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quinta-feira, dezembro 20, 2012

Recife, a Veneza Brasileira

Centro histórico de Recife








































“Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar as suas próprias árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar o calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser. Que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver”
Amyr Klink




Centro histórico -  Marco Zero








































É sempre bom a Recife retornar. Sente-se , desde o aeroporto, o alto astral pernambucano. Já se disse que o recifense é , por vocação, um boêmio alegre. Penso que vai além disso. É um povo educado, determinado, lutador ...  e alegre sim. Pudera! morando numa cidade linda, que tem, por todo  lado, praias bonitas, urbanas e perfeitas para banho; paisagens tão encantadoras que lembram Veneza - tanto que é chamada de Veneza Brasileira - entrecortadas por pontes, rios e canais, que ligam um bairro a outro. Tem efervescência cultural muito própria, incluindo o frevo, que se toca e dança em todo o estado; tem conjuntos arquitetônicos imponentes que fazem lembras a frase de  Ludwig  Wittgenstein transcrita e emoldurada por Brennand:  " A arquitetura eterniza e glorifica alguma coisa. Por isso não pode haver arquitetura onde não há nada a glorificar."



Casa de Cultura - antigo presídio








































Recife, cujo nome se origina dos corais naturais presentes em seu litoral, os arrecifes, é cidade com clima agradável todo o ano, belezas naturais e quase 500 anos de história para ser mostrada e admirada. Tanto Recife quanto Olinda nasceram no período colonial e têm muitas marcas de portugueses e holandeses que as disputaram em batalhas memoráveis. Assim como os portugueses deixaram as igrejas em Olinda, os holandeses , liderados por Maurício de Nassau, marcaram o bairro do Recife Antigo, agora restaurado, colorido e sempre com muitos turistas e jovens locais.
Também  ilustres filhos da terra têm contribuído para que Recife encante seus visitantes. Um desses filhos é Francisco Brennand, que , a meu ver, sozinho já justifica uma viagem à capital de Pernambuco. 



Recife vista desde Olinda








































É importante, mas pouco conhecida no Brasil geral, o fato de que os judeus de Nova York saíram, em grande  parte, daqui, de Recife. Quando os portugueses , na sua maioria católicos,  tomaram a colônia dos holandeses, deram aos judeuso um prazo de três meses para partir ou se converter ao catolicismo. " Com medo da fogueira da Inquisição, quase todos venderam o que tinham e deixaram o Recife em 16 navios. Parte da comunidade judaica expulsa de Pernambuco fugiu para Amsterdã, e outra parte se estabeleceu em Nova York. Através deste último grupo a Ilha de Manhattan, atual centro financeiro dos Estados Unidos, conheceu grande desenvolvimento econômico; e descendentes de judeus egressos do Recife tiveram participação ativa na história dos Estados Unidos." http://pt.wikipedia.org/wiki/Pernambuco




Ronald e Suely Telma





















Minha amiga Suely Telma, que nos esperou no aeroporto  e nos acompanhou todos os dias em que estivemos entre Olinda e Recife, fez-nos a lista que transcrevo a seguir, com as visitas fundamentais e obrigatórias, especialmente para Ronald que visitava essas cidades pela primeira vez. A lista iniciava com o lugar que se constitui na minha maior paixão: a oficina e o museu de Francisco Brennand, onde se precisa estar, no mínimo, um dia inteiro - tem restaurante no local.




Mural da Igreja no Museu de Brennand























Francisco de Paula Coimbra de Almeida Brennand nasceu em 11 de junho de 1927, no Recife. Estudou em vários países europeus e especializou-se, na Itália, em cerâmica. Em 1971, na Cerâmica São João da Várzea, empresa fundada pelo seu pai, em 1917, e desativada desde 1945, instalou seu ateliê/oficina aproveitando os enormes galpões existentes e desativados. A região, denominada Várzea, está a 16 km da cidade de Recife e situa-se à beira do Rio Capibaribe, havendo exuberante mata atlântica ao seu redor. Sobre Brennand  http://www.youtube.com/watch?v=kok-JNVnWp4 http://www.youtube.com/watch?v=ewrrUKXwq94  ( ovo do Brennand )



 
Mosaico de Brennand
























Com 85 anos, Brennand, lúcido e produtivo, assistiu, neste ano de 2012, a um documentário sobre sua vida, já premiado na Mostra Internacional de Cinema  de São Paulo e dirigido por Mariana Brennand Fortes, sua sobrinha-neta. Outros cineastas já haviam filmado Brennand, um artista que gosta de cinema e que tem Antonioni, Pasolini, Tarkovski, John Madden e Buñuel como seus diretores preferidos. PS.No museu de Brennand , encontrei esses  mosaicos de peixinho, que comprei, parte deles, há 10 anos, para o painel que tenho na minha casa,em Torres.




Detalhes da oficina/museu de Brennand





















Em 2 de dezembro de 2012, numa bela entrevista ao Diário de Pernambuco, Francisco Brennand conta da semelhança de suas esculturas com estruturas primitivas , não conhecidas por ele anteriormente."São elementos formais que afloram do inconsciente mais profundo (..) Não temos só consciência da espécie, mas também do universo.É uma consciência remota que não pode ser traduzida ou interpretada com palavras. Somos o universo. O que existe em nosso corpo é o que existe no universo."



Museu de Recife





















A lista da Suely, que seguimos rigorosamente, acompanhados por ela, incluia, entre outros lugares, o Museu do Homem do Nordeste, em Casa Forte; o Museu do Estado, na Graça; a Casa de Gylberto Freire, onde comprei uma bela edição de Casa Grande e Senzala, em Apipuco; o Recife Antigo, com visita ao Centro de Artesanato; o Paço da Alfândega, onde fomos na Livraria Cultura ver as novidades - impressiona-me os títulos que constituem a lista dos mais vendidos; o Centro Cultural da Caixa, lugar belíssimo ao anoitecer; a Casa da Cultura, com amostra rica e variada do artesanato pernambucano.  



Amo cisnes!





















Desde a primeira vez que visitei Recife, impressiona-me o resultado da determinação legal de que cada edifício tenha, como propriedade sua, visível ao público,  uma obra de arte. Podem - se ver, assim,  esculturas e murais belíssimos enquanto se passeia pela cidade - uma cidade onde o metro quadrado, no centro, está entre os mais caros do Brasil.



Crianças em visita ao Museu do Homem





















Quando eu morava na Bahia, levei, algumas vezes, amigos de outros países para visitar Recife. Era sucesso garantido. Os estrangeiros encantavam-se com o ritmo, as cores, as artes, a Boa Viagem e as outras praias, a comida e o artesanato local. Nessas horas fala alto o orgulho de pertencer a um país tão grande e com tanta diversidade. Silencia-se, entretanto,  a dor da gritante desigualdade social e da miséria que ainda nos agride.












quinta-feira, dezembro 13, 2012

Olinda - OH! linda cidade...



















Maldosamente, dizem que o melhor de Olinda é a vista que se tem de Recife. Nada a ver. A cidade é bonita  e  tem vida própria. Bastante  fotogênica, exibe singular plasticidade quando vista de dentro para fora, como na foto ao lado, ou de dentro para dentro, como na foto seguinte. Com 30 anos de Patrimônio Histórico e Cultural da Humanidade, Olinda tem Arte em toda parte.




















Foi a segunda cidade brasileira a ser declarada Patrimônio, em 1982. A primeira foi Ouro Preto. Fundada em 1535, pelo português Duarte Coelho, primeiro donatário da Capitania de Pernambuco, Olinda é uma das mais antigas cidades brasileiras e certamente uma das mais bem conservadas. Localizada na região Metropolitana de Recife, com cerca de 400 mil habitantes, tem beleza natural e é importante centro turístico do nordeste.





















A  cidade tem lugares históricos encantadores, como a Catedral , o Alto da Sé, o Mosteiro de São Bento, o Convento de São Francisco, com a Igreja de Nossa Senhora das Neves, a igreja e a praça do Carmo e a Prefeitura, prédio onde,em 1829, foi iniciado o seu conhecido curso jurídico,com estudantes de todo o Brasil.  No centro histórico também, está o famoso Quatro Cantos, local onde ferve o carnaval todos os anos. Aqui nos hospedamos, na Pousada dos Quatro Cantos, num casarão lindo, entre árvores frondosas.





















Quase um terço da área total de Olinda é tombada pelo patrimônio histórico. Esse processo de  preservação  começou na década de 1930. A partir daí foram promovidas várias ações no sentido de preservar todo o patrimônio histórico, cultural e arquitetônico do município. No desce e sobe das ladeiras. encontram-se , além desse patrimônio todo, casas coloridas, frondosas árvores, lojinhas de artesanato, bons restaurantes, bares, cafeterias e fantásticas vistas, como a que se tem do Alto da Sé.























"Olinda se tornou um importante pólo econômico no fim do século XVI, fato que motivou a invasão dos holandeses. Depois da expulsão deles a cidade começou a ser reconstruída.(...) Até o início do século XX, por causa da, por assim dizer, estagnação, Olinda manteve preservada sua arquitetura. Então, as atividades culturais e o turismo começaram a se tornar relevantes, e a preservação e o tombamento dos monumentos começou a ser feito."
pt.wikipedia.org/.../Centro_Histórico_de_Ol.




"A cidade tem um traçado irregular, de influência medieval, adaptando-se de forma orgânica às curvas do terreno e sendo influenciada pela arquitetura religiosa. As torres das igrejas se destacam na paisagem da cidade. A arquitetura civil, ao contrário da religiosa, é simples perto da de outras cidades brasileiras da época. Recebeu influência da arquitetura portuguesa, como construções com sacada em pedra ou madeira, fachadas contíguas e grandes quintais, adaptada ao clima tropical do local."
pt.wikipedia.org/.../Centro_Histórico_de_Ol.























Olinda, primeira capital de Pernambuco, evidencia as heranças culturais da chamada Civilização do Açúcar. Tem muito a oferecer, além dos casarios, igrejas, conventos, mirantes, ladeiras, árvores e flores. Tem frutas doces, culinária rica , licores caseiros; tem o artesanato dos mercados, o Museu do Mamulengo, os cantos gregorianos do Mosteiro de São Bento. Tem seu conhecido carnaval ,tão rico em manifestações folclóricas, com  bonecos gigantes, clube de frevo, grupos de mascarados e ... muita alegria em suas ladeiras. Todo brasileiro deveria poder conhecer Olinda.Penso retornar logo.























PS. Dizer que os amigos são tesouros que vamos acumulando ao longo da vida, não é , na minha concepção, frase de almanaque ou discurso vazio. É certeza, é vivência, é constatação.Nada melhor para bem conhecer um lugar que conviver com amigos nesses e desses lugares. Por sorte, eu poderia fazer uma longa lista de países, estados ou cidades onde tenho amigos e com os quais muito aprendi sobre a cultura do local.























Em Olinda, mais do que amigos, tenho uma família. Muito obrigada Sebastião (in memoriam), Suely, Nezinha, Sílvio, Sanclair, Neire e Sônia pelo tanto de afeto e aprendizagens que aportaram à minha vida ao longo de muitos anos de convivência. Agradeço pelos passeios que fizemos juntos, a Caruaru, Fazenda Nova, Gravatá,  Tracunhaém,  Bezerros, João Miguel e tantos outros lugares. Agradeço pelos longos diálogos, pelas risadas, pelas comidas regionais, pelo maravilhoso convívio. A vocês, meu amor  e meu carinho.

domingo, dezembro 09, 2012

Pernambuco

Artesanato tradicional de Pernambuco



Ao digitar Pernambuco, lembrei-me que, quando comecei a lecionar,  usava essa palavra como código para dar notas - secretas - aos alunos : dez letras diferentes...de um a dez. Meu desafio era que eles chegassem  à  palavra - chave. E chegavam facilmente.




Museu do Homem em Recife


Quando  alguém fala ou escreve que " simpatiza..." sei que é verdade. Não se é  hiperbólico com palavra tão simples. Simpatizar é também de fácil compreensão - assim como seu oposto. 
Realmente, simpatizo com Pernambuco : sertão, agreste, zona da mata, região metropolitana; 
Olinda, Recife, Jaboatão, Caruaru, Petrolina, Gravatá, Tracunhaém, Fazenda Nova; 
frevo, maracatu, bolo de rolo, feijão verde, queijo coalho, inhame, mangas e goiabas.
Simpatizo sim, simpatizo com tudo.


Restaurante Parraxaxa em Recife
A cultura popular pernambucana é linda de ver e , por vezes, é surpreendente. Manifestações tradicionais estão em todo o estado, não só no carnaval, nas feiras de rua e nas festas de São João. Estão também, no cotidiano, como, por exemplo, na colocação de cascas de ovos na ponta das cercas de madeira. Usada ainda no interior, reencontrei  essa prática  no excelente reastaurante regional  Parraxaxa ( www.parraxaxa.com.br) .



Casa de Gilberto Freyre
  
Pernambuco tem cerca de 9 milhões de habitantes. Ostenta, entre aqueles que aqui nasceram, uma relação de pessoas de causar inveja a outros estados. São pernambucanos Gisberto Freyre, Nelson Rodrigues, João Cabral de Melo Neto, Mestre Vitalino, Romero Britto, Manuel Bandeira, Josué de Castro, Francisco Brennand, Luís Gonzaga e tantos outros, em áreas diversas do conhecimento e das artes. 



Os cabos externos deverão desaparecer




Está localizado no centro-leste da Nordeste e tem como limites: Paraíba,Ceará, Alagoas, Bahia e  Piauí, além de ser banhado pelo oceano Atlântico. Fernando de Noronha é parte desse estado - o que . justifica, por si só, o fluxo constante de turistas. Tem, entretanto, muito mais. Tem paisagens lindas,arquitetura e história admiráveis, cultura contagiante. Oferece passeios, com boas atrações, do litoral ao sertão. Tem Nova Jerusalém, Porto de Galinhas, Itamaracá, Maria Farinha, Lampião, Maria bonita e....bolo de rolo.




Bolo de rolo  
Bolo de rolo, que só conheço em Pernambuco, é um rocambole, com massa finíssima, em geral recheado com doce de goiaba.  Preparam-se, tradicionalmente, cinco tabuleiros de massa de pão-de-ló, que precisam ser assadas rapidamente.  Enrola-se a primeira - que resultará num rolo bem fininho - e , a seguir, a segunda, a terceira...até a última. Já o encontrei recheado com doce-de-leite. Bom mesmo é o recheio com goiaba. Acredito que nenhum visitante retorna sem bolo de rolo na bagagem.


Popular bandinha

Os holandeses permaneceram poucos anos em Pernambuco - chegaram em 1630 e foram expulsos em 1654. Deixaram , no entanto, boas recordações. Quando o conde Maurício de Nassau aqui desembarcou, estava acompanhado por uma equipe de engenheiros e arquitetos, que traçaram pontes, diques e canais. Eu me pergunto como seria esta terra hoje, que viveu historicamente movimentos separatistas, se os holandeses tivessem nela permanecido.



Muitas e variadas cerâmicas


Pernambuco investe, atualmente, em roteiros histórico-culturais descentralizados, com rotas alternativas às das praias, procurando, assim, ampliar o turismo no interior do estado. Traçou, para tanto, um plano estratégico com metas para o período de 2008 a 2020. Entre os objetivos desse plano estão a valorização das manifestações artísticas e culturais, o incentivo à construção de novos empreendimentos e a criação de produtos turísticos inovadores. Sucesso!Os pernambucanos merecem o melhor.

segunda-feira, dezembro 03, 2012

Revendo o Sertão Bahia/Pernambuco

Carne de bode na Feira de Bonfim











































De Salvador para Bonfim, viajamos em ônibus da empresa Falcão Real. Executivo, confortável, passagem com preço bem razoável. Viagem tranquila.

De Bonfim para Petrolina, por causa do horário que deveríamos chegar, viajamos num pinga-pinga desses que dariam um estudo de caso a antropólogos, sociológos, linguistas...

Chorei ao afastar-me de Senhor do Bonfim. Tenho fortes ligações afetivas com a cidade . Ando muito sensível. Fim de ano talvez... talvez consciência do envelhecimento...Despeço-me das pessoas queridas e dos lugares sempre com receio de não mais tornar a vê-los.








































Chegando em Petrolina, onde nosso objetivo era ver as fazendas de frutas, fomos para o hotel Velho Chico - hotel simples, eficiente, agradável, com atendimento personalizado. Uma boa escolha. Realmente gentis, Rogério, o proprietário, e os  funcionários ajudaram-nos o tempo todo - eu havia torcido o pé logo na chegada e estava caminhando com dificuldade.

Rever o rio São Francisco é sempre uma bênção, tanto do lado de Juazeiro, quanto de Petrolina. O Velho Chico, como é chamado na aqui , dá vida ao sertão - basta ver a produção das fazendas que estão próximas a ele. 
No post seguinte, as fazendas e o rio - inseparáveis!