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quinta-feira, maio 09, 2019

Rio Grande do Sul : pequenas viagens; bons restaurantes.

Igrejinha

Já escrevi em outras postagens o quanto foram  difíceis e dolorosos os dois últimos anos. Acreditei que 2019 seria melhor...mas não foi tanto assim.



Igrejinha

Um dos meus truques para melhorar sempre foi mover-me. Faltava-me , no entanto, ânimo e encantamento. Em razão disso, procurei fazer pequenas viagens, fosse para resolver problemas, fosse para ver amigos ou simplesmente andar, andar,andar.


Santa Maria: queridos amigos

A primeira delas foi a Igrejinha para comprar sandálias e sapatos Usaflex. A decepção foi que a fábrica ali está localizada, mas sem ter postos de venda na cidade. A paisagem é bonita; a comida, excelente. Vale a visita.


Pedro e eu

Injusto não falar em restaurantes sem incluir o Restaurante do Dodô , no Morro da Borussia, perto de Osório. Cenário bonito - no restaurante e ao seu redor. Comida deliciosa. Ir a Torres ou dela  voltar, sem parar no Dodô é realmente perda ou falta de imaginação. Fiquem, entretanto, atentos aos horários de abrir e fechar desse restaurante.


Restaurante Batovi - São Gabriel

Saímos de Torres para Alegrete - uma viagem que nos consola pensar que poderia ser pior se fôssemos para Uruguaiana ou Itaqui. Cerca de 700 km. Jantamos em São Gabriel, no antigo Batovi, um restaurante que prima pelo qualidade e pela honestidade do preço. De Sanga Briel , como ouvi uma vez alguém dizer, chegamos em Rosário do Sul.


Rosário do Sul - Igreja Episcopal

Morei quatro anos nessa interessante cidadezinha, ainda na minha adolescência. Revisitei igrejas, praças, vi casas de pessoas conhecidas e de amigas e amigos meus. Fiquei surpresa quando escutei que alguns já eram finados! O tempo é implacável! Passei na casa assombrada onde morei - juro que era assombrada mesmo. De novidade grande ,nos últimos 50 anos, uma avenida à beira-rio e um agradável   restaurante -  o Mirante.


Borussia - agradável vista; excelente restaurante

Mas a novidade, em bons restaurantes,  encontrei mesmo em Alegrete. Refiro-me ao La Parrilla.  Atendimento impecável e cardápio cuidadosamente planejado e coerente com a denominação e o estilo. Pode-se dizer que é um local com  personalidade e sotaque uruguaio. Há uma bela exposição de fotos próxima ao salão principal. O proprietário pareceu-me muito presente , gentil e conhecedor do ramo. Boa sorte ao estabelecimento.


Rosário do Sul

Estas anotações foram feitas na madrugada do dia em que , pela TAP, saio do Brasil por um mês. O pior que me aconteceu depois do câncer de pulmão, foi a perda de confiança no meu corpo e o medo de que ele apronte outra - inesperadamente.  Elaborei, por isso, vários roteiros para 2019 - todos com pouco tempo em relação ao que eu costumava fazer. Começo por países bem meus conhecidos, onde me sinto em casa e tenho bons amigos. Ainda estou tossindo muito e um pouco debilitada. Penso , no entanto, que tossir em POA, Torres ou Europa, é tossir igual! Agradeço muito aos familiares amigos que me incentivaram a viajar - novamente.


Oceanário de Lisboa

" Não canto a noite porque no meu canto
O sol que canto acabará em noite.
Não ignoro o que esqueço.
Canto por esquecê-lo."

Fernando Pessoa


Inconfundível Calatrava


quinta-feira, março 23, 2017

Cultura Gaúcha: Ritual de Visitas


                                                                     Bela União - todas as fotos

Com ensino, pesquisa e extensão,  atuei em meio rural, principalmente com formação de professores para áreas indígenas e para áreas de fronteira, por mais de 30 anos. Convivi com a realidade de professores leigos, e/ou com classes multisseriadas, ou com o isolamento de escolas bem distantes de centros urbanos. Desenvolvi projetos em seis estados brasileiros e  busquei informações em cinco países de área de fronteira. Realidade dura em lugares lindos.




Fui bastante próxima das comunidades e das famílias - fiz amigos de quem lembro com carinho e saudade. Difícil  separar educação e cultura. Difícil pensar em processos educativos sem considerar a cultura do grupo com que se trabalha. Impossível excluir cultura de qualquer lugar que se visite. Já escrevi que um viajante precisa ter olho limpo para perceber as nuances culturais de diferentes grupos, sem comparar ou sobrepor imagens. Comparações limitam o olhar - muitas vezes disse isso a meus alunos.




Estando agora, por um mês, em casa, na região da fronteira do Rio Grande do Sul - alegretense eu me considero - voltei a pensar sobre aspectos bem particulares da cultura gaúcha, no meio rural em que vivi, localizado entre Rosário do Sul e Alegrete, nas vizinhanças do Uruguai e da Argentina. Optei por escrever sobre o ritual de visitas, que tanto me impressionava na Bela União, antiga propriedade da minha família, lugar onde nasci e onde vivi até 15 anos de idade.





Visitas de parentes ou de amigos consolidavam laços interpessoais e aprofundavam vínculos afetivos. Possibilitavam  troca de informações, relatos de novidades e até confidências e comentários da vida alheia. Caprichavam-se nas roupas, tanto de quem recebia quanto de quem visitava. Arrumava-se a casa para dar boa impressão aos visitantes e desenrolar com bons modos o ritual todo - da chegada à partida.





Os visitantes usualmente chegavam aos domingos, pela manhã, se morassem um pouco longe; ou pela tarde, se fossem de vizinhos de perto. Eram recebidas pelos donos da casa - na falta deles, por algum adulto. Posteriormente, as crianças eram chamadas para dizer adeus - ou dar adeus - aos visitantes. Se fosse inverno, um licor de frutas, caseiro, era servido. Logo depois, fosse calor ou fosse frio, servia-se o chimarrão, que a pessoa tomava e devolvia a cuia, sem agradecer - o agradecimento significava que não queria mais mates.




Lembro-me que, após o chimarrão, vinha o momento em que se levavam as visitas para mostrar o jardim, a horta, o pomar ( arvoredo) e até alguns animais domésticos. Ofereciam-se mudas de plantas, sementes, algumas frutas - em pequenas quantidades, com elegância, para ser gentil, pois não se tratava de matar a fome de ninguém : muitas vezes ouvi essa explicação também na troca de presentes.





Ao retornar desse passeio ao entorno da casa, se fosse à tarde, servia-se  o café, sempre acompanhado de pães caseiros, roscas de farinha de milho, bolos ou bolinhos. Manteiga, mel,  geleias e queijos eram parte desse simples café, que se prolongava bastante, pela comida, que era muita, e pelas conversas bastante animadas.




Tenho bem presente a lembrança do pós-café. Os homens iam para mangueiras ou galpões ver as novidades agropecuárias, e às mulheres, mostravam-se álbuns de fotografia ou compras recentemente feitas na cidade. As conversas adultas aconteciam nesse momento. Era a hora em que as crianças saíam a correr e a brincar.




Nas despedidas, as visitas recebiam algum presente, que podia ser abóboras, mandiocas, batatas, verduras, frutas ou até mesmo charque ou linguiça. Não sei por quê esses presentes maiores eu os chamava  de presentes para estreitar relacionamento...Não sei se era desejo meu de conviver com a pessoa ou uma certa mesquinhez infantil. Sou mais pela mesquinhez - visitas me pareciam opressoras. Era bem mais divertido brincar com minhas irmãs, ainda que fizéssemos às vezes maldades umas para as outras....




Um dia talvez eu escreva sobre rituais de visita em comunidades bem diferentes da minha. Recordo-me, por exemplo, que, em alguns lugares do interior do Mato Grosso, assim que a visita chegava, perguntavam se ela queria tomar  banho - oferta divina naquele calorão! Acostumei-me, por isso , a carregar um vidrinho com shampoo na bolsa. 



Alguém lembra de simpatias para que a(s) visita(s) não demorasse( m ) ? A pequena e fugaz lembrança que tenho disso, faz-me crer que nem toda visita era bem-vinda. 




quarta-feira, julho 08, 2015

Espanha/Porto Alegre/Alegrete/Rosario do Sul/Porto Alegre

Madrid
Uma amiga me chamava pelo nome de uma florzinha que cria raizes em pouco tempo, em qualquer lugar, porque, segundo ela,  eu criava raízes tal qual essa plantinha. Concordo. Não sinto falta da minha cama, do meu travesseiro, do arroz e feijão, do cotidiano, nada.... E mais, sinto sempre uma certa nostalgia ao retornar ...

Exposição no Museu do Prado
Assim foi, mais uma vez, com a Espanha. Parti pensando em retornar. Vim pela TAP - não gosto de viagens noturnas e prefiro não fazer conexão em Guarulhos ou qualquer outro aeroporto. Sim! precisei fazer uma rápida conexão em Lisboa. Durante as 11 horas de viagem - LIS/POA - assisti a quatro filmes - lançamentos bem recentes - almocei, jantei e cheguei às 19h. Voo muito tranquilo, para alguém- como eu - que ainda tem medo de avião. Foi um feliz retorno, com meu irmão, minha sobrinha e meu filho esperando-me no aeroporto.

Prefeitura de Alegrete
De POA , fui para Alegrete. Difícil o frio, assim, de repente.  Em tão pouco tempo, nem cheguei a percorrer essa cidade que considero minha. Vi poucos amigos. Saí, entretanto, feliz porque a encontrei bem cuidada, com parques e praças bem bonitos, apesar do rigor do inverno, e com muitas obras em andamento. Estive na Feira Anual do Livro, onde vi muitos amigos e encantei-me com o grande número de estudantes que visitavam a Feira.

Uma das entradas da Praça Getúlio Vargas em Alegrete

Alegrete , o maior município em extensão territorial do Rio Grande do Sul, com cerca 80 mil habitantes, é realmente uma bela cidade, para mim, plena de lembranças. Fotografei o Instituto de Educação Osvaldo Aranha e a Faculdade - neles  fui aluna e , depois, professora; o Divino Coração, o Emílio Zuñeda, e as escolas municipais, onde também ensinei. Considero-me alegretense por ter ganho esse título da Câmara de Vereadores, há mais de 20 anos. Orgulho-me de ter essa cidadania.


Trabalho de Ronald Mckinney na Bela União

De Alegrete, vim para Bela União, antiga propriedade de meus pais e  onde nasci há muitooooossss anos. Meu pai nasceu em 1909;  minha mãe , em 1911. Casaram e vieram morar neste lugar,uma parte da fazenda de meu avô italiano. Estava ela com 18 anos; ele, com 21. Tiverm sete filhos, em que  eu sou a do meio! Construíram uma casa com pedras unidas por barro - paredes com 80 cm de largura - num lugar em meio a serras e matos - natureza e beleza agreste e rara.

Entrada da Bela União
Meu pai morreu em 1954. Em 1997, após a morte de minha mãe, que já estava na cidade,  a casa da Bela União e seu entorno foram totalmente reconstruídos por mim, até com resgate de árvores outrora existentes no lugar. Por um acordo feito, a propriedade será administrada pela geração dos herdeiros atuais e só terá  interferência da geração seguinte  - futuros herdeiros - quando os atuais não mais existissem. 

Bela União
Hoje, Bela União tem mais de 400 árvores frutíferas, belos jardins e muitas árvores ornamentais. Produz variedade de frutas, como pêssegos, marmelos, figos, peras, caquis, laranjas, limas, bergamotas, uvas, amoras, pitangas, maçãs e framboesas. Lugar abençoado, como dizia Anália Pinto Menine.
Geada grande - foto às 8h30min
Muitas vezes  ouvi minha mãe - uma mulher bastante lúcida e generosa - dizer: Ai de quem deixar minha velha casa cair. A casa não caiu. O lugar continua muito bonito. Trabalhei e gastei muito para isso.Os herdeiros futuros saberão preservá-la. Acredito ser essa a forma mais efetiva de respeitar e preservar a memória de nossos antepassados.

Renildo  e Mile
Da Bela União, fui a Rosário do Sul, visitar minha irmã mais velha, que fez uma cirurgia bastante delicada. Encontrei-a ativa como sempre foi. Além de atividades da casa, que ela insiste em continuar fazendo, nos intervalos borda e faz crochê. Conserva o senso de humor, valoriza a vida de cada dia, é gentil e atenciosa - um admirável exemplo.

Rio Santa Maria - Rosário do Sul
O trecho Rosário do Sul - Porto Alegre é longo e cansativo : mais de seis horas, numa estrada sem grandes atrativos. Ontem chovia e fazia frio, tornando-o pior ainda. Sobrou-me tempo para pensar e sentir doídas saudades, especialmente de Ronald. Estou, no entanto, tranquila. Foram dias proveitosos, com muitas obrigações  cumpridas. Agora, em Porto Alegre, organizo-me para voltar a Torres. A vida continua - sem pressa, mas sem pausa. 

Anoitecer na Bela União

PS. Alguém pode ajudar-me com informações ( urgentes )sobre visto, hoteis e voos para Cuba, partindo dos Estados Unidos? E Jamaica ? Please!

Camélias antigas na Bela União
"No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.
Tempo de camélias

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida."
Fernando Pessoa
...camélias de diferentes cores.

terça-feira, julho 19, 2011

Agradecimento

Com a foto de um oásis, no Saara, simbolizo meu agradecimento aos professores, supervisores e diretores das escolas Ângelo Bartele e Plácido de Castro, em Rosário do Sul, pelo agradável dia que com eles passei ontem.
Ânimo e encantamento a todos.
Obrigada.
Beijos
Aldema


segunda-feira, agosto 16, 2010

Festa em Família: Airton Amaral



Airton,Vera, filhos e netos




















Estou convicta de que, na minha idade, a gente tem bem mais de uma família. O tempo, o convívio, o afeto e a própria história de vida nos integram a outra(s) família(s) que passam a ser como nossa(s).
Ontem, estive na festa dos 70 anos do Airton Amaral. Quando foram fazer a foto dele com os seus irmãos , por ordem de idade ( Marcos, no lugar de seu pai Arilde , o irmão mais velho,já falecido, seguido de Airton, Arilton, Altamir, Amilton, Antônio Ângelo, Tudinha, Antonio Augusto e Isaurinha) eu fiquei bastante emocionada, com vontade de chorar.


Meus pais e os pais do Airton ( A menininha sou eu )




Àquela foto, que estava sendo feita, eu sobrepunha outra, feita há 58 anos: casamento da minha irmã mais velha – ela, o marido, eu ( com 8 anos) meus pais e os pais do Airton - uma relação de família, portanto, anterior – eu bem sei - ao nosso nascimento. Rememorei , ainda, duas outras cenas : o pai do Airton chorando no enterro do meu pai e , muitos anos depois, todos os meninos presentes no enterro da minha mãe. Somos , de fato, família.


Meus pais 



















Na casa deles, nasciam mais meninos – somente duas meninas. Na nossa casa, mais meninas – somente dois meninos. Apesar dessa diferença de gênero, brincamos juntos quando criança, nas visitas que se faziam nossos pais ou nas festas em que a gente se encontrava. De minha infância, já tenho lembranças esparsas, como : Arilton , tremendo ao fazer um exame de leitura na escola; Mile e Antônio Ângelo brigando e brincando juntos, muito amigos de pequenos até hoje; eu levando um presente para o Antônio Augusto quando ele nasceu - Toniquinho foi sempre meu baby brother; a minha admiração pela angelical beleza da Isaurinha e pela firmeza e determinaçao da Tudinha...Da minha adolescência , lembro as festas, a alegria dos encontros, as conversas, as risadas, a amizade sempre. Lembro das viagens com nossos filhos pequenos. 


Airton e seus irmãos



















Conhecemos a história de cada um dos integrantes de nossas famílias – que Airton e eu gostamos de relembrar e comentar, ampliando também para as histórias da região. Rimos das mesmas histórias já faz mais de 50 anos, como a dos Tinhecos, meninos terríveis da vizinhança. A Vera, com sua paciência e tranqüilidade, escuta as histórias que já conhece de muito tempo – e ri conosco.Gosto muito dela.

Meus irmãos


Estamos hoje todos entre 50 e 70 anos. Nossos pais têm existência em nossa memória e saudade. Nós temos filhos, netos, sobrinhos, cunhadas, cunhados – gente linda , gente boa , família grande . Como não lembrar da Neneca, da Claide, do Ricardo, do Fábio, do Luciano e dos outros todos ? Interessante e sábia a observação do Ronald quando chegamos em casa: É muito bonita essa outra tua família.


Airton. eu e Ronald



















Continuamos, ainda bem, com a condição de estarmos solidariamente juntos, nas mais diferentes circunstâncias :  em casamentos, aniversários, solenidades e funerais. Continuamos com a condição de rir e de relembrar nossa grande família, composta hoje de várias famílias.


Vera, Airton e filhos


















Airton, meu amigo-irmão, nosso bem mais precioso é a capacidade de amar, “amar uns aos outros...” e nós recebemos esse tesouro. Agradeço aos Céus por termos tido a condição ,a capacidade e a oportunidade de, a cada encontro, não importando o tempo de afastamento, darmos continuidade aos assuntos como se tivéssemos nos encontrado um dia antes - invariavelmente iniciando as conversas com o "tu te lembras...?". Isso é o que importa. Esse é o verdadeiro vínculo familiar.


Vera, Airton e Filhos

ETERNIDADE

Quando os meus filhos
disserem aos meus netos
o quanto eu os amava;
e quando os meus netos
disserem aos meus filhos
que guardam lembranças minhas
e de mim sentem saudade,
não terei morrido nunca:
serei eternidade!

Poema de Maria Gessi Bento,
que transfiro também aos amigos.

quinta-feira, dezembro 04, 2008

Sobre morar e mover-se

Transito entre Rosário e Alegrete como se nunca tivesse saído dessas duas cidades. Gosto delas. Há um quê de familiar em cada rua. Nenhuma surpresa depois da esquina. Gosto de cidades pequenas. Queria que o desenvolvimento das cidades não as fizessem maiores, apenas melhorassem a qualidade de vida de seus moradores. Gosto mais ainda de morar "pra fora". Observo em muitos países a tendência do retorno ao campo ou da troca da cidade pelo campo. Isso me encanta. A consciência das estações, no meio rural, amplia a dimensão do tempo. Penso que o campo é o melhor lugar para a gente envelhecer. Eu só precisava mesmo de um aeroporto mais perto. Aí seria a perfeição!
"Cada coisa a seu tempo tem seu tempo.
Não florescem no inverno os arvoredos,
Nem pela primavera
Têm branco frio os campos.

À noite, que entra, não pertence, Lídia,
O mesmo ardor que o dia nos pedia.
Com mais sossego amemos
A nossa incerta vida."
Fernando Pessoa

quinta-feira, junho 01, 2006

Meus espaços preferidos - Rosário do Sul

Primeira Comunhão - 8 anos

























Nasci no interior de Rosário do Sul, em Touro Passo, na Fazenda Bela União, distante 44 km da cidade. A primeira cidade que conheci foi Rosário, quando eu estava com 4 anos de idade. Para ir à cidade, levava-se um " fiambre" porque a viagem era longa e " aventurosa". Sou do tempo que, para ir a Porto Alegre, a gente precisava atravessar o Rio Santa Maria em uma barca.  Cresci no campo e desenvolvi ali o senso de liberdade e de integração com a natureza que só conhecem as crianças de meio rural (rural e "despovoado"). Aprendi a ler - e mais importante do que ler, aprendi a estudar - sozinha.


                      


Fui para a cidade estudar quando já estava com 14 anos. Sempre tive paixão por aprender. Tive uma história escolar bem-sucedida. Era aluna de primeiro lugar - o que me gerou uma dificuldade de lidar com frustrações. Nada que uma terapia não tenha solucionado...Fui uma típica adolescente rebelde, mas rebelde para os padrões da época : hoje seria uma quase freira! Fui a primeira presidente do Grêmio Estudantil do Horto, participei da criação e fui da primeira diretoria da URES - União Rosariense de Estudantes Secundários. Atuei na organização de grupos de " reforma agrária" , alfabetizei adultos pelo " método Paulo Freire", participei de campanhas pela autonomia e valorização da mulher. Fui da Juventude Estudantil Católica (JEC). Era politicamente muito engajada. Paguei um preço por tudo isso!




















Imaginem que, nesta praia de Rosário, eu fui uma das primeiras a usar biquini....um escândalo! O suficiente para o pai de uns amigos meus proibir as filhas de andarem comigo e aconselhar outros pais a fazerem o mesmo. Além de usar biquini e minissaia e ter uma amiga negra, eu era militante de movimentos políticos e sociais. Uma comunista, como diziam na cidade! Aprendi , nesse período, a administrar o medo, a fazer política, a lidar com enfrentamentos e a defender minhas convicções. Um demônio de saias! e as saias eram realmente um agravante...





















Saí de Rosário quando casei. Fui morar em Alegrete. Eu tinha 20 anos.Lamentavelmente, perdi meus vínculos com Rosário do Sul. Os adultos da minha época são quase todos " finados"; os meus amigos, em sua maioria, perdi-os de vista; os mais jovens, não os conheço. 
Hoje, entretanto, eu gosto de andar pela cidade; muitos espaços físicos me são familiares: a praça, o Colégio, a Igreja, o Clube Comercial, a Prefeitura e algumas construções lindas que foram preservadas. Felizmente uma parte de Rosário continua como era.Uma graça de lugar!