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quarta-feira, março 13, 2019

Sarajevo, a bela e dramática capital da Bósnia e Herzegovina (BH)

Centro de Sarajevo, à noite,  com seu bonito calçamento irregular

Peço-lhes um favor: antes de ler esta postagem, veja o vídeo a seguir indicado,  que se encontra no youtube: https://www.youtube.com/watch?v=JhGVgrre390 Nesse vídeo,  poderão observar, com maior abrangência , as  imagens    da   comovente e  dramática Sarajevo,  além de ouvir a  comovente  canção, sucesso de U2, Miss Sarajevo.


                                        Miljacka: conhecido como Rio de Sarajevo



                                                 Ponte Latina sobre o Miljacka



Ao chegar em Sarajevo, a bela e comovente capital da Bósnia e Herzegovina, com população ao redor de 400 mil habitantes, tínhamos hotel reservado, através Booking.com, numa localização que nos pareceu boa - não esperámos, entretanto, que fosse tão boa assim. Estávamos, no Centro,  num pequeno apartamento, de onde se via, quase em frente, a Ponte Latina, a mais famosa e histórica da capital.




                                               Aeroporto Internacional de Sarajevo



                                                          Um dos bons museus do País


A Ponte Latina ( Latin Brigde )  é  encantadora à noite, por ser lugar romântico e agradável, fascinante de dia pela sua localização, arquitetura e história - em alguns períodos, uma História bastante dramática,  pois, sobre ela, foram assassinados, em 1914,  o arquiduque Francisco Fernando da Áustria ( herdeiro ao trono do Império Austro-Húngaro ) e sua esposa Sofia, fato que foi determinante para o início da Primeira Guerra Mundial.





                                      Isolda nas proximidades do Rio de Sarajevo
                             
Cable car - do Centro Histórico para as Montanhas próximas

Um dos  primeiros passeios que Isolda e eu fizemos, foi de  bondinho - cable car - da primeira estação, cujo início  da subida do cable está muito perto da Ponte,  no Centro Histórico,  até o alto da colina mais próxima. Desde o primeiro momento, Sarajevo, a mais populosa cidade da Bósnia e Herzegovina, fundada pelos Otomanos no século XV, pareceu-me tranquila e fácil de traçá-la caminhando. 


Do alto da Colina...


...onde chegamos de bondinho.

Após chegar à estação final - e beber um bom café - fizemos um tour  por  outras colinas que rodeiam a cidade, as mesmas colinas de onde os sérvios, durante a triste Guerra (1992/1996), atiravam e matavam pessoas que simplesmente andavam pela rua. As pessoas, em pânico, corriam para a Ponte, onde se tornavam um alvo mais visível e fácil de ser alvejado. Não chegavam à montanha - eram mortos antes. Impossível não se emocionar.




Vijecnica - o edifício da Biblioteca Nacional às margens do rio Miljacka

Ao retornar do passeio pelas colinas, fomos visitar um dos edifícios mais fantásticos da capital : refiro-me a Vijecnica, a antiga Biblioteca de Sarajevo, que foi incendiada por bombas sérvias, na noite de 24/25 de agosto, no duro período da guerra. No incêndio, foram queimados mais de dois milhões de livros e inúmeros documentos históricos e literários. Vijecnica é hoje  a Prefeitura da cidade. 



Interior da Biblioteca Nacional 

Como acontece em muitos acontecimentos dramáticos e destrutivos, artistas assumem a defesa do patrimônio e o cuidado para que o fato não seja esquecido para que  nunca mais se repita. Também na destruição de Vijecnica isso aconteceu e resultou numa bela e terna-e-eterna  imagem: Vedran Smailovic, violinista de Sarajevo, vinha tocar nas ruínas da Biblioteca ( foto abaixo, retirada da Wikipedia ).



Crédito da foto: Wikipedia - violinista Vedran Smailovic

Muito mais se pode ver em Sarajevo, hoje uma cidade pacífica, que mostra uma mescla de línguas, religiões e culturas. Pode-se ver, por exemplo o histórico Mercado Markale, onde foram assassinadas, durante a guerra, mais de 60 pessoas - ou as Rosas de Sarajevo, com suas pétalas pintadas com tinta vermelha, tenho como centro o buraco de balas assassinas, tristes lembranças da recente guerra.


Religiões que convivem....

....com marcas de de ataques.

Eu gostaria muito de retornar à Bósnia e Herzegovina. Há cenários de brutais acontecimentos que me faltou ânimo e coragem de visitar, como o Túnel da Esperança, única entrada possível de ajuda humanitária, por onde chegavam do exterior alimentos e medicamentos durante o cerco da cidade ou o cemitério das crianças, onde foram sepultados mais de mil pequeninos mortos durante a guerra. 



Café turco

Burek

Outra razão por que eu desejaria voltar: comer  burek de queijo e espinafre, baklava  com nozes e mel e beber um delicioso café turco, em que eu até me arrisco a ler o futuro na borra do café, espalhado a partir do fundo da xícara. Verdade é que eu gostaria mesmo de voltar  para rever este povo que perdeu ao redor de 30% de sua população, superou o ódio e teve força para lutar pela reconstrução do país. 

Sarajevo


quinta-feira, janeiro 10, 2019

Retomando os relatos sobre a Península Balcânica

Madre Teresa de Calcutá - Centro de Pristina/Kosovo

Em 2018, nos meses de abril e maio, minha amiga Isolda e eu, percorremos a quase totalidade da Península Balcânica. Já no final dessa viagem, um problema familiar nos fez retornar com urgência. Eu havia escrito somente sobre  Eslovênia,  Croácia,  Bósnia Herzegovina e  Sérvia. A partir daí , perdi o " fio da meada". Retorno, neste início de janeiro de 2019, para acrescentar os relatos sobre Montenegro, Macedônia, Albania e Kosovo, países que não seria justo ficarem sem registro.


Sarajevo - Bósnia Herzegovina

É a segunda vez que visito os Balcãs, uma das três penínsulas dessa região do continente europeu. Na  primeira vez, fiz uma viagem de 10 dias, bastante superficial. Na segunda vez, idem. Nesta vez fiz uma visita bem mais longa e planejada, suficiente para perceber as grandes diferenças entre seus diversos países, a ponto de a gente se perguntar como conseguiram coabitar, por tanto tempo, uma mesma república.


Dubrovnik - Croácia

Vivem ali, no mínimo, seis etnias e três religiões fortes e rivais: católica, ortodoxa e islâmica - os templos dessas três religiões constituem belas atrações. Em algumas cidades, para conseguir vencer distâncias e visitar a todos, contratamos carro com motorista -  custa bem pouco em relação a outros países e ganha-se tempo no percurso. Os templos principais geralmente estão no centro das cidades; os conventos e mosteiros, todavia, podem estar até bem distantes - e oferecem muito o que ver.



Budva - Montenegro

Para percorrer a região, precisa-se usar o tempo que  precede a viagem para estudá-la bem. Analise o tempo de deslocamento entre um país e outro, por exemplo,  não esquecendo a demora nos postos de fronteira, que, obviamente, são vários e demorados. Decida, portanto , sobre o meio de transporte, a partir da distância e do tempo a ser percorrido considerando, ainda, esses entraves burocráticos.


Podgorica - Montenegro

O principal meio de transporte que se costuma usar na Europa, é o trem. Nos Balcãs, entretanto, a malha ferroviária é limitada, com pouco conforto e lenta - ser lenta torna-se um up  em razão das belas paisagens com que somos surpreendidas com frequência. O trem, por exemplo, entre Zagreb e Liubliana, mostra cenários belíssimos, já de ônibus esse mesmo trecho e meio sem graça.


Mostar - Bósnia e Herzegovina

Os ônibus são comuns , nada de mais...mas são econômicos e frequentes. Nós os usamos em alguns trechos, como Montenegro/ Macedônia por onde se tem um interessante panorama da Albânia rural. De Zagreb a Belgrado, optamos por ir de avião ( desses que o nome parecia ser Jesus está chamando)O voo, no entanto, foi tranquilo. Também o trecho Belgrado/Sarajevo foi feito por via aérea. Para outros tantos percursos, optamos por contratar carro com motorista. Viagens econômicas e possibilidade de fazer paradas  em sítios históricos e cafeterias - é óbvio!


Albânia

É bastante difícil indicar roteiros para visita à Península Balcânica, no que se refere à chegada e à saída. Depende do projeto total de cada viajante. Isolda e eu, nesta última viagem,  chegamos de avião, vindas de Budapest, diretamente a Zagreb, capital da Croácia. Partimos de Skopye, capital da Macedônia, usando carro contratado, até Thessaloniko, na Grécia.


Skopye - Macedônia

Numa outra viagem,  cheguei pela Eslovênia, a partir de Trieste, na Itália. Ainda uma outra vez, entrei  por Dubrovnik, um dos mais belos lugares da Croácia, vindo de navio pelo Mar Adriático. A saída dos Balcãs vai depender da continuidade do roteiro estabelecido: se forem entrar na Grécia, aconselha-se deixar a Macedônia por último; se forem continuar pela Romênia, melhor partir de Belgrado.


Interior da Bósnia Herzegovina

Não importa, acredito, por onde começa e por onde termina uma viagem a Antiga Yugoslavia. Todos os países de hoje constituem uma grande aula de História. Há sítios incríveis para se ver e sobre eles refletir. Mostar, com sua Ponte Romana,  na Bósnia Herzegovina; Kosovo, com as feridas da guerra tão recente; Croácia, com sua exuberante beleza; Sarajevo com a ponte onde Ferdinando foi assassinado e muito mais.


Sarajevo - Capital da Bósnia

A península Balcânica nos oferece condições para uma viagem econômica, tranquila - muito tranquila  desde que sigamos as orientações para evitar algumas travessias,   como entre a Sérvia e Kosovo. Oferece-nos incrível diversidade de paisagens e de história - dependendo do interlocutor, o fato histórico pode ter interpretações bem diferentes. E oferece, ainda, saborosa gastronomia - do café da manhã ao jantar. É uma dessas viagens que dá vontade de retornar.


No meio do caminho...uma cafeteria!

"Não tenho pressa: não a têm o sol e a lua.
Ninguém anda mais depressa do que as pernas que tem.
Se onde quero estar é longe, não estou lá num momento.
Sim: existo dentro do meu corpo.
Não trago o sol nem a lua na algibeira.
Não quero conquistar mundos porque dormi mal,
Nem almoçar o mundo por causa do estômago.
Indiferente?


Belgrado

Não: filho da terra, que se der um salto, está em falso,
Um momento no ar que não é para nós,
E só contente quando os pés lhe batem outra vez na terra,
Traz! na realidade que não falta!
Não tenho pressa. Pressa de quê?


Kotor - Montenegro

Não têm pressa o sol e a lua: estão certos.
Ter pressa é crer que a gente passe adiante das pernas,
Ou que, dando um pulo, salte por cima da sombra.
Não; não tenho pressa.



Budva - Montenegro

Se estendo o braço, chego exactamente aonde o meu braço chega -
Nem um centímetro mais longe.
Toco só aonde toco, não aonde penso.
Só me posso sentar aonde estou.



Skopye - Macedônia
E isto faz rir como todas as verdades absolutamente verdadeiras,
Mas o que faz rir a valer é que nós pensamos sempre noutra coisa,
E somos vadios do nosso corpo.
E estamos sempre fora dele porque estamos aqui."

Fernando Pessoa

Mostar - Herzegovina