sábado, maio 19, 2018

Sobre cansaço e portas fechadas: Fotos feitas em Zamora e texto de Fernando Pessoa




" Lo que hay em mí es,sobre todo, cansancio -
no de esto ni de aquello,
ni siquiera de todo o de nada:






cansancio em si mismo, él mismo
cansancio.







La sutileza de las sensaciones inútiles,
las pasiones violentas por ninguna cosa,
los amores intensos por lo supuesto en alguien
esas cosas todas:







- esas y lo que falta en ellas eternamente -;
todo eso me trae un cansancio,
este cansancio,
cansancio.






Hay, sin duda, quien ame lo infinito,
hay, sin duda, quien desee lo imposible,
hai, sin duda, quien no quiere nada  - 
tres clases de idealistas, y yo no pertenezco a ninguna:







porque yo amo infinitamente lo finito,
porque yo deseo imposiblemente lo posible,
porque yo lo quiero todo, o un poco más, si puede ser,
o hasta si no puede ser...






Y el resultado?
Para ellos la vida vivida o soñada,
para ellos el sueño soñado o vivido,
para ellos la media entre todo y nada, esto es, esto...






Para mí solo un grande, un profundo,
y, ah con qué fecidad infecundo, cansancio,
un supremísimo cansancio,
ísimo, ísimo, ísimo,
cansancio."

Fernando Pessoa


                                                     
            Que o  fim de semana seja aconchegante, e o respeito pelo outro seja constante. Beijos

sexta-feira, maio 18, 2018

A Românica Zamora de Castela e Leão - 2a.Parte

El Mercado de Abastos


Da chegada, na Estação Central de Trens de Zamora, fui de táxi até o Hotel Horus Boutique Zamora, um quatro estrelas com  boa avaliação no Booking.com. Correspondeu!  apenas o café da manhã podia melhorar bem mais. A localização do Horus é ótima. Está na frente do Mercado de Abastos, um prédio modernista, grandioso por fora, pouco ocupado por dentro e sem grandes atrativos na venda de produtos locais.



                                                                                                 Rua Santa Clara


Há duas ruas para pedestres - calle peatonal -  que oferecem condições de boa caminhadas, por serem planas e de agradáveis lugares para serem observados. Primeiro , eu percorri a rua Santa Clara e, seguindo um mapa, passei para a rua Alfonso IX, limite do Centro Histórico. 



                                                    Interior da igreja Santiago del Burgo
                                                  
Para retornar ao Casco Antigo, percorri a segunda peatonal, na direção da Praça Maior. A primeira das muitas igrejas românicas que visitei, foi a pequena e bela Santiago del Burgo. Daí em diante, foi-me impossível memorizar o nome de tantas igrejas e relacioná-las as fotos que fiz...Lamento!

Igreja Santiago del Burgo

Zamora é uma cidade com cerca de 60 mil habitantes, que surpreende por seus muitos  tesouros, avistados muito perto uns dos outros, em todo  seu Centro Histórico. Pode ser percorrida a pé, com descobertas fantásticas a cada momento. Há que se estar atento.


Proximidades do Castelo

Acredito que a Catedral e o Castelo são os tesouros mais visitados  em Zamora. O Castelo é limite do assentamento inicial,  que foi fundado nos primórdios da Idade do Bronze e , posteriormente, ocupado pelo povo Celta. Está à margem do Duero, pois, como se diz, cada ciudad tiene um río en el que mirarse.


                                           Restos das Muralhas


É uma cidade estrategicamente localizada, em lugar bem protegido e defendido, não somente pela rio Duero, mas também pela própria topografia. Como se não bastassem essas defesas naturais, foram construídas depois suas grandiosas muralhas, que acrescentaram ao nome da cidade a expressão a bem cercada. Seguir o que resta das muralhas é um passeio bem interessante...



Morcilla local


Como já escrevi, tracei a cidade a pé. A fome veio. Restaurantes, bares e cafeterias não faltam na cidade. Perguntando cheguei restaurante de comidas locais. Encontrei o que procurava: morcilha! E morcilha típica de Zamora, pois eu não queria a morcilha de Burgos, com arroz incluído. Vinha sobre uma fatia de pão, coberta com cebola caramelizada e nozes!



                                                Sobremesa


Por ter caminhado tanto, durante várias horas, sem nenhum remorso, acrescentei uma sobremesa ao almoço - irresistível mesmo!  Também sobre uma fatia de pão, depois de uma camada de geleia, vinha uma generosa fatia de queijo de cabra aquecido, coberto com mel e nozes.  Essa sobremesa eu a conheço - parecida - na Andaluzia, onde um creme de queijo de cabra, vem também coberto por mel e nozes. 


Esqueci a denominação dessa igreja - gostei dos ninhos!

Quando comecei , já no segundo dia de caminhadas, a confundir o nome das dezenas de igrejas românicas, procurei mudar o foco e passei a olhar com mais atenção a arquitetura civil e a fixar-me nos palácios e casarões góticos, renascentistas e contemporâneos, como o cassino, o teatro, o mercado, os museus e o palácio legislativo. 


Teatro da Cidade

Tenho especial encantamento por arte pública, em que a população tenha acesso a boas obras. Minha preferência recai sobre as esculturas. Pois , em Zamora, encontrei obras que me fascinaram, como a que selecionei para postar a seguir:


Edifício do Cassino

Gostaria muito de voltar não só a Zamora, mas de percorrer detalhadamente Castela e Leão. Sim! gostaria de estar lá na Semana Santa. Neste ano, passei a Semana Santa em Santiago de Compostela. Descobri, posteriormente, cidades bem mais interessante para ver e participar desse acontecimento religioso, cultural e social na Espanha. Não faço mais planos...mas, se der, vou cantarolar gracias a la vida...


                                                                   Igreja Madalena


" Sigue tu destino,
riega tus plantas,
ama tus rosas.
El resto es la sombra
de árboles ajenos.

La realidad
siempre es más o menos
de lo que queremos.
Solo nosotros somos
iguales siempre
a nosotros mismos."

Fernando Pessoa


Zamora, maio de 2018

sexta-feira, maio 11, 2018

A Românica Zamora de Castela e Leão - 1a.Parte

Catedral de Zamora


Se eu não tivesse  o hábito de voltar diversas vezes ao mesmo lugar, certamente já conheceria todas as cidades da região de Castela e Leão - e , sem exagero, conheceria todas as cidades da Espanha. Perdi a conta do número de vezes que fui, por exemplo,  a Burgos, Segóvia, Valladolid, Ávila, León e Salamanca .... e nunca havia visitado Zamora, parte  dessa região. 



Igreja de Santa Maria Madalena


Estou, por isso, há dois dias, recorrendo organizadamente Zamora , com o objetivo específico de aprender mais sobre o Românico Espanhol, estilo artístico que predominou  na Europa Ocidental, desde o final do século X até o século XIII . 



Detalhe da Igreja de Santo Estêvão


Dizem ter essa cidade o maior índice de concentração do estilo tanto em igrejas quanto em edifícios, sendo também os que apresentam melhor conservação.  O Românico foi bem desenvolvido no Norte da Espanha, mas não só no norte, como não só na Espanha. Penso que religião e política, conforme seus interesses, ampliam a abrangência de alguns estilos...



Igreja de Santiago de Burgo


Esclareço que minha formação é em Linguística. O que estudo - sozinha - sobre História da Arte, é apenas uma tentativa de ver melhor o que vejo e que esteticamente tanto admiro. Observo, por exemplo, que no Românico, uma de suas características arquitetônicas é a decoração em relevo:



Palácio da Justiça - antigo Palácio de los Momos


Pode-se facilmente observar também - tão facilmente que até eu observei rsrs - que o estilo   foi uma combinação harmônica de elementos construtivos e ornamentais de procedências diversas, formado na Europa cristã,  Zamora, no entanto, é considerada como a Capital do Românico , ainda que tardio, pelas características e pelo maior número de monumentos desse estilo.



Igreja de Santo Ildefonso - séc.XII


Parece-me que, na Espanha do Norte, encontra-se o predomínio do Românico sensível e florido, com exuberância ornamental e uma certa delicadeza na execução dos detalhes. Em pouco tempo - apenas três dias - é difícil fazer uma observação mais aprofundada  : somente igrejas são mais de vinte!



Delicadeza!

Na Praça Maior, além dos edifícios da prefeitura e da polícia , está a Igreja de São João, que se salienta não só pela arquitetura, mas também por mostrar a Estátua de Merlu, nome que se dá a um par de integrantes da Confraria de Jesus de Nazareno, que são os encarregados de chamar os demais nazarenos  para dar início a  uma já tradicional procissão. O Merlu é formado pór duas pessoas, sendo que uma toca trompeta e outra, tambor.



Estátua de Merlu na Igreja São João


Os monumentos mais emblemáticos de Zamora, Capital do Românico, penso que são  a Catedral do século XII, o Castelo, as ruínas das muralhas da cidade, a ponte sobre o rio Duero, mais de vinte igrejas e  dois grandes palácios. É interessante observar que toda essa grandeza está numa cidade com pouco mais de 60 mil habitantes.



Um dos acessos aos jardins do Castelo


"El pastor amoroso perdió el cayado,
Y las ovejas dispersáronse por la ladera,
Y de tanto pensar, ni tocó la flauta que trajo para tocar.
Nadie se le apareció o desapareció.
Nunca más encontró el cayado.
Otros, maldiciendo contra él, recogiéronle las ovejas.
Nadie lo había amado, al final.
Cuando se erguió de la ladera y de la verdad falsa, vio todo:
Los grandes valles llenos de los mismos verdes de siempre,
Las grandes montañas de lejos, más reales que cualquier sentimiento,
La realidad toda, como el cielo y el aire y los campos que existen, están presentes.
(Y de nuevo el aire, que le faltara tanto tiempo, le entró fresco en los pulmones) 
Y sintió que de nuevo el aire le abría, pero con dolor, una libertad en el pecho."

Fernando Pessoa


Muralhas - séc IX ao sé XIV
             










terça-feira, maio 01, 2018

Leste Europeu e Balcãs - Locomoção : 2a. parte

Madre Teresa de Calcutá em Pristina

A viagem de Podgorica a Pristina, num ônibus comum, com parada em  dois postos de fronteira, demorou cerca de oito horas. Até pneu furou e teve de ser consertado. Éramos nove passageiros: sete homens de nacionalidades  diversas, Isolda e eu. Por sorte, trazíamos água e biscoitos. Como diria Luis Behares, uma perfeita viagem para linguistas e antropólogos.



Bulevar Madre Teresa de Calcutá em Pristina



Atravessamos parte de Albânia, sem , entretanto, entrar em Tirana, a capital. Nossas paragens resumiram-se a pequenos povoados. Pode-se notar , no País, grande movimentação na construção de estradas e pontes.



                                                                   Montanhas da Baía de Kotor


Eu sempre quis ver a Serra do Rio do Rastro em Santa Catarina. Nunca fui. Depois de subir e descer montanhas, especialmente na Albânia e na chegada em Kotor, posso aceitar que essa emoção está superada!




                                                                   Campos da Albânia
                                               

Chegando a  Skopje, uma surpresa: a cidade é belíssima, magnífica, muito movimentada - surpresa maior ainda com os preços: muito mais acessíveis que as demais cidades. Havíamos  reservado um hotel-barco, que se mostrou muito além das nossas expectativas. 




                                                                      Hotel - Barco



Começamos logo a planejar  como conhecer bem a cidade e como ir dali para a  Grécia.   Foram muitos os quilômetros caminhados por Skopje, especialmente para ver as pontes, as esculturas e  antigo mercado. Valeu cada passo dado.



                                               Belas esculturas nas pontes, ruas e avenidas.


Fora de temporada e em final de semana, há que se considerar a dificuldade de transporte a partir da Macedônia em direção ao Norte da Grécia.  Para chegar a Thessaloniki, foi necessário locar um carro com motorista. No entanto, mesmo considerando o tempo de espera na Polícia de Fronteira, em duas horas e meia estávamos em Thessaloniki.


                                   Com mais de mil anos, este leãozinho estava ali na estrada...
                                 

O carro nos deixou no aeroporto de Thessaloniki. Logo chegaram meus amigos gregos que me trouxeram a Kavala, cidade de que gosto muito e onde  permaneci quatro dias muito movimentados, com passeios inesquecíveis, como o que fizemos ao Mosteiro Analypseos Sotiros, na cidade de Proti.



Detalhes do Mosteiros de Proti

Hoje, viajarei, de ônibus, durante duas horas, de Kavala a Thessaloniko. Aproveitarei a tarde de hoje e a manhã de amanhã,para rever meus lugares favoritos nessa histórica e bíblica cidade. Irei depois, via Bélgica, para Madrid. Após um mês, reencontrarei meus livros, roupas e objetos que lá estão. A viagem a Jordânia foi cancelada. Daqui a duas semanas, devo retornar ao Brasil. O homem planeja, e Deus ri.


Detalhes do Mosteiro de Proti


Meu agradecimento e meu carinho ao queridos amigos da Grécia.  Como sempre, fui recebida aqui com gentileza e afeto. Meu amor e, desde já, minha saudade a eles.



Kavala



terça-feira, abril 24, 2018

Leste Europeu e Balcãs - Locomoção : 1a. parte

Budapest

Partimos de Madrid, num voo low cost, e chegamos ao Aeroporto Internacional Ferenc Liszt, em Budapest.  Apesar da língua que, como disse Chico Buarque, do húngaro até o diabo tem medo, sinto-me em casa na Hungria. Há 24 anos, costumo vir a esse país. Hospedadas no Ibis Centro, caminhando muito, Isolda e eu, traçamos tanto Buda quanto Pest por três dias.


Budapest : Ponte das Correntes sobre o Danúbio


Já havíamos comprado online as passagens de ônibus para ir da capital da Hungria a Zagreb, capital da Croácia. Uma bem suportável viagem com cerca de 5 horas, incluindo  40 minutos na Polícia de Fronteiras. Devidamente identificadas e com passaportes carimbados, entramos na belíssima Croácia. Dias lindos. Passeios interessantes. Cenas não previstas, como uma imponente cerimônia fúnebre no Cemitério Mirogoj.



Cemitério de Zagreb - Croácia

Antes de continuar, uma clarificadora observação: eu estava usando uma pequena câmera Canon, comprada em Madrid. Por incompetência minha, não conseguira acertar a data - podem observar que, nas fotos, aparece o ano de 2016. Posteriormente, com a ajuda do funcionário de uma loja de fotografias, a data foi corrigida, e o comentário de que eram fotos antigas, deixou de existir...



Mercado Público: flores, frutas, verduras...e muito mais


Com Zagreb devimente percorrido, fomos de ônibus e voltamos de trem à encantadora Slovenia, num percurso, tanto de ida quando de volta,  com menos de 3 horas. A viagem de ônibus é cômoda, mas a de trem, mil vezes mais encantadora. Viaja-se encantada junto às margens de um rio de montanha, com águas verde-azuladas, que parecem estar continuamente emolduradas. Um exagero de beleza!



Da janela do trem, a deslumbrante visão do rio.


Voltando de Liubliana, fizemos um voo, pela Air Serbia. de Zagreb a Belgrado. Muitos passeios na capital da Sérvia, incluindo um dia inteiro na magnífica Cidadela de Kalemegdan. A cidade oferece variadas condições de transporte a partir dela, como trens para Moscou, Budapest, Bucarest, Zagreb, Viena e Sarajevo.



Igreja Ortodoxa Sérvia
                                                        

Da Sérvia, novamente em avião, seguimos para Bósnia Herzegovina, descendo no aeroporto de Sarajevo, a capital. Essa foi uma das cidades onde mais caminhamos - uns 8 km diários. Durante um dia inteiro, entretanto,  contratamos carro e motorista para visitar fantásticas cidades pequenas em parte do percurso de rio Neretva. 


Detalhe da magnífica Biblioteca Nacional de Sarajevo


Sarajevo atualmente é a capital da Bósnia Herzegovina. Mostar, para onde fomos na continuidade, foi capital de Herzegovina. Tanto Sarajevo quanto Mostar encantaram-me a ponto de eu pensar em retornar a elas por um mês. O transfer entre essas duas cidades foi feito de trem - viagem tranquila, num trem simples e lento.



Ponte Romana em Mostar


De Mostar a Dubrovnik - voltando, então, para Croácia - são 130 km. Estradas de montanha, bem estreitas, parecendo que se pode escorregar, a qualquer momento, num precipício. Contratamos carro com bom e experiente motorista. Cenário cinematográfico!



Dubrovnik


Com razão, Dubrovnik encanta. Já o havia visitado chegando por mar. Chegando pelas montanhas , encanta mais ainda. De Dubrovnik, entramos em Montenegro, visitando primeiro Budva, depois a estupenda Baía de Kotor, onde nos hospedamos num ótimo hotel , dentro da Cidadela. Para chegar a Kotor, usamos um transfer coletivo ( 12  turistas de várias nacionalidades). 



Cidadela de Kotor

Para ver bem Montenegro, optamos por vir até a capital - Podgorica - cidade antiga que foi de tal maneira destruída nas duas Grandes Guerras, que a reconstrução faz com que ela pareça uma cidade do início do século XX. 


Centrinho de Podgorica

Sairemos, daqui a duas horas,  para Pristina, Capital de Kosovo. Iremos de ônibus. Parece-me que trem só funciona nos meses de verão; avião, nem pensar. Este post terá continuidade, pois ainda iremos a Skopje, Capital da Macedônia, e daí entraremos para Grécia. Está sendo uma viagem tranquila e muito informativa.


Podgorica - Igreja de São Jorge