Mostrando postagens com marcador Bahia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Bahia. Mostrar todas as postagens

sábado, novembro 30, 2013

"Bahia que não me sai do pensamento..."

Chegada em Salvador pela orla
São fortes meus vínculos histórico - afetivos com este Estado, que conheço há quase quarenta anos. Morei em Salvador durante sete anos. Viajei muito para o interior, onde estão meus lugares preferidos e minhas melhores recordações. Hoje vivem aqui meu filho caçula, muitos amigos e alguns afilhados. Retorno sempre que posso. E, quando retorno, faço um recorrido por meus espaços favoritos. 

Salvador visto de São Lázaro.
Ondina, bairro em que morei e aprendi a viver o carnaval baiano, tem , entre seus encantos, que são muitos, a proximidade com a Igreja de São Lázaro, onde dentro dela se reza Pai-Nosso e Ave Maria e, em frente a ela, pode-se tomar banho de pipoca, a flor do milho, num ritual de Candomblé, com a bênção dos Santos e dos Orixás.Sincretismo perfeito. As baianas que realizam o banho de pipoca, atualmente só estão lá às segundas-feiras e em datas especiais.

Altar da Igreja de São Lázaro

As Gordinhas, representando a mulher branca, a índia e a negra,   constituem uma atração da avenida Adhemar de Barros, em Ondina. Feitas em bronze pela artista plástica Eliana Kértsz, pesam cerca de uma tonelada e medem três metros de altura. São charmosas, exuberantes e muito fotografadas.  Eu morava num aparthotel em frente às esculturas, o que levava  Albertino, meu querido amigo baiano, a chamar esse espaço  de aldemário - as gordas + eu.

Uma das gordas de Ondina

Na mesma avenida Adhemar de Barros, está a Residência das Filhas do Coração de Maria, congregação religiosa mantenedora da Faculdade Social da Bahia e do tradicional Colégio ISBA. Lembro, com saudades, de Estelinha e Antonieta - já falecidas - e de Anajar, Maria Alice, Nilza, Francemi, Lélia, Noêmia, Gervis e Alis... Morar um ano na Residência foi  aprendizado intenso de um viver muito diferente do meu.

Vista desde o Alto de Ondina
Rio Vermelho lembra os escritores Jorge Amado e Zélia Gattai; lembra esculturas, painéis e muito verde. Aqui vivia também Carlinhos Brown , na rua Barro Vermelho, numa grande casa, com fundos para o mar. No  lugar dessa casa, está sendo agora construído um grande edifício , cuja cobertura - dizem -  pertencerá a Brown. A rua Barro Vermelho fica próxima à rua Fonte do Boi - encantam-me os nomes de ruas,bares e restaurantes baianos.
Praia do Buracão
Também na Barro Vermelho, próximo a Praia do Buracão, onde era a antiga maternidade do Bairro, constroem-se um novo complexo residencial e um hotel de bandeira ainda não divulgada. Bairro boêmio de Salvador,  Rio Vermelho concentra  bares e botecos, hotéis, restaurantes e as melhores baianas de acarajé , como Cira e Dinha.
Dique do Tororó
O Dique do Tororó, revitalizado para receber, na Arena Fonte Nova, a Copa das Confederações e a Copa  do Mundo em 2014, tornou-se visita obrigatória. Os Orixás continuam a embelezar a área e a atrair devotos, visitantes, turistas e andarilhos.

Orixás no Dique do Tororó
A Itaipava Arena Fonte Nova, inaugurada oficialmente em 5 de abril de 2013, recebeu seu primeiro jogo no dia 7 seguinte, quando se enfrentaram os tradicionais rivais , Bahia e Vitoria. Nao tivemos sorte: Bahia, o meu time, perdeu ... feio! A capacidade da Arena e de 52 mil pessoas. Até agora, o recorde de público foi no jogo Brasil e Itália, na Copa das Confederacoes.

Itaipava Arena Fonte Nova
Fundada em 1931 pelo italiano Mario Tosta, a Sorveteria da Ribeira, no Largo da Ribeira,  tornou-se tradicional endereço incluído nas agendas de visita à cidade. Ambiente simples, decorado com azulejos, preserva a fórmula dos seus famosos sorvetes, feitos com frutas frescas, descascadas manualmente, sem uso de corantes e conservantes. Usam-se produtos regionais, como cajá, cajarana, mangaba, tamarindo, biri-biri, coco, goiaba e pinha. Mantém preços comuns a qualquer similar industrializado.Comenta-se que, nos fins de semana, seus clientes ultrapassam a três mil, que podem , ainda, encantar-se com a vista de águas e de  barquinhos e de árvores frondosas bem na frente do prédio da sorveteria.
Meu delicioso sorvete de coco e goiaba
Desde quando eu morava em Salvador, a Perini - seja padaria, confeitaria, cafeteria,mercado ou delicatessen - foi meu endereço preferido para compras de alimentos especiais ou mesmo para tomar um café . Com várias localizações , a Perini da Pituba tornou-se a minha preferida. Lá posso encontrar variedade de queijos, pães, frutas, legumes, vinhos e especiarias internacionais. Posso comprar também produtos regionais, como banana da terra, jiló, quiabo, maxixe. Uma festa de formas,cores e aromas.

Perini do Barra
Quando vim morar em Salvador, elaborei, em conjunto com meu filho, uma relação dos restaurantes que nos diziam ser os melhores da cidade. Seguimos ordenadamente, experimentando cada um deles e fazendo anotações que nos possibilitavam uma avaliação criteriosa. Ao final de seis meses, estava concluida a árdua tarefa a que nos propunhamos.

Orla de Salvador
Elegemos, como nossos favoritos, Boi Preto, Iemanjá, Maria Mata Mouro, Paraiso Tropical  e o vegetariano Manjericão. Com alegria, passado vários anos, fico sabendo que esses restaurantes continuam a existir e a figurar na lista dos melhores.Não estou incluindo restaurantes de cadeias internacionais, como o australiano Outback. Registre-se que a comida de boteco, na Bahia, é também deliciosa.

Outback do Shopping Barra
Fui com Adriana na CEASinha do Rio Vermelho, que atualmente recebe ampliação, melhorias e reconstruções. É um lugar lindo de ver  e bom para  fazer compras, especialmente de produtos regionais, como frutas - caju, manga, acerola, seriguela, umbu, pinha e coco - legumes, verduras, flores, biscoitos e doces. Nunca saio de lá sem farinha de mandioca ( amarela) , pimentas diversas,  feijão verde e biscoitinhos e geleias apimentadas. É a hora também de conversar sobre economia regional com os pequenos produtores e  de escutar expressões típicas do local. Belo passeio.

Minha nora na Ceasa do Rio Vermelho
Senti-me triste com  o desaparecimento do Clube Espanhol. Era um espaço tradicional, belíssimo, amplo, onde se podia almoçar em bons restaurantes e de onde se podia ver a baía com seus recortes e cores. No lugar do Espanhol, um edifício muito grande , com apartamentos caríssimos, e que nada de especial acrescentou àquela área nobre. Pedi ao Senhor do Bonfim para proteger e preservar  essa cidade tão linda .

Senhor do Bonfim, protege Salvador!

Os Terreiros constituem  atração fascinante de Salvador, cidade em que cerca de 80% de seus habitantes descendem de africanos - origem que se manifesta na beleza do povo, na expressão da cultura e na forma de organização social. As religiões de matriz africana são presença forte no cotidiano da Bahia. Desta vez, não fui a nenhum terreiro porque estava muito calor e meu tempo era escasso. Ao passar pela Vasco da Gama, lembrei-me, com saudades, das festas de Erê a que eu assistia ali, na casa Branca. A localização dos terreiros pode ser encontrada no www.terreiros.ceao.ufba.br Visita imperdível!

Detalhe da orla na Avenida Oceânica

Quem visita a Bahia, visita o Bonfim - nao só a Colina, mas também a Igreja.  Lembro-me de colegas e amigos, que,  quando trocavam de carro, o primeiro passeio  era ao Bonfim - pedir proteção e agradecer. E mesmo um lugar especial. Se não há devoção, há um entorno belissimo com a vista da Igreja,  da baia e da Ponta de Humaitá. Importa , no entanto, ter muita paciência com os vendedores de fitinhas,rosários, medalhas e muitas quinquilharias mais. Sem paciência, perde-se o bom humor - o que e sempre lamentável.

Igreja do Bonfim

Para quem gosta de compras e comprinhas,  Salvador oferece muitas alternativas nos shoppings locais.O Shopping Barra, está turisticamente muito bem localizado e tem ótimos restaurantes.  O Iguatemi é grande, com ampla oferta de cinemas e serviços e com uma particularidade :  uma certa identificação dos andares com faixas de renda. O Salvador Shopping , próximo à Tancredo Neves, destaca -  se  pela presença de grifes mais exclusivas.Há, ainda, outros tantos , como  Itaigara,  Salvador Norte, Center Lapa, Piedade e Bela Vista.
Decoração de Natal no Shopping Barra

A novidade da vez , em Salvador, 'e o Outlet Premium, já em pleno funcionamento, localizado no km 12,5  da Estrada do Coco, direção Camaçari. Nao estive lá, mas as informações que tenho, dão conta de  um espaço bastante vantajoso para compra de grifes nacionais  e internacionais, como Lacoste, Nike, Calvin Klein e Náutica. Compro cada vez menos ... e somente o necessário, razão por que não incluo esses espaços nas minhas visitas.

Ronald e Josemir no Alto de Ondina

No final de mais esta andarilhagem pela Bahia, um agradecimento especial a Josemir. Há mais de 10 anos, ele nos conduz com segurança e nos atualiza com as mudanças locais. Pessoa íntegra que, com simplicidade, pontualidade e paciência, acompanha a todos nossos amigos e familiares, moradores ou visitantes na Terra do Senhor do Bonfim. Sempre nos  espera e nos leva ao aeroporto e faz conosco roteiros por Salvador e pelas cidades vizinhas. Mais que um taxista, é um amigo de quem gostamos muito.Os telefones dele são:(71) 8894 9401 / (71) 93023729.

Largo da Ribeira

Saio daqui pensando em voltar. Saio sentindo saudades do que vi desta vez e do que não consegui ver. Gostaria de ter ido à Casa do Sol, em Cajazeira 5,  e ao Kilombo do Kioiô, na  Suburbana,  lugares que muito acrescentaram à minha história de vida. Gostaria de ter caminhado , sem rumo definido, por todo o Pelourinho; de visitar museus e de ir a teatros; de ter passeado de barco,  vendo a silhueta da cidade afastar-se ou aproximar-se.

Itapoã - Pedra da Sereia
Enfim, gostaria de ter permanecido por mais tempo e ter ido para o interior.Saio sem ter conversado com amigos muito queridos, sem ao menos tê-los visto. Uma semana é muito pouco, priorizei, por isso,  o convívio com meu filho, que, como eu, traça Salvador e ama a Bahia.

"Iansã cadê Ogum? "

quarta-feira, novembro 20, 2013

" Lá vou eu..."

 


Retornar à Bahia é sempre uma festa. Desta vez, ficaremos somente em Salvador. Farei um post e contarei as novidades soteropolitanas. " Soteropolitano é o gentílico usado para o indivíduo que nasce em Salvador, no estado da Bahia, o nome vem do grego após a tradução da cidade de Salvador para Soterópolis (cidade de Salvador). A partir dalí veio o gentílico. Soterópolis foi uma antiga cidade grega, erigida por seu imperador e em sua homenagem, chamado Sotero. Sotero em latim é mesmo que Salvador. Assim, temos sotero + pólis, ambos do grego e não do latim, como muitos pensam." http://pt.wikipedia.org/wiki/Soteropolitano

segunda-feira, dezembro 03, 2012

Revendo o Sertão Bahia/Pernambuco

Carne de bode na Feira de Bonfim











































De Salvador para Bonfim, viajamos em ônibus da empresa Falcão Real. Executivo, confortável, passagem com preço bem razoável. Viagem tranquila.

De Bonfim para Petrolina, por causa do horário que deveríamos chegar, viajamos num pinga-pinga desses que dariam um estudo de caso a antropólogos, sociológos, linguistas...

Chorei ao afastar-me de Senhor do Bonfim. Tenho fortes ligações afetivas com a cidade . Ando muito sensível. Fim de ano talvez... talvez consciência do envelhecimento...Despeço-me das pessoas queridas e dos lugares sempre com receio de não mais tornar a vê-los.








































Chegando em Petrolina, onde nosso objetivo era ver as fazendas de frutas, fomos para o hotel Velho Chico - hotel simples, eficiente, agradável, com atendimento personalizado. Uma boa escolha. Realmente gentis, Rogério, o proprietário, e os  funcionários ajudaram-nos o tempo todo - eu havia torcido o pé logo na chegada e estava caminhando com dificuldade.

Rever o rio São Francisco é sempre uma bênção, tanto do lado de Juazeiro, quanto de Petrolina. O Velho Chico, como é chamado na aqui , dá vida ao sertão - basta ver a produção das fazendas que estão próximas a ele. 
No post seguinte, as fazendas e o rio - inseparáveis!


domingo, dezembro 02, 2012

Meu querido Senhor do Bonfim...

Peu, meu querido afilhado
Emocionei-me ao retornar a Bonfim depois de quase sete anos. Tenho boas lembranças desta região. Participei, como trabalho voluntário, durante quatro anos,  no  Instituto de Teologia e Pastoral de Bonfim -ITEPAB- da construção do projeto e da  aprovação pelo MEC, do curso Superior de Teologia e Pastoral, pertencente à Diocese. Foi trabalho e aprendizado, humano e intelectual, com pessoas inesquecíveis, coordenadas pelo Pe. Ramón Cazalas Serrano, espanhol que hoje mora em Portugal. Deixei raízes neste lugar.
Minha querida  Zoraide



Vim agora para reencontrar meus quatro afilhados - pena que somente dois ainda residem aqui. Encontro-os crescidos, bem formados, maravilhosas pessoas. Pedro Paulo, o Peu, publicou um belo livro de poesias ; Jânio está concluindo o terceiro colegial. Jantei na casa de minha amiga Zoraide, que reuniu seus familiares, meus afilhados e alguns amigos. Conversamos muito. Relembramos história vividas por nós, pelo Pe. Ramón e pelos meninos do Seminário, onde eu me hospedava quando vinha trabalhar.



Típica paisagem do semiárido
Rimos ao recordar uma Romaria da Terra, em 2004, com seis mil pessoas que percorreram, sob sol escaldante e terra seca e árida, mais de cinco quilômetros. Eu, sem experiência de sertão, sem chepéu e sem bloqueador solar, num vermelhão que tornava pálido o mais robusto camarão, passei mal e fui socorrida por uma senhora na entrada da cidade onde findava a Romária. Tinha febre, dores fortes pelo corpo e vomitava muito. Desidratação. Fui salva pela pela batida de polpa e  água do coco. Procurei fazer, naquele dia,com que o mico fosse um mico discreto. Impossível. Dormi e acordei quando a dona da casa fazia relatos do meu estado de saúde para amigos meus e curiosos.
Bode para venda na feira de Bonfim
Senhor do Bonfim , localizado no semiárido, a 360 km de Salvador e a 110 km de Juazeiro- cidade que divide Bahia e Pernambuco- tem hoje 75 mil habitantes e a segunda maior feira do Nordeste - a maior é a de Caruaru. Nos sábados, essa feira é uma festa. Pode-se, entre outras coisas, comprar frutas, verduras, legumes, flores e árvores, cerâmicas, roupas, sapatos, redes, galinhas mortas e galinhas vivas, bodes vivos e bodes em pedaços , artesanato em couro e em madeira; pode-se ouvir o genuíno forró e as músicas de Luís Gonzaga, que está completando seu centenário.

Feira de Bonfim no sábado
A história de Senhor do Bonfim está  relacionada à busca de ouro e pedras preciosas e à introdução da criação de gado no sertão baiano. Ainda no século XVI, portugueses pertencentes à Casa da Torre  organizaram expedições com destino ao rio São Francisco e às minas de ouro de Jacobina, iniciando a ocupação do interior da província e a formação de canais de comunicação com o litoral. A zona de passagem dessas expedições, com suas rancharias, possibilitou a fixação de vaqueiros, bandeirantes e desbravadores. Foi em  1750, que se estabeleceu  o núcleo que deu origem à cidade.


Na feira, esperando o dono...
Bonfim tem a maior e mais tradicional festa de São João, na Bahia. Considerada Capital do Forró, o São João  dura em torno de cinco dias ( contam que o atual prefeito perdeu a eleição porque a diminuiu para três dias ) e começa na rodoviária, onde chegam centenas de ônibus de todo o estado, e as pessoas são recebidas com música - gaita, pandeiro, triângulo e voz. A primeira vez que lá cheguei, ri sozinha, entre surpresa e encantamento com a animação. O povo amanhece - e passa o dia - dançando e cantando.


Forrozinho na feira de sábado
Senhor do Bonfim preserva características tradicionais, como trios de sanfoneiros, quadrilhas, bandas de pífanos e alvoradas juninas, quando  multidões dançam pelas ruas durante as madrugadas. Mais tradicional, entretanto , é a guerra de espadas - bambus cheios de pólvora . A guerra é realizada em área determinadas, as casas recebem proteção especial, as luzes são apagadas e as pessoas que brincam com as espadas precisam usar capacetes. Embora me dê medo, é um belo espetáculo. Por indescritível, indico um vídeo onde esse espetáculo pode ser visto:
http://www.youtube.com/watch?v=L41vOxvx-UQ
Jânio, meu afilhado, meu marido e meu compadre




Não é fácil morar no sertão. Como escreveu Euclides da Cunha, o sertanejo é, antes de tudo,um forte.
Quem nunca palmilhou a terra seca e árida dificilmente o entenderá. Paradoxalmente, é , no entanto, o povo mais doce e generoso que eu conheço. Dizem que o sol do sertão desperta a doçura das frutas e a coragem de viver. Acredito que desperta também a doçura das gentes.




Do livro Vivências e Utopias, escrito por Peu - Pedro Paulo Souza Rios - mimoso da dinda, transcrevo o poema:
Chuva no Sertão

Chuva,chuva!
Boa nova aos povos do sertão
Evangelho encarnado e experimentado.

A trovoada chegou
A natureza se põe a cantar - e canta
Melodias do tempo novo.

A pachamama suspira
O sertão refloresce em espigas de milho
Em flor de margarida
De maracujá e de mandacaru
Sinto no ar o aroma da novidade.

O jovem que em tempos passados partiu, retorna
renasce a esperança
O sertão se renova.



Na esquina
O povo declama a justiça
Encena a liberdade
e no terreiro dança o amor.

Onde reinava a opressão
Agora reina a organização
Aliança dos pobres criada e recriada
Diariamente em mutirão.


quinta-feira, novembro 22, 2012

Ainda no Recôncavo, São Félix ...




















Sempre que visito Cachoeira, visito também São Félix. As duas cidades estão separadas pelo rio Paraguaçu e interligadas por uma bonita ponte antiga, toda em ferro, mandada construir por Dom Pedro II. É de Cachoeira que se tem essa encantadora visão de São Félix, cidade com pouco mais de 15 mil habitantes, que creceu  durante a expansão da cana - de - açúcar.



















A cultura local é  marcada fortemente pelas raizes ancestrais: os índios primeiramente, depois os portugueses, que chegaram principalmente para explorar o comércio de madeira,  e os negros vindos da África, a partir de 1549. A topografia de São Félix é bem bonita . Pequenas estradas serpenteiam morro acima. Tem, ainda, uma arquitetura interessante, como pode ser vista, na foto ao lado, no antigo prédio da  Estação Ferroviária.





















Forte também foi a indústria fumageira, com a instalação das fábricas de charutos , como a Suerdieck e a  Dannemann, entre outras.  Assim, a área que margeia o Rio Paraguaçu abrigou depósitos e armazéns de fumo das fábricas de charuto, que deram ascensão econômica à região. Os saveiros continuam a transportar produtos agrícolas e a embelezar a paisagem. Para quem deseja realmente conhecer a Bahia, uma visita às cidades do  Recôncavo é indispensável.


Santo Amaro de Caetano,Bethania e Dona Canô







































"Adeus, meu Santo Amaro
Que eu dessa terra vou me ausentar
Eu vou para Bahia
Eu vou viver, eu vou morar
Eu vou viver, eu vou morar
Adeus meu tempo de chorar
E não saber porque chorar
Adeus, minha cidade
Adeus, felicidade
Adeus, tristeza de ter paz
Adeus, não volto nunca mais
Adeus, eu vou me embora
Adeus e canto agora
O que eu cantava sem chorar"

Caetano










































Santo Amaro teve seu início, como povoado, às margens do rio Traripe, em 1557, sendo, portanto, um dos povoados mais antigos do Brasil. Em 1837, transformou-se em cidade, com o nome oficial de Leal Cidade de Santo Amaro. Atualmente é conhecida como Santo Amaro da Purificação. Distante 70 km de Salvador e com população de 65 mil habitantes, tornou-se importante como produtor de cana-de-açúcar, fumo e mandioca, surgindo daí engenhos, casas de farinha e pequenos beneficiamentos de fumo.










































Não foi, entretanto, a agricultura que a tornou cidade famosa. Foram dois irmãos - Caetano Veloso e Maria Bethania - que a projetaram no mundo. Impossível ir a Santo Amaro sem visitar a casa da família Veloso e o teatro Dona Canô, cidadã baiana, com 105 anos, muito conhecida em todo o Brasil, segundo ela por ter esses dois filhos que nunca esqueceram de onde vieram e de quem era a  mãe deles. Dona Canô ainda participa , no mês de fevereiro, da  organização da tradicional lavagem da escadaria da Igreja  da Nossa Senhora da Purificação( foto ) , que tem a participação de 400 baianas, usando suas belas vestimentas.










































Além da Igreja, há três outras  visitas obrigatórias. Inicialmente, na rua do Amparo,  a casa de dona Canô, que vive ainda lá. Em frente da casa,  uma homenagem onde se lê: "Caetano, poeta da terra, menino da gente, nós amamos você" e "Bethânia, de tuas cordas vocais emerge esta gente bonita, tua voz é a melhor notícia da terra que te gerou" O Teatro Dona Canô , com 260 lugares , excelente acústica e bela arquitetura e programação frequente. expõe um pouco da história dos Velosos. Ao lado do teatro, está a Casa de Samba da Nicinha, onde, em especial, cultivam-se as raízes do samba de roda, tradicional no município .

























Em toda a cidade, nota-se admiração por Dona Canô, considerada a Embaixatriz de Santo Amaro. Ela recebe, contam, todas as pessoas que a procuram e participa da vida local. Há pouco tempo, liderou uma campanha de arrecadação de  fundos para a reforma da igreja e mobilizou a população em apoio aos pescadores. Seu aniversário é comemorado com missa   -   na última,Bethania cantou. Figura marcante, foi biografada no livro “Canô Velloso, lembranças do saber viver”, escrito pelo historiador Antonio Guerreiro de Freitas









“... Quando eu te encarei
Frente a frente
Não vi o meu rosto
Chamei de mau gosto o que vi
de mau gosto o mau gosto
É que Narciso acha feio
o que não é espelho ...”
Muitas vezes , discuti este texto com meus alunos para tratar da questão do preconceito.
Grande Caetano, orgulho justo de Santo Amaro.


segunda-feira, novembro 19, 2012

"...Bahia que não me sai do pensamento..."





















Sou compulsiva em aprofundar o conhecimento dos estados por onde transito. Quero conhecer todas as cidades; visitar todos os lugares históricos; entender toda a geografia; compreender, ao menos em parte, a cultura de cada local. Morei sete anos na Bahia. Quando aqui cheguei, conhecia bem apenas Salvador.  Fiz logo projetos para conhecer todo o estado. Comecei pelo Recôncavo Baiano.






















Denomina-se Recôncavo Baiano a área que se localiza em torno da Bahia de Todos os Santos e onde estão, entre  outras, as cidades de que tanto gosto: Cachoeira, São Félix, Sâo Francisco do Conde e Itaparica. Anualmente, venho à Bahia, quando aproveito para rever pessoas amadas e lugares preferidos. Desta vez, logo que cheguei a Salvador , fiz um passeio ao Recôncavo,começando por Cachoeira, distante 120 km de Salvador.





















A histórica Cachoeira - referência de baianidade - merece uma visita, não só pela presença do barroco na arquitetura, pois reúne o segundo maior conjunto arquitetônico desse estilo na Bahia ,como também pela  religiosidade, culinária e  produção artística. Com maioria de afrodescendentes na sua população, faz  síntese de  catolicismo e candomblé nos seus rituais. A Irmandade da Boa Morte atrai visitantes nacionais e estrangeiros, numa das maiores festas anuais do interior baiano.






















Formada por mulheres negras, com mais de 50 anos de idade, todas descendentes de escravos, a Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte,  é uma confraria  que existe há quase 200 anos. Tem, entre seus rituais, a   procissão anual pelas ruas da cidade, seguida de missa pela alma das irmãs que já morreram, missa de corpo presente com a imagem de Nossa Senhora, procissão de enterro ,  missa de Assunção e a procissão festiva, que encerra essas festividades.






















É interessante o simbolismo do vestuário das irmãs, na Festa da Boa Morte. Roupa totalmente branca é sinal de estão de luto; roupas nas cores vermelha, preta e branca representam a alegria com a assunção de Maria. Usam muitos adereços em ouro, prata ou pérolas. Internacionalmente conhecida, essa festa reúne cerca de 20  mil pessoas todos os anos, entre adeptos do candomblé, estudiosos da cultura africana africana  e jornalistas do Brasil e do exterior.
























Lugar de muito  verde, muitas frutas e legumes, Cachoeira tem  culinária rica, com influências do sertão baiano e das tradições africanas . Não perdi a oportunidade de comer um delicioso acarajé na feira municipal de sábado, dia em que fomos lá. Feijoada, maniçoba, caruru, vatapá, acarajé, abará e  diversos tipos de moquecas são parte do cardápio cachoeirense.
























Maniçoba é um prato tradicional, de origem indígena, feito com folhas de mandioca. Durante o preparo, é preciso triturar e cozinhar, por um longo tempo, a folha de mandioca para a extração do ácido cianídrico, veneno natural presente na planta. Acrescenta-se às folhas alho,sal, folhas de louro, pimenta, linguiças  e carnes salgadas e carnes defumadas. Diz-se que tem poder afrodisíaco.É servida  acompanhada de  arroz, farinha de mandioca e pimenta - só experimentei uma vez!























Cachoeira lembra lugares históricos de Salvador, como o Pelourinho. Lembra também fatos importantes da história do Brasil, como a Independência, pois aqui surgiram as primeiras mobilizações contra o domínio português e a favor da proclamação de Dom Pedro  I como regente. Já Dom Pedro II visitou a cidade e determinou a construção da ponte rodoferroviária , usada até hoje, ligando Cachoeira a São Felix e a outros municípios do Recôncavo baiano. Essa ponte é um dos cartões postais da cidade.
























Gosto de ir a Cachoeira. O rio Paraguaçu, que a separa de São Felix, inspira paz e enriquece outra das belas áreas  da cidade. As galerias mostram trabalhos de bons artesãos locais. As igrejas e os prédios históricos são realmente bonitos, embora careçam alguns de restaurações e limpeza. Há uma atmosfera de história e religiosidade que impressiona. Doce e forte Cachoeira!
"Só lamento o não ser criança, para que pudesse crer nos meus sonhos." Fernando Pessoa