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quarta-feira, junho 02, 2010

Comidinhas Chinesas III





















O banquete é uma tradição chinesa. Não é comida do dia-a-dia; é para ocasiões especiais. Eu não pensava em participar de um. Apesar disso, li sobre ele e sobre a etiqueta para esse evento. Gosto de estar preparada para possíveis boas eventualidades. Jim, filho de Ronald, ensina inglês para dois meninos, filhos únicos de dois senhores, irmãos, homens de negócios vinculados à construção, em Shanghai. Os meninos , 18 e 12 anos, educados e encantadores, preparam-se para estudar nos Estados Unidos – o mais velho inicia, ainda este ano, o curso universitário em Atlanta. Foram esses senhores que nos ofereceram o banquete.
























Bons restaurantes têm salas separadas, próprias para banquetes. Fomos, então, ao terceiro andar, para uma sala em que havia uma mesa redonda, com centro de vidro, giratório, e acomodação para todos nós . Éramos oito pessoas; mulher, só eu. Para cada pessoa, um pequeno prato e um potinho de apoio.
O anfitrião, em pé, indica , para cada pessoa, seu lugar à mesa. Sentam-se e ele faz o brinde inicial. Serviram uma bebida fortíssima, que eu só experimentei no primeiro brinde. Logo depois, pediram uma bebida , à base de coco, supergostosa e sem álcool, para os meninos e para mim. Os meninos, já falando inglês, e Jim, falando mandarim, foram os intérpretes.






















Banquetes, bem como eu havia lido, são muito barulhentos. As pessoas riem alto, conversam animadamente, informam sobre as comidas maravilhosas que estão sendo servidas. Fiquei sabendo, assim, que a comida era toda orgânica, cuidadosa e longamente preparada e que a sopa era uma raridade. Perguntaram-se se eu usaria os palitos ( aqueles pauzinhos longos que eu não lembro o nome) ou se precisariam pedir uma colher para mim. Corajosamente respondi que comeria com palitos. Fui entusiasticamente aplaudida ( aplaudida mesmo!) e dei motivo para um novo brinde. Não me saí mal. Como dizia minha mãe, “a dor ensina a gemer”. Em restaurante chinês, eu costumava pedir talheres.
























O banquete todo teve dezoito iguarias! Inicialmente, trouxeram oito entradas. Havia também um caldo com trouxinhas recheadas com ovo de passarinho. Passei essa! Concentrei-me nos vegetais. Comi deliciosos rolinhos primavera, recheados com uma verdura amarga que não consegui identificar. Comi pedacinhos de carne de porco agridoce e pedacinhos de carne de frango com um molho divino. Língua de pato, deixei passar. Nata de soja, uma delícia. Experimentei quase tudo. É a regra.























Não havia talheres para servir : cada pessoa espetava o pedacinho que ia direto à boca. A seguir, novos pratos, porções maiores com muitos molhos e pão aquecido. Depois vem, para o centro do centro da mesa, uma carpa do rio Amarelo - com um molho que não identifiquei - prato importante no banquete, que insistiram para que eu experimentasse. Estava bom. Continuavam os brindes e a alegria total. O último prato foi a sopa. Interessante isso da sopa ser o última prato. Para tomá-la, colheres chinesas de cerâmica. Experimentei. Novo brinde. Finalização. Sobremesa não é usual na China. Logo, quando o anfitrião se levanta, é porque o banquete terminou - durou mais de duas horas.























Eu havia lido que nunca se come até o fim o que se põe no pratinho e ou no pote. Se comer tudo, pode parecer que a comida não foi suficiente. Precisa-se evidenciar que se comeu até ...não poder mais , como se diz na minha região. Sai do banquete encantada com a oportunidade e a experiência que havia tido; encantada com a gentileza e a alegria dos chineses e encantada com Jim, que me havia assessorado o tempo todo.






















PS. Estive pensando, dias depois, na aproximação de alguns itens culturais mesmo de culturas tão diferentes. Minha mãe, com acentuada cultura rural, ensinava-nos a jamais “limpar o prato, como se vivesse com fome ou raspar uma panela, como se faltasse comida”, isso principalmente quando havia visitas ou na presença de estranhos. Era conveniente, portanto, deixar uma sobrinha no prato. Similar à China!



terça-feira, junho 01, 2010

Comidinhas Chinesas II




















Li que os hábitos alimentares dos antigos chineses só ficaram conhecidos por volta de 1500 a.C. quando começaram os registros escritos. Eles criavam porcos e cultivavam grãos: trigo, painço, cevada e arroz. Perto de 1100 a,C. foi acrescentada a soja à dieta chinesa. Depois disso vem o molho de soja e o Tofu , que têm seu lugar de destaque até hoje.A comida de Pequim foi a que mais me agradou. Eu saboreava o pato, que é servido envolto por uma panqueca - geralmente cozida no vapor - com molho e com pedaços de cebolinha e pepinos. Vinha , no acompanhamento, patê de fígado de pato e, no final, sopa de pato. A sopa é o prato servido por último.
























Em todos os lugares onde andei, comi raviólis. Os raviólis têm o formato do que têm dentro – se foram recheados com patos, terão o formato de pato, se forem recheados com abóbora, terão o formato de abóbora. Dizem que os pratos de ravióli são os que mais mostram as habilidades das mulheres, especialmente no Ano Novo Chinês.A cozinha vegetariana me deixava mais à vontade – eu comia muito folhas cozidas, vagem e batata. Evitava até olhar muito para pratos considerados deliciosos, nutritivos e até medicinais, como pés de galinha, sangue de pato, intestino de aves, passarinhos fritos inteiros e testículos de boi – que , acreditam, estimula e revigora a potência sexual. Em alguns restaurantes, a pessoa é convidada a ir a tanques escolher "seu jantar", que está ali tranquilamente!























Observei que se usam muitas plantas aromáticas e uma variedade grande de molhos, como molho de ostras, molho de soja e alho , molho de limão, molho de cogumelos. O molho de que mais gostei foi soja, alho e gengibre – supergostoso. Encontrei frutos do mar, carne de porco, carne de galinha e rolinhos primavera em todos os restaurantes em que estive – e no café da manhã de todos os hotéis.























A tradição culinária mais conhecida é a do Cantão. São as comidas mais famosas! São cuidadosos no equilíbrio de yin e yang, milenar filosofia que evidencia a relação de contrastes e dualidades da natureza, aplicadas tanto na alimentação quanto nas questões espirituais. Procura equilibrar yin – suave,frio,escuro e feminino – com yang – forte, quente,claro e masculino. Assim, cachorro – alimento quente – é comido no inverno; sepente, no verão. Penso só voltar lá, na primavera!






















Os cantoneses comem muitos animais. Dizem que, de tudo o que corre, eles só não comem carro e caminhão; de tudo o que voa, só não comem avião e de tudo o que anda na água , só não comem navio. Mas ninguém precisa ter medo. Toda a comida, em restaurante internacional principalmente, é muito bem identificada. É só não confundir a pronúncia do garçom quando se trata de duck e dog.

sexta-feira, maio 28, 2010

Comidinhas chinesas I



Bebida com serpente!
Meu primeiro contato com as "comidinhas" chinesas foi no café da manhã , no hotel, em Beijing. Sem exagero, uma dúzia ou mais de panelas faziam parte do buffet. Não era comidinha , era comilançaLembrei -me do Gugu, com quatro anos, respondendo à pergunta por que não almoçara: "É muito boa a comidinha da mamãezinha. Só não comi porque não gosto!"Havia uma variedade de sopas tradicionais chinesas. Muito boas. Só não comi porque não gosto!Havia também uma grande panela de arroz - aquele arroz que a gente frita ovos, na manteiga, até que a gema fique bem cozida. Depois, esmaga-o com um garfo e agrega ao arroz que já deve estar quase pronto. Acrescenta - ou não- cebolinha verde bem picada. Esse, eu encarei.


Pés de Galinha em abundância

Espagueti também não faltava - com molho de soja, é claro. Muitos e diferentes vegetais cozidos - minha salvação! Excelente a acelga ( talvez aquela que nós chamamos de couve chinesa), cozidas, com as folhas inteiras e os longos talos). Pães tradicionais, rolinhos primavera e tudo o mais que se pode esperar de um supercafé internacional, estavam lá.Para o almoço, levavam-nos a restaurantes com buffet. Ali havia comidas chinesas e também ocidentais. Nenhum problema. Também o jantar era tranquilo porque feito nos restaurantes internacionais dos hotéis. Como sobremesa, muitas frutas - já escrevi que são deliciosas e variadas.



Pato Laqueado
O famoso "Pato Laqueado de Pequim" eu o experimentei, pela primeira vez, num jantar. Vinha num prato bonito, com formato de pato! É fantástico, saboroso e perfumado porque cozido no fogo com lenhas especiais.Muito trabalhoso de ser feito e , por isso mesmo, muito caro. Convidaram-me para comer uma serpente. Serpente de verdade...metaforicamente , já comi algumas! Escolhe-se a serpente viva. Depois, ela tem a cabeça cortada. Num cálice chiquésimo, onde tem álcool de arroz, o sangue dela é escorrido. A pedido, pode ser aberta e ter a vesícula biliar arrancada, e o sumo, adicionado ao cálice. Fica forte e supergostoso. Misturam-se bem esses ingrediantes, que é bebido ruidosamente pelo grupo - sim! grupo, porque serpente custa caro, dizia-me uma menina, e os jovens chineses costumam ir com amigos para comer essa delícia, que só é pesada depois de morta e , então, tem seu preço calculado. 


Saborosa mistura de grãos
                                                                                                       
Ofereceram-me também um licor de serpente - afrodisíaco dizem- onde a própria estava imersa! Minha curiosidade não chega a tanto. Declinei!
PS. No próximo texto, escreverei sobre as diferenças, na cultura alimentar, conforme a região e sobre a minha experiência, participando de um autêntico banquete chinês.
Adianto , apenas, que se costuma dizer que os cantoneses " de tudo o que tem quatro pernas, eles só não comem mesa e cadeira."