segunda-feira, novembro 19, 2012

"...Bahia que não me sai do pensamento..."





















Sou compulsiva em aprofundar o conhecimento dos estados por onde transito. Quero conhecer todas as cidades; visitar todos os lugares históricos; entender toda a geografia; compreender, ao menos em parte, a cultura de cada local. Morei sete anos na Bahia. Quando aqui cheguei, conhecia bem apenas Salvador.  Fiz logo projetos para conhecer todo o estado. Comecei pelo Recôncavo Baiano.






















Denomina-se Recôncavo Baiano a área que se localiza em torno da Bahia de Todos os Santos e onde estão, entre  outras, as cidades de que tanto gosto: Cachoeira, São Félix, Sâo Francisco do Conde e Itaparica. Anualmente, venho à Bahia, quando aproveito para rever pessoas amadas e lugares preferidos. Desta vez, logo que cheguei a Salvador , fiz um passeio ao Recôncavo,começando por Cachoeira, distante 120 km de Salvador.





















A histórica Cachoeira - referência de baianidade - merece uma visita, não só pela presença do barroco na arquitetura, pois reúne o segundo maior conjunto arquitetônico desse estilo na Bahia ,como também pela  religiosidade, culinária e  produção artística. Com maioria de afrodescendentes na sua população, faz  síntese de  catolicismo e candomblé nos seus rituais. A Irmandade da Boa Morte atrai visitantes nacionais e estrangeiros, numa das maiores festas anuais do interior baiano.






















Formada por mulheres negras, com mais de 50 anos de idade, todas descendentes de escravos, a Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte,  é uma confraria  que existe há quase 200 anos. Tem, entre seus rituais, a   procissão anual pelas ruas da cidade, seguida de missa pela alma das irmãs que já morreram, missa de corpo presente com a imagem de Nossa Senhora, procissão de enterro ,  missa de Assunção e a procissão festiva, que encerra essas festividades.






















É interessante o simbolismo do vestuário das irmãs, na Festa da Boa Morte. Roupa totalmente branca é sinal de estão de luto; roupas nas cores vermelha, preta e branca representam a alegria com a assunção de Maria. Usam muitos adereços em ouro, prata ou pérolas. Internacionalmente conhecida, essa festa reúne cerca de 20  mil pessoas todos os anos, entre adeptos do candomblé, estudiosos da cultura africana africana  e jornalistas do Brasil e do exterior.
























Lugar de muito  verde, muitas frutas e legumes, Cachoeira tem  culinária rica, com influências do sertão baiano e das tradições africanas . Não perdi a oportunidade de comer um delicioso acarajé na feira municipal de sábado, dia em que fomos lá. Feijoada, maniçoba, caruru, vatapá, acarajé, abará e  diversos tipos de moquecas são parte do cardápio cachoeirense.
























Maniçoba é um prato tradicional, de origem indígena, feito com folhas de mandioca. Durante o preparo, é preciso triturar e cozinhar, por um longo tempo, a folha de mandioca para a extração do ácido cianídrico, veneno natural presente na planta. Acrescenta-se às folhas alho,sal, folhas de louro, pimenta, linguiças  e carnes salgadas e carnes defumadas. Diz-se que tem poder afrodisíaco.É servida  acompanhada de  arroz, farinha de mandioca e pimenta - só experimentei uma vez!























Cachoeira lembra lugares históricos de Salvador, como o Pelourinho. Lembra também fatos importantes da história do Brasil, como a Independência, pois aqui surgiram as primeiras mobilizações contra o domínio português e a favor da proclamação de Dom Pedro  I como regente. Já Dom Pedro II visitou a cidade e determinou a construção da ponte rodoferroviária , usada até hoje, ligando Cachoeira a São Felix e a outros municípios do Recôncavo baiano. Essa ponte é um dos cartões postais da cidade.
























Gosto de ir a Cachoeira. O rio Paraguaçu, que a separa de São Felix, inspira paz e enriquece outra das belas áreas  da cidade. As galerias mostram trabalhos de bons artesãos locais. As igrejas e os prédios históricos são realmente bonitos, embora careçam alguns de restaurações e limpeza. Há uma atmosfera de história e religiosidade que impressiona. Doce e forte Cachoeira!
"Só lamento o não ser criança, para que pudesse crer nos meus sonhos." Fernando Pessoa