sexta-feira, novembro 02, 2012

Santiago: fotos e comentários breves




















Muito interessante o Centro Cultural Palacio de La Moneda, na Praça da Cidadania. São três andares subterrâneos, com exposições , cinema  e artes visuais. É um bom lugar para se ter informações sobre o que acontece na cidade. Visita obrigatória também por seus arredores.






















Em Santiago, encontra-se variado artesanato de todas as partes do Chile, mesmo das mais distantes, como a  Patagônia , o  Atacama e a Ilha de Chiloé. Há peças belíssimas em couro, metal, pedras e lã . As cerâmicas têm cores e desenhos delicados. Um bom endereço é o Centro Artesanal Los Domenicos.























As peças que me foram mais difíceis resistir foram as de cobre com lapizlasuli, uma bonita pedra azul-marinho, só encontrada no Chile e no Afeganistão. As mais bonitas que vi,  podem ser encontradas em www.tromilen.ch























A Universidade do Chile , que está completando 170 anos, tem prédios e espaços que merecem ser vistos.Com muitas carreiras consolidadas, a Universidade investe, continuamente, em pesquisa e pós-graduação.























À semelhança da Europa, pode-se ouvir boa música nas ruas do centro da cidade. Escutei Vivaldi, magnificamente apresentado por estas três moças. Música de parar e ouvir, sem vontade de ir adiante.























Além da imponência dos prédios históricos, Santiago mostra arrojada arquitetura, moderna e criativa, como este grande edifício  inspirado no design de um celular. Aqui , está instalada a Companhia telefônica do Chile - é óbvio.





















O Cerro San Cristóbal , com seus 800 metros de altitude e densa vegetação, emerge no meio de Santiago e dominas a cena dessa cosmopolita cidade. Ao seu redor, vê-se uma cidade palpitante, que cresce e surpreende pela arquitetura adotada.






















O Cerro de Santa Lucia está localizado bem no centro da cidade, perto da Biblioteca Nacional. Com 70 metros de altura, oferece linda vista da cidade e dos Andes. Na base do morro, vê-se uma grande pedra com a gravação de uma carta enviada por Pedro de Valdívia ao rei espanhol Carlos V, descrevendo as belezas da nova terra conquistada pela Espanha. Há muito verde, muitas flores e muitas esculturas em Santa Lucia. A seus pés. foi fundado Santiago.






















O transporte público local é bastante eficiente . O Metrô , que corta a cidade e nos afasta de um trânsito difícil, tem estações muito bonitas, limpas e bem cuidadas, valorizadas por muitas obras de arte.Inaugurado em 1975, abrange cinco linhas e oitenta  e cinco estações. É rápido e seguro. Parece, no entanto, que sua capacidade já está sendo ultrapassada - cheíssimos mesmo em horários que não são de pico.





















Admirável a limpeza da cidade de Santiago. Penso que é a capital mais limpa e cuidada da América do Sul. No centro, há calçadões, bastante movimentados, como o Paseo Ahumada e o Huérfanos, que são  lavados diariamente por equipamentos como este.





















Santiago é uma cidade muito bem sinalizada. As placas são padronizadas e, em todas elas, pode-se ver o nome da rua , a numeração da quadra e a direção de cada uma. Estão localizadas em postes , junto às esquinas, seguindo sempre o mesmo padrão de orientação - o que facilita muito a mobilidade dos  turistas .






















É uma graça esse bonequinho nas sinaleiras cronometradas da cidade. Ele aumenta a velocidade da sua corrida à medida que o sinal se aproxima do momento de fechar.




























Na Praça das Armas, está localizada a Catedral de Santiago. Em estilo barroco, imponente e suntuosa, sofreu , ao longo de sua existência, várias reconstruções e reformas, por conta de incêndios e terremotos que a danificaram. Foi erguida no espaço de uma  outra igreja, que havia sido  construída no século 16. Dentro dela, está o candelabro que iluminou a primeira sessão do Congresso, após a independência do Chile. Impressionante a grandiosidade do altar dessa catedral.




























A Igreja de San Francisco, toda construída com adobe, é um dos monumentos mais antigos do Chile, já que data de 1618. De cor avermelhada e de comovente beleza, torna-se uma visita obrigatória, que pode ser alcançada por Metrô, descendo na Estação Universidad de Chile. Adobe é aquele tijolo grande, feito com barro e palha, em geral , palha de trigo.




























Santiago , fundada em 12 de fevereiro de 1541, é capital de um país onde a maioria de seus habitantes consideram-se católicos praticantes e onde a igreja católica teve, historicamente,  grande influência. Em razão disso, o divórcio só foi aprovado em 2004, sendo o Chile um dos últimos países que considerava o casamento como vínculo indissolúvel.




























Vi , em Santiago, lojas com interessante comércio de roupas para trabalhadores. Eram uniformes para todos os gostos, tamanhos e especificidade de profissões - de babás a motoristas. Não me surpreendeu por tratar-se de um país onde os escolares, de diferentes níveis, andam impecavelmente uniformizados, até com gravata azul-marinho.




























O Museo Colonial San Francisco , cuja entrada para senior tem 50% de desconto, tem , em seu acervo, importante coleção de pinturas do período colonial  e de painéis que mostram a vida de São Francisco de Assis e a genealogia e  história da Ordem Franciscana. Pode-se caminhar pelos jardins que circundam o museu e observar a parte externa do belo edifício que o abriga.Faltou-me tempo para visitar outros museus muito interessantes, como o Museo de La Solidariedad Salvador Allende e o Museo de la Memoria y los Derechos Humanos - bom motivo para retornar.




























Com entrada pela ponte Pedro de Vadivia, o Parque das Esculturas , à margem norte do rio Mapocho, exibe esculturas de artistas chilenos, expostas a céu aberto, tem uma sala de exposições com mostras permanentes e transitórias e , em seus gramados e jardins, recebe a população de pessoas que perto dali estudam e trabalham. Lugar bem agradável de visitar.






















Santiago tem 7 milhões de habitantes - o Chile todo tem 17 milhões. Já pela limpeza e organização  das cidade, já pela boa educação que se percebe nos chilenos, pode-se intuir que os problemas internos estão sendo enfrentados, com possibilidade de melhora. O Chile me passa uma imagem de seriedade, de polidez, de trabalho - meio caminho para um projeto de bem-estar social.

quarta-feira, outubro 24, 2012

Chile: revendo Santiago

Prédio dos Correios





















Há 41 anos, minha amiga Gladys Almeida Schlüter e eu estivemos alguns dias em Santiago, depois de atravessar, de carro, pela primeira vez, a Cordilheira dos Andes. Inesquecível essa viagem, entre outros motivos,  porque eu estava com três meses de gravidez e precisei de repouso logo na chegada. Um susto! Conseguimos, mesmo assim, fazer todos os tradicionais  passeios pela capital chilena . Lembro-me bem de ter levado daqui roupas lindas - todas branquinhas -  para o bebê , cujo sexo, até então, só se ficava sabendo quando a criança nascia.



Desde o Cerro Santa Lucia




















Lembro-me bem da minha primeira imagem da Cordilheira : parecida com essas montanhas de papel amassado e multicolorido , que se faz em presépios de Natal. Indescritível beleza. ( A foto ao lado foi feita hoje, no alto do Cerro Santa Lucia. Apesar da visibilidade não estar boa, pode-se ver , ao fundo, a mesma Cordilheira que tanto me encantou em todas as vezes em que aqui estive.)



Praça de Armas








































Retornei, ao longo desse tempo, só mais duas vezes ao Chile, sendo esta, portanto, minha quarta viagem a este país que surpreende e encanta, mas não é frequente em nossas agendas de viagem. Realmente deveríamos vir ao Chile com mais frequência e andarilhar por seus 4.700 km de extensão com largura média de 180 km, chegando, no trecho mais estreito, a 70 km de leste a oeste.  Todo o seu território é três vezes o estado de São Paulo, mas tem uma diversidade muito acentuada: o norte, com  deserto; o centro, com grandes cidades e o sul, com muito gelo. As geleiras da Patagônia alcançam 12 mil anos. A quantidade de vulcões chega perto de  3 mil - e alguns ainda mostram sua força e podem nos assustar. 



La Moneda





















A história chilena, tanto remota quanto recente, tem muitos pontos de contato conosco e, com certeza, por isso  nos emociona tanto. Como exemplo, basta relembrar os confrontos entre  hispânicos e indígenas e , bem mais tarde, entre conservadores e socialistas, que resultaram  no suicídio do presidente Salvador Allende e no golpe militar que fez presidente a Augusto Pinochet.



Museu de Arte Colonial de San Francisco





















Os chilenos são elegantes,  gentis e educados; a comida é muito boa,  e o vinho dispensa comentários. Falam um espanhol agradável de ouvir, mas, algumas vezes, difícil de entender pelos palavras diferentes das usadas no espanhol rio-platense, que é bem mais nosso conhecido. Com uma maravilhosa família chilena, que encontrei no Egito, aprendi a expressão al tiro, que estou usando com frequência...al tiro! Rapidamente.



Detalhe da Catedral de Santiago








































Santiago, a capital, cortada pelo rio Mapocho , é uma cidade agradável e com muito o que ver, a começar pela Cordilheira dos Andes - avistada quando a poluição permite. Com mais de 7 milhões de habitantes, cadeias famosas de hotéis, históricas igrejas, excelentes restaurantes, um belo artesanato,  muitas livrarias, galerias de arte e museus, arquitetura fantástica, transporte público de boa qualidade, pista de esqui a 40 km e vinícolas ainda mais perto, é preciso ainda mais? Se for preciso mais, pensem em Neruda, Gabriela Mistral, Violeta Parra  e nas  atrações que podem ser vistas em dois ou três dias - acredito, entretanto , que bom mesmo era estar durante alguns meses aqui e poder percorrer todo o país. Eu realmente gostaria de morar um pouco por aqui.




Centro Cultural da Palacio de La Moneda





















Ainda tenho muito o que escrever sobre Santiago, mas é tarde.  Estou com sono. Iremos para o aeroporto às 05horas. Em San Pedro de Atacama, escreverei mais. Vou dormir, cantarolando:

"Gracias a la vida que me ha dado tanto.
Me dio dos luceros que, cuando los abro,
perfecto distingo lo negro del blanco,
y en el alto cielo su fondo estrellado,
y en las multitudes el hombre que yo amo.











































Gracias a la vida que me ha dado tanto.
Me ha dado el oído que, en todo su ancho,
graba noche y día grillos y canarios,
martillos, turbinas, ladridos, chubascos,
y la voz tan tierna de mi bien amado.
................................................................
Gracias a la vida que me ha dado tanto.
Me ha dado la risa y me ha dado el llanto.
Así yo distingo dicha de quebranto,
los dos materiales que forman mi canto
y el canto de ustedes que es el mismo canto,
y el canto de todos, que es mi propio canto."



terça-feira, outubro 16, 2012

" Andar,andar, andei..."



Tudo pronto!
envelope com documentos;
uma só mala para mim e para Ronald;
mochila com poucas coisas e ....
lá vamos nós.
Primeira parada, Santiago, a bonita capital chilena;
depois,  Deserto de Atacama - primeira vez que o visito ;
por último,  Buenos Aires das minhas muitas recordações.
Agradeço ao Cosmos minha paixão por viajar - se existe a paixão,
sempre se dá um jeito de ir.

"Bendito seja o mesmo sol de outras terras
Que faz meus irmãos todos os homens
Porque todos os homens, um momento no dia, o olham como eu..."

Fernando Pessoa

sábado, outubro 06, 2012

Vamos a Rivera?



















A pergunta-título é frequente em conversas dos moradores da fronteira do Rio Grande do Sul. O Uruguai é realmente um país-irmão ou um vizinho-amigo. Nele, compravam-se as roupas de inverno para toda a família e muitos apetrechos , incluindo o tradicional poncho azul, para todos os gaúchos do campo. Com o surgimento dos free shops, o fluxo de compradores aumentou e diversificou-se. Já não se compram unicamente botas; compram-se tênis de grifes internacionais. Compram-se queijos , doce de leite, bebidas, enlatados, roupas, perfumes e muchas cositas más. De viagra a chocolate suiço.





















Nem importa  tanto a cotação do dólar. Importa a parrillada, a sonoridade da língua espanhola, os amigos de muitas cidades que  encontramos lá, principalmente nos sábados ou nos feriados nacionais daqui. Importa o agradável passeio que se pode fazer. Sinto-me, realmente, indo para o exterior, ainda que percorra pouco mais de 100 km para chegar a Rivera. Ontem , estive lá, porque fui a Livramento fazer outro passaporte.

                                                                                   



















A novidade da vez foi o Free Shop , cuja loja-âncora é a tradicional Sineriz. O shopping é grande, num local agradável, fora das ruas principais, com amplo estacionamento. Parece não estar ainda totalmente concluído. Algumas coisas , entretanto, são lamentáveis, com destaque para a escolha musical. O tempo todo em que lá estive, precisei suportar música brasileira sertaneja. O Brasil tem excelente produção musical - MPB boa não falta. Se preferem música regional, o RGS tem músicas de boa qualidade também. Fazer compras ouvindo sertanejo é desanimador. Não interessa se é sertanejo primário, secundário, universitário, as letras e a linha melódica dor-de-corno é deprimente. 




















O Uruguai não precisa disso. Nem nós. Já basta fazer compras nos supermercados da nossa região sendo agredida por música alta e de má qualidade. Gostaria de saber quem orienta os estabelecimentos comerciais nessas escolhas. É música para cortar os pulsos, não para comprar.
Observei também um certo descuido com os banheiros, que estão novos , mas não estão bem limpos - precisam de Bom Ar ou equivalente. Outro fato lamentável - externo, todavia, ao Shopping - é o descuido com as áreas de estacionamento. Vi embalagens plásticas  e  latinhas de refrigerante e de cerveja jogadas no chão. Muito feio isso.





















Coincidentemente, quando estávamos a caminho de Livramento, passou por nós um carro - um bom carro - com uma família de cinco pessoas. Surpresa, vi o homem jogar, pela janela,  uma garrafa plástica na estrada e , logo depois, a mulher jogar uma caixa de papelão. Senti pena das crianças com esse exemplo predatório, sem educação e sem consideração com o meio-ambiente. Depois, elogiamos a limpeza das ruas e das estradas de outros países - onde, certamente, são limpos porque ninguém lá faria uma grossura dessas. Triste mesmo, mas  fácil de melhorar, se cada um fizer a sua parte ou se houver política definida e aplicável para esses casos.


























Voltando ao shopping, lá tem mais o que ver, além da  ampla e diversificada Sineriz. A Ta-Ta , também tradicional loja uruguaia, está no mesmo prédio e é um misto de loja com supermercado, vendendo produtos de limpeza, pães, verduras, carnes e muito mais. O espaço destinado a  alimentação me pareceu bom. Os atendentes, gentis e disponíveis. Os preços, normais.Tomei um café com pasteizinhos, muito bem preparados, na cafeteria Punta Ballena, onde o pessoal  também se mostra eficiente e cortês.Voltarei, na próxima semana, a Livramento para buscar meu passaporte, na Polícia Federal.





















Não deixarei de ir, ainda que rapidamente, a Rivera. São pequenas viagens que se faz com grande alegria. Vale o movimento, o ir-e-vir , o aproveitar cada dia , pois:

"O próprio viver é morrer, 
porque não temos um dia a mais na nossa vida 
que não tenhamos, nisso, um dia a menos nela"
Fernando Pessoa



sexta-feira, setembro 28, 2012

" Foi o Vinte de Setembro..."


















Pela primeira vez, escrevo sobre uma festa em que não estive. Mas o Vinte de Setembro, em Alegrete/RS, é festa de todos os anos...e, em outros anos, já assisti a ela. Sei como é - uma belezura! E, em 2013,  prometo a mim mesma estar presente. Consiste, realmente, num dos maiores - até deve ser o maior - desfile de cavaleiros e amazonas que se faz em todo o mundo. E não estou contando grandeza!



















São mais de oito mil cavalos, encilhados e com gente em cima, que desfilam pela cidade, num longo percurso, sendo aplaudidos e fotografados por muitos. Bem... o cheiro que fica na cidade, embora diferente, é tão forte quanto o que fica na Bahia depois do carnaval. Pelas fotos, vi que continuam a desfilar muitos velhos gaúchos, a cada ano mais velhos ( estou me especializando em escrever óbvios) e crianças, que distribuem sorrisos e acenos do alto da passarela que as conduzem com segurança.



















Famílias inteiras desfilam, incluindo jovens criados na cidade  e sem vivência campesina. Bonito de ver a postura deles, tão  certos de que representam um Estado culturalmente muito forte. Desfilam também cenários e cenas do cotidiano rural antigo e/ou atual, como, por exemplo,  o carreteiro - não o arroz, mas o próprio que vai com a carreta , puxada a bois; o bolicho, com seu dono, o bolicheiro, vendendo rapaduras e  alguma bebida leve e branca; as prendas, moças bonitas e já não tão casadoiras como antigamente, mostrando suas roupas tradicionais delicadamente coloridas.




















Não desejo ideologizar essa festa - muito menos construir discursos sobre ela. Por mim , podem  maragatos e chimangos exibirem-se à vontade durante a  Semana Farroupilha, uma semanana de igualdade e fraternidade.  Melhor a confraternização, ainda que passageira,  do que o enfrentamento constante e agressivo. Sou bem brasileira. Gosto do meu País. Sou bem gaúcha. Gosto do meu Estado. Tenho forte identidade regional , principalmente no acento linguístico característico de fronteira e no gosto pelas atividades do campo.



 

















Acredito que as identidades regionais , com o passar dos anos, fortalecem-se, aprofundam-se, reforçam-se  e  modificam-se também. Importante que não se percam e que apareça o sentido de pertencimento e  que ele aflore, mesmo como resistência, neste mundo massificado, onde uma bruma  triste faz com que todos pareçam iguais, em meio a brutais diferenças.



Muito obrigada à familia Marcanth pelas cessão das fotos.



















Aqui, no Rio Grande do Sul, temos muito o que exibir e do que nos exibir : música, culinária, vestuário, paisagens, histórias e História.  E temos o Alegrete, tão particular e tão característico.   As coisas ruins do Estado...bem ...não é hora, nem dia, nem semana de falar sobre elas. Olhando as fotos postadas aqui, feitas por Vinicius Marcanth, filho da Fátima , que é filha do famoso fotógrafo Jorge Marcanth - uma família de gente que tem olhos para ver  e o faz com precisão e sensibilidade - sinto a mais difícil das saudades ,  a saudade da festa que não vi e dos momentos que não vivi e " nada do que for , será...."

domingo, setembro 23, 2012

Para pessoas...Pessoa

Jacus na Bela União
"Antes o vôo da ave, que passa e não deixa rasto,
Que a passagem do animal, que fica lembrada no chão.
A ave passa e esquece, e assim deve ser.
O animal, onde já não está e por isso de nada serve,
Mostra que já esteve, o que não serve para nada.
A recordação é uma traição à Natureza,
Porque a Natureza de ontem não é Natureza.
O que foi não é nada, e lembrar é não ver.
Passa, ave, passa, e ensina-me a passar!"
Fernando Pessoa

quarta-feira, setembro 19, 2012

"Andar,andar,andei "




O retorno dos Estados Unidos foi longo, demorado, cansativo. Carro,ônibus,avião,carro. Paxton/Champaign/Chicago/Atlanta/Brasília/Porto Alegre/ Bela União. Muito tempo fora, muita bagagem,cansaço total. Sílvio Etchepare, nosso querido e solidário amigo, esperou-nos no aeroporto e , com ele, fizemos a última e mais difícil parte da viagem - cinco horas do aeroporto à fronteira com Alegrete. Encontrar meu irmão e meu sobrinho Cléber, desfazer malas, entregar presentes,  separar e ordenar roupas e objetos, contar e ouvir novidades...foi tudo de bom! A próxima viagem já está delineada: Deserto de Atacama. Sem perda de tempo, pois pode faltar tempo de vida.



"Partir!
Nunca voltarei.
Nunca voltarei porque nunca se volta.
O lugar a que se volta é sempre outro,
A gare a que se volta é outra.
Já não está a mesma gente, nem a mesma luz, nem a mesma filosofia."
Fernando Pessoa

segunda-feira, setembro 17, 2012

Cahokia : A Cidade do Sol



Minha imagem de Illinois estava presa à imagem dos campos planos e das grandes lavouras de milho e soja, que , diariamente, vejo nas proximidades de Paxton. Viajar para o Sul desse estado - depois de parar no outlet de Tascola para comprinhas dos indispensáveis supérfluos - fez-me descobrir , ao longo do rio Mississippi, campos diferentes, com florestas e colinas, que propiciaram nuances históricas também  diferentes daquelas com as quais eu mais convivo.


                                                                         


Esse desenho dos campos, com lugares de estratégica visão e com possibilidade de monitorar o movimento dos rios Mississippi e Missouri ,  atraiu inicialmente os índios e, posteriormente, comerciantes e missionários franceses. Os índios, é óbvio, vieram bem antes e deixaram as marcas que nos levaram à visita feita ao Cahokia Mounds State Historic and World Heritage Site, a 145 km ao sudoeste de Springfield, onde estão os vestígios do maior assentamento pré - histórico indígena norte-americano, ao norte do México : a Cidade do Sol.























O GPS nos orienta direto para o museu, que, na verdade, não é museu, é um bonito Centro Interpretativo do sítio arqueológico de Cahokia ( foto 1), sítio reconhecido pela UNESCO como Patrimônio da Humanidade. Mapas, desenhos, figuras, reprodução de casas, cerâmicas e documentários em vídeo mostram, além de informações dos primitivos habitantes  descobertas no local, as etapas do  trabalho  realizado , ao longo de vários anos, por dedicados arqueólogos.



 



















O sítio possui mais de uma centena de montículos feitos de terra e madeira que , no conjunto, mostram a organização das pessoas que nele viveram seu apogeu, no período compreendido entre 1050 e 1250.A distribuição deles indicava ,ainda, um calendário solar, que demarcava as estações.O Monks Mound ( foto 3) , que cobre 6 ha e atinge a uma altura de até 30 metros, tem o topo achatado, onde se pode chegar , subindo por escadas, e de onde se tem fabulosa visão panorâmica dos vales próximos e dos arco de St.Louis (MO).























Cahokia Mounds State Historic Site é a afirmação mais abrangente das civilizações pré-colombianas na região do rio  Mississippi. É um exemplo de estruturação pré-urbana ,  uma oportunidade de estudar, através da distribuição dos Mounds, um tipo de organização político-social e econômica , não explícito em fontes escritas.






















É interessante observar que a base econômica dessas comunidades era a cultura do milho - muito importante, até hoje, para o estado de Illinois. " O sítio arqueológico de Cahokia, assim chamado por uma subtribo da Illini que ocuparam a área quando os franceses chegaram, serve como um ponto de referência para o estudo das civilizações pré-colombianas na área do Mississippi de aproximadamente 900 a 1600....























...Dentro da vasta zona de planícies e planaltos a ocupação da terra e do desenvolvimento da população sofreu uma evolução original durante a última fase da pré-história, uma vez caracterizada por avanços agrícolas e por um sistema social que favoreceu a concentração urbana....


 


















......Antropólogos estimam uma população sedentária de uma média de 10 mil habitantes, cuja organização social e profissional, estilo de vida e ritos funerários foram trazidos à luz por uma série de escavações". Embora muitas informações tenham sido obtidas, permanece, como mistério, o motivo que levou ao desaparecimento dessa população.






















No Centro Interpretativo, vídeos são constantemente exibidos. Tours são organizados para escolas e para grupos de visitantes. Há um espaço para venda de artesanato indígena e jóias com inspiração na cultura nativa,  variedade de souvenirs e  livros, em 13 línguas, incluindo Braille. Cahokia Mounds está localizado em Collinsville, Illinois, nas estradas Interstates 55/70 e 255, há quinze minutos do lado leste de St. Louis, Missouri. Informações podem ser obtidas em www.cahokiamounds.com

terça-feira, setembro 11, 2012

De Pessoa para pessoas





"Considero a vida uma estalagem onde tenho que me demorar até que chegue a diligência do
abismo. 
Não sei onde me levará, porque não sei nada. 
Poderia considerar esta estalagem uma
prisão, porque estou compelido a aguardar nela;
poderia considerá-la um lugar de sociáveis,
porque aqui me encontro com outros. 
Não sou, porém, nem impaciente nem comum.



                    


Deixo ao que são os que se fecham no quarto, deitados moles na cama onde esperam sem sono; deixo ao que fazem os que conversam nas salas, de onde as músicas e as vozes chegam cómodas até mim. 
Sento-me à porta e embebo meus olhos e ouvidos nas cores e nos sons da paisagem, e
canto lento, para mim só, vagos cantos que componho enquanto espero.




Para todos nós descerá a noite e chegará a diligência.
Gozo a brisa que me dão e a alma que
me deram para gozá-la, e não interrogo mais nem procuro.

Se o que deixar escrito no livro
dos viajantes puder, relido um dia por outros, entretê-los também na passagem, será bem. 

Se não o lerem, nem se entretiverem, será bem também."

Fernando Pessoa

segunda-feira, setembro 03, 2012

Pequenas Viagens, grandes conhecimentos!

Antiga Casa de Governo em Vandalia























Mover-se no mundo não implica apenas grandes viagens. Implica mover-se até onde é possível, considerando todas as interferências e dificuldades de tempo, gosto e dinheiro. Mover-me , para mim, é vital. Quando morava  em Alegrete, era uma festa ir a Quaraí, São Francisco, Uruguaiana e todas as demais cidades dos arredores. Ir a Artigas, Rivera e Paso de los Libres, então , tinha o sabor de uma viagem internacional. Morando em Santa Maria, organizei um programa para conhecer a região central - e gostava muito de subir a serra nos finais de semana.









































Trabalhando, durante um ano,  na UPF, amei visitar muitas cidades que eu não conhecia, como Serafina Correia e Selbach.  Nos seis anos em que fiz assessoria,  na SEC e na UFMS, em Campo Grande, ao programa de formação de professores-índios, tive dois fantásticos companheiros de andarilhagem - os  doutores Gilson Martins e Marina Vinhas. Conheci todo o MS, da Cabeceira do Pantanal às suas maiores e menores cidades.























Em Roraima, nem se fala! Nos dezessete anos em que viajei a trabalho para lá, conheci cada canto daquele maravilhoso Estado, desde quando era Território. Em Rondônia, fiz maravilhosas viagens de barco pelos rios Madeira e Marmoré. Inesquecíveis. Também visitei muitas cidades lá, nos intervalos das aulas de cursos em que atuei. O mesmo aconteceu com muitos outros Estados. Morar  na Bahia foi, então,  uma bênção especial. Deixei lá amigos, afilhados e meu filho caçula. Trouxe saudade e muito conhecimento dessa parte do Brasil. Foram sete anos de venturas e aventuras.



Capitólio de Springfield




















Há vários países que conheço razoavelmente , como a Itália por exemplo. Quando eu queria demonstrar, aos próprios italianos, que a conhecia muito bem, dizia : conheço até Tolfa - levada pela minha amiga Lídia -  o que ocasionava surpresa ou  a pergunta: onde fica essa cidade? Tudo isso  é para contar que , nos Estados Unidos, também continuo fazendo listas de cidades que conheço ou que desejo conhecer. Tarefa difícil já que, só em Illinois, são 1174 cidades. Estou, entretanto, lutando para conhecê-lo bem, com a diversidade - geográfica, histórica e cultural - de cada estado, que mais parecem países dentro de um grande país.



Abraham Lincoln - Springfield




















Uma das minhas últimas andarilhagens foi a Vandalia, uma pacata e pequena cidade com um bonito passado histórico.  Em 1819, o Congresso doou terras para o novo estado de Illinois, destinadas à localização de sua capital. A área, bastante  arborizada,  da margem oeste do rio Kaskaskia foi  a escolhida, e muitos trabalhadores começaram logo a tarefa de construir ali  uma cidade.
Vandalia tornou-se a  capital de Illinois em 1820.




Naperville - Illinois




















Durante o governo do estado, no tempo em que esteve  localizado em Vandalia, os legisladores promulgaram um ambicioso programa de obras públicas e promoveram  o desenvolvimento econômico e cultural da região. Foi em Vandalia que Abraham Lincoln iniciou sua carreira como político e advogado. Mais tarde, por questões de poder político, a capital de Illinois foi transferida para Springfield, onde se encontra até hoje.








































Depois de cinco meses nos Estados Unidos, estou organizando minhas bagagens para partir. A primeira bagagem é pesada e carregada de afeto em forma de presentes. A segundo não pesa, mas é muito grande, carregada de informações, bonitas lembranças e tentativas de aprofundar a compreensão deste mundo diverso e complexo.



Ronald e Daniel, seu pai adotivo.



















Acredito, entretanto, que informações , conhecimentos e experiências pouco servem se não nos ajudam a ser gente melhor - gente boa mesmo, principalmente sem preconceito com pessoas ou povos.


"Não quero a noite
senão quando a aurora
A fez em ouro e azul se diluir.
O que a minha alma ignora
É isso que quero possuir."


Fernando Pessoa


Ronald e  sua irmã  Nina