua na algibeira.
Não quero conquistar mundos porque dormi mal,
Nem almoçar o mundo por causa do estômago.
Indiferente?


Belgrado

Não: filho da terra, que se der um salto, está em falso,
Um momento no ar que não é para nós,
E só contente quando os pés lhe batem outra vez na terra,
Traz! na realidade que não falta!
Não tenho pressa. Pressa de quê?


Kotor - Montenegro

Não têm pressa o sol e a lua: estão certos.
Ter pressa é crer que a gente passe adiante das pernas,
Ou que, dando um pulo, salte por cima da sombra.
Não; não tenho pressa.



Budva - Montenegro

Se estendo o braço, chego exactamente aonde o meu braço chega -
Nem um centímetro mais longe.
Toco só aonde toco, não aonde penso.
Só me posso sentar aonde estou.



Skopye - Macedônia
E isto faz rir como todas as verdades absolutamente verdadeiras,
Mas o que faz rir a valer é que nós pensamos sempre noutra coisa,
E somos vadios do nosso corpo.
E estamos sempre fora dele porque estamos aqui."

Fernando Pessoa

Mostar - Herzegovina


segunda-feira, novembro 12, 2018

Fernando Pessoa...na madrugada....






"Na noite terrível, substância natural de todas as noite,
Na noite de insônia, substância natural de todas as minhas noites,
Relembro,velando em modorra incômoda,
Relembro o que fiz e o que podia ter feito na vida.
Relembro, e uma angústia
Espalha-se por mim
como um frio do corpo ou um medo.







O irreparável do meu passado - esse é que é o cadáver!
Todos os outros cadáveres podem ser que sejam ilusão.
Todos os mortos pode ser que sejam vivos noutra parte.
Todos os meus próprios momentos pode ser que existam algures,
Na ilusão do espaço e do tempo,
Na falsidade do decorrer.







Mas o que eu não fui,o  que eu não fiz,o que nem sequer sonhei;
O que só agora vejo que deveria ter feito,
O que só agora claramente vejo que deveria ter sido...
Isso é que é morto para além de todos os deuses,
Isso - e é hoje talvez o melhor de mim - é que nem os deuses fazem viver...







Se em certa altura
Tivesse voltado para a esquerda em vez de para a direita;
Se em certo mpomento,
tivesse dito sim em vez de não, ou não em vez de sim;
Se em certa conversa
Tivesse dito as frases  que só agora, no meio-sono, elaboro - 
Se tudo tivesse sido assim,
Seria outro hoje, e talvez o universo inteiro
Seria insensivelmente levado a ser outro também.







Mas não virei para o lado irreparavelmente perdido,
Não virei nem pensei em virar, e só agora o percebo;
Mas não disse que não ou não disse que sim, e só agora vejo o que não disse:
Mas as frases que faltou dizer nesse momento surgem-me todas,
Claras, inevitáveis, naturais,
A conversa fechada concludentemente,
A matéria toda resolvida....
Mas só agora o que nunca foi, nem será para trás, me dói.








O que falhei deveras não tem esperança nenhuma,
Em sistema metafísico nenhum.
Pode ser que para outro mundo eu possa levar o que sonhei,
Mas poderei eu levar para outro mundo o que me esqueci de sonhar?
Esses sim, os sonhos por haver, é que são o cadáver.
Enterro-o no meu coração para sempre para todo o tempo, para todos os universos.







Nesta noite em que nao durmo, e o sossego me cerca
Como uma verdade de que não partilho,
E lá fora o luar, como a esperança que não tenho, é invisível pra mim."

Fernando Pessoa





quinta-feira, setembro 20, 2018

Fernando Pessoa e Decoração de Ruas em Madrid/2018


 



                                            















Profissões: ornamentações de rua em Madrid  - próximo ao Parque del Buen  Retiro.


"Não quero a noite
senão quando a aurora
A fez em ouro e azul se diluir.
O que a minha alma ignora
É isso que quero possuir."


Fernando Pessoa

terça-feira, julho 03, 2018

Texto de Fernando Pessoa e Esculturas em Skopje, Macedônia.

Esculturas em uma fonte do Centro Antigo da Capital da Macedônia


" Nem tudo é dias de sol, 
E a chuva, quando falta muito, pede-se. 
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade 
Naturalmente, como quem não estranha 
Que haja montanhas e planícies 
E que haja rochedos e erva... 


Idem

O que é preciso é ser-se natural e calmo 
Na felicidade ou na infelicidade, 
Sentir como quem olha, 
Pensar como quem anda, 
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre, 
E que o poente é belo e é bela a noite que fica... 
Assim é e assim seja..."

Fernando Pessoa


Idem

sábado, maio 19, 2018

Sobre cansaço e portas fechadas: Fotos feitas em Zamora e texto de Fernando Pessoa




" Lo que hay em mí es,sobre todo, cansancio -
no de esto ni de aquello,
ni siquiera de todo o de nada:






cansancio em si mismo, él mismo
cansancio.







La sutileza de las sensaciones inútiles,
las pasiones violentas por ninguna cosa,
los amores intensos por lo supuesto en alguien
esas cosas todas:







- esas y lo que falta en ellas eternamente -;
todo eso me trae un cansancio,
este cansancio,
cansancio.






Hay, sin duda, quien ame lo infinito,
hay, sin duda, quien desee lo imposible,
hai, sin duda, quien no quiere nada  - 
tres clases de idealistas, y yo no pertenezco a ninguna:







porque yo amo infinitamente lo finito,
porque yo deseo imposiblemente lo posible,
porque yo lo quiero todo, o un poco más, si puede ser,
o hasta si no puede ser...






Y el resultado?
Para ellos la vida vivida o soñada,
para ellos el sueño soñado o vivido,
para ellos la media entre todo y nada, esto es, esto...






Para mí solo un grande, un profundo,
y, ah con qué fecidad infecundo, cansancio,
un supremísimo cansancio,
ísimo, ísimo, ísimo,
cansancio."

Fernando Pessoa


                                                     
            Que o  fim de semana seja aconchegante, e o respeito pelo outro seja constante. Beijos