quinta-feira, abril 30, 2020

Entrevista de Yuval Harari durante a Pandemia de 2020

Num século que prima pela quase ausência de pensadores como figuras públicas, há alguns anos um historiador israelense se destaca tanto nos círculos intelectuais como nas listas mundiais de best-sellers: Yuval Noah Harari, de 44 anos, é o autor aclamado de Sapiens: Uma breve história da humanidadeHomo Deus: Uma breve história do amanhã e 21 lições para o século 21, lançados a partir de 2014.


    Entrevista  de Harari à  DW -Deutsche Welle - emissora internacional da Alemanha,      que produz jornalismo independente em 30 idiomas

Um de seus interesses centrais é como o homo sapiens, tão distinto das demais espécies animais, alcançou sua condição atual, e qual seu futuro. A história tem uma direção? Há justiça nela? Qual sua relação com a biologia? Os seres humanos se tornaram mais felizes com o desenrolar da história?  Essas são algumas das questões macro-históricas de que se ocupa Harari em sua obra.
Celebridade global também graças a suas palestras online, Harari mora com o cônjuge e agente Itzik Yahav em Jerusalém, e tem também se destacado por adotar posições políticas na contramão do status quo. Sua companhia de impacto social Sapienship doou 1 milhão de dólares à Organização Mundial da Saúde (OMS) em seguida à decisão do presidente Donald Trump de retirar o financiamento dos EUA.
A DW o entrevistou sobre a situação da humanidade em meio às mudanças sociais e políticas em andamento, na esteira da pandemia de covid-19. O historiador acredita que seus futuros colegas verão no atual momento um ponto de mutação na história do século 21, embora "a forma que dermos a ele dependerá de nossas decisões, não é inevitável".
"Mas para tal, temos que tomar consciência do perigo e tomar cuidado com o que permitimos nesta emergência."
DW: Estamos em plena pandemia global. O que o preocupa mais, na forma como o mundo está mudando?
Yuval Noah Harari: Acho que o maior perigo não é o vírus em si. A humanidade tem todo o conhecimento e as ferramentas tecnológicas para vencê-lo. O problema realmente grande são nossos demônios interiores, nosso próprio ódio, ganância e ignorância. Temo que não se esteja reagindo a esta crise com solidariedade global, mas com ódio, colocando a culpa em outros países, em minorias étnicas e religiosas.
Mas espero que consigamos desenvolver nossa compaixão, e não nosso ódio, e reagir com solidariedade global, desenvolvendo nossa generosidade de ajudar os necessitados. E que desenvolvamos nossa capacidade de discernir a verdade, em vez de acreditar em todas essas teorias da conspiração. Se fizermos isso, não tenho dúvida que conseguiremos superar facilmente a crise.
Estamos encarando, como o senhor já disse, a opção entre a vigilância totalitária e a potencialização da cidadania. Se não tomarmos cuidado, a pandemia pode ser um marco na história da vigilância pública. Mas como ser cuidadoso com algo que está fora do nosso controle?
Não está completamente fora de seu controle, pelo menos numa democracia. Você vota em determinados políticos e partidos, que determinam as políticas, portanto tem algum controle sobre o sistema político. Mesmo que não haja eleições agora, os políticos ainda reagem à pressão pública.
Se o público está aterrorizado e quer que um líder forte assuma, isso torna muito mais fácil um ditador fazer exatamente isso: assumir o poder. Se, ao contrário, houver reação do público quando um político for longe demais, podemos evitar que os desdobramentos mais perigosos aconteçam.
Como saber em quem confiar, ou em quê?
Primeiro, há a experiência. Se há políticos que têm mentido para você nos últimos anos, há menos razões para confiar neles nesta emergência. Em segundo lugar, você pode fazer perguntas sobre as teorias que estão lhe contando: se alguém vem com uma teoria da conspiração sobre a origem e o alastramento do coronavírus, peça-lhe para explicar o que é um vírus e como causa doenças.
Se a pessoa não tem a menor ideia, quer dizer que não dispõe de conhecimento científico básico, portanto não acredite em mais nada do que ela está lhe contando sobre a pandemia. Não se precisa de um PhD em biologia, mas se precisa de alguma compreensão científica básica de todas essas coisas.
Nos últimos anos, temos visto diversos políticos populistas atacarem a ciência, dizerem que os cientistas são uma elite remota, desconectada do povo; que coisas como a mudança climática não passam de uma farsa, que não se deve acreditar nelas. Mas neste momento de crise por todo o mundo, vemos que as pessoas confiam mais na ciência do que em qualquer outra coisa.
Espero que lembremos disso, não só durante esta crise, mas também quando ela tiver passado; que cuidemos para dar uma boa educação científica nas escolas sobre o que são os vírus e a teoria da evolução. E também que, quando cientistas nos alertam sobre outras coisas, além de epidemias – como mudança climática e colapso ambiental – ouçamos as advertências deles com a mesma seriedade que temos agora com o que dizem sobre a pandemia do coronavírus.
Muitos países estão implementando mecanismos de vigilância digital para evitar o alastramento do vírus. Como se pode controlar esses mecanismos?
Sempre que se intensifica a vigilância dos cidadãos, isso deve vir de mãos dadas com uma maior vigilância do governo. Nesta crise, os governos estão gastando dinheiro como água: nos Estados Unidos, 2 trilhões de dólares, na Alemanha, centenas de bilhões de euros, e assim por diante. Como cidadão, quero saber quem está tomando as decisões e para onde o dinheiro vai. Ele está sendo usado para resgatar grandes corporações que já estavam em apuros antes mesmo da pandemia, por causa das más decisões de sua chefia? Ou ele está sendo usado para ajudar pequenas empresas, restaurantes, lojas e similares?
Se um governo está tão ávido de ter mais vigilância, esta deve ir nas duas direções. E se ele diz "hei, isso é complicado demais, não podemos simplesmente abrir todas as transações financeiras", você diz: "Não é, não. Do mesmo modo que você pode criar um gigantesco sistema de vigilância para ver aonde eu vou a cada dia, deveria ser fácil criar um sistema que mostre o que você está fazendo com o dinheiro dos impostos."
Isso funciona distribuindo o poder, e não deixando que ele se concentre em uma pessoa ou autoridade?
Exatamente. Uma ideia com que se está experimentando é alertar quem esteve perto de um paciente do coronavírus. Há duas maneiras de fazer isso: um é ter uma autoridade central que coleta informações sobre todo mundo e aí descobre que você esteve perto de alguém com covid-19 e alerta você.
Outro método é os celulares se comunicarem diretamente entre si, sem nenhuma autoridade central que recolha toda a informação. Se passo por alguém que tem covid-19, os dois telefones, o meu e o dele ou dela, simplesmente falam um com o outro, e eu recebo o alerta. Mas nenhuma autoridade central está coletando toda essa informação e seguindo todo mundo.
Possíveis sistemas de vigilância para a crise atual vão um passo mais adiante, no que se chamaria de "vigilância subcutânea". Portanto a pele, como superfície intocável dos nossos corpos, está se rachando. Como controlar isso?
Devemos ser muito, muito cuidadosos a esse respeito. Vigilância sobre a pele é monitorar o que se faz no mundo exterior: aonde você vai, quem encontra, ao que assiste na TV, que sites visita online. Ela não entra no seu corpo. Vigilância subcutânea é monitorar o que está acontecendo dentro do seu corpo. Começa com coisas como a temperatura, mas aí pode partir para a pressão sanguínea, frequência cardíaca, atividade cerebral. E uma vez que se faça isso, é possível saber muito mais sobre cada indivíduo do que em qualquer outra época: você pode criar um regime totalitário como nunca se viu antes.
Se você sabe o que estou lendo ou ao que assisto na televisão, isso lhe dá alguma ideia sobre meus gostos artísticos, meus pontos de vista politicos, minha personalidade, mas ainda é limitado. Agora, pense se você puder realmente monitorar minha temperatura corporal, minha pressão e frequência cardíaca enquanto leio o artigo ou assisto ao programa online ou na televisão: aí você pode saber o que estou sentindo a cada momento! Isso poderia facilmente resultar na criação de regimes totalitários distópicos.
Isso não é inevitável. Podemos impedir que aconteça. Mas para tal, temos que primeiro tomar consciência do perigo, e em segundo lugar tomar cuidado com o que permitimos acontecer nesta emergência.
Esta crise força o senhor reajustar sua imagem do homo sapiens no século 21?
Não sabemos, porque depende das decisões que tomarmos agora. O perigo de uma classe inútil está, na verdade, crescendo dramaticamente, por causa da atual crise econômica. Vemos agora um aumento da automatização, robôs e computadores substituindo seres humanos em cada vez mais empregos nesta crise. Porque as pessoas estão confinadas em suas casas, e elas podem se contaminar. Mas robôs, não.
Talvez vejamos os países decidirem trazer certas indústrias de volta para casa, em vez de dependerem de fábricas em outras locações. Então pode ser que, tanto devido à automatização quanto à desglobalização, especialmente os países em desenvolvimento, que dependem de trabalho manual barato, tenham de repente uma enorme classe inútil de cidadãos que perderam seus empregos, porque estes foram automatizados ou transferidos para outro lugar.
E isso também pode acontecer nos países ricos. Esta crise está causando mudanças tremendas no mercado de trabalho; as pessoas trabalham de casa, trabalham online. Se não tomarmos cuidado, pode resultar no colapso do trabalho organizado, pelo menos em alguns setores industriais.
Mas isso não é inevitável: é uma decisão política. Podemos tomar a decisão de proteger os direitos trabalhistas em nosso país, ou em todo o mundo, nesta situação. Os governos estão resgatando financeiramente indústrias e corporações, eles podem condicionar a ajuda à proteção dos direitos dos empregados. Então tudo depende das decisões que tomemos.
O que o futuro historiador dirá deste momento?
Acho que historiadores futuros verão este como um ponto de mutação na história do século 21. Mas a forma que dermos a ele dependerá de nossas decisões. Não é inevitável.

quarta-feira, abril 08, 2020

Aniversário do Correndomundo

2006/2007 - Torres



Correndomundo completou catorze anos nos últimos dias.    Mais do que um Blog  de Viagem,  ele foi  e é   relato de vida,  registro  de alegrias,  desabafo de  horas   difíceis,  contato permanente com gente querida,  divulgação de meu poeta preferido - Fernando Pessoa - recordação de lugares e de episódios que tento não esquecer.



"Eu amo tudo o que foi,
Tudo o que já não é,
A dor que já me não dói,
A antiga e errônea fé
O ontem que dor deixou,
O que deixou alegria
Só porque foi e voou
E hoje já é outro dia".(Fernando Pessoa, 1931).




Não quero esquecer, por exemplo, que vi os Cavalinhos de Tarquinia

Trouxe do início do Correndomundo o texto seguinte:

"TRANSIÇÕES são dificuldades duríssimas para mim. Abandonar um emprego, trocar de cidade, ser traída por uma amiga, terminar um relacionamento, ver um filho partir, largar tudo, começar tudo, foram passagens doídas, transições sofridas - e sofridas. Nos intervalos dessas transições, já engordei 10 kg em um mês, já fiz pneumonias várias, já tive crises alérgicas terríveis. Mudei. Felizmente mudei. Abandonei as somatizações.Tornei-me mais produtiva. Em períodos difíceis, bordei uma toalha de jantar imensa, em ponto-de-cruz, para a Téssia, em uma semana; em outra crise, teci cinco blusões em dez dias; em outra, viajei durante cinco dias e cinco noites praticamente sem dormir; e, ainda, em uma outra, bordei um tapete de dois metros quadrados em um mês... A transição que faço agora, neste primeiro semestre de 2006, deixando a Bahia depois de sete anos e voltando para o Sul, faz surgir este BLOG....Gugu viajou. Foi para a Alemanha. Depois vai para a Índia. Falo sempre que a vida é isso: uma sucessão de chegadas e partidas. Mas como dói!" Salvador,2006. 



Bahia, 2006.

Assim foi iniciado este blog, em um momento de transição, até de superação. com a partida de meu filho, que sempre havia morado comigo. Foi Gugu que me incentivou a criar um blog - não era  uma mídia comum ainda - e me ensinou como fazê-lo. Eu já começara a pensar em textos e fotos, mas não havia feito duas escolhas necessárias e urgentes: qual seria a denominação do blog e de que temas ele se ocuparia. Lembranças da minha mãe vieram para resolver essas pendências. Ela, entre preocupar-se e orgulhar-se com minhas constantes viagens, respondia quando perguntavam por mim : anda por aí,  correndo mundo! Estava escolhido o  tema e o nome. Seria um Blog de Viagem  e  seria o Correndomundo.



Pedro, meu neto,  em 2016, que se tornaria mais tarde meu companheiro de viagens.

Passaram-se, portanto, 14 anos. Até este ano, Correndomundo tem ao redor de 900 postagens. Nos últimos 5 anos, mais de 400 mil acessos. Não é um blog comercial. Tenho consciência de que é um blog bastante simples. Todas as fotos são feitas por mim, com uma câmera de 200 dólares. Os textos são revisados por mim também - logo erros e acertos são unicamente meus. 



Itália - 2006

Viajar é minha paixão. Gostaria mesmo que todas as pessoas viajassem - não, obviamente, neste momento de coronavirus, quando nossa responsabilidade é manter isolamento social, preservando a vida e a saúde nossa de todas as pessoas.




Agradecimentos contantes aos que lêem meu blog

Escrevi em 2018:  Com a morte da minha irmã caçula, aguçou-se, mais ainda, minha consciência de transitoriedade e de rapidez com que passa o tempo. Não quero me cobrar, nas revisões de vida,  certamente tardias,  alguma viagem que desejei muito fazer e deixei para um vago depois... Sim, sempre ficará algo por fazer. Não acredito num final com " O campo arado, a mesa posta, cada coisa no seu lugar"  



Em Napoli, com inesquecíveis amigos

" ... voltarei a viajar sozinha - tentarei manter os olhos bem abertos para explorar e descobrir. E olhos bem limpos para não sobrepor imagens, como fazem os que comparam um país com outro, ou uma cidade com sua própria cidade. Lugares são como pessoas: únicos , na riqueza de sua diversidade."  https://correndomundo.blogspot.com/search/label/Viagem%3A%20prepara%C3%A7%C3%A3o




2008 - Egito

“Parto com a certeza de deixar para trás motivos suficientes para o não fazer. Mas um sonho tem a força de transformar uma ideia em algo imperativo, inadiável, inquestionável. Aterrorizar-me-ia chegar tarde na vida com a tortura do pensamento: 'quem me dera ter feito aquela viagem…’” 

Alma de Viajante
newsletter@almadeviajante.com



2009 - China - Ronald ( in memoriam )


domingo, março 22, 2020

Fernando Pessoa - em tempo de corona vírus...





"Contemplo o lago mudo
Que uma brisa estremece.
Não sei se penso em tudo
Ou se tudo me esquece.




O lago nada me diz,
Não sinto a brisa mexê-lo.
Não sei se sou feliz
Nem se desejo sê-lo.




Trêmulos vincos risonhos
Na água adormecida,
Por que fiz eu dos meus sonhos
A minha única vida? "

Fernando Pessoa



PS. Todas essas fotos foram feitas no Aquário de Atlanta , em 2007. Massimo era um bebê. O único critério para a escolha das fotos foi a imensa saudade de meu filho e de neto. 

sábado, março 21, 2020

Harari sobre Situação Atual : lucidez em belo texto.


Yuval Noah Harari: Na batalha contra o coronavírus, a humanidade carece de liderança

18/03/2020


Em artigo publicado na revista Time, no último domingo (15), o professor israelense Yuval Noah Harari – historiador, filósofo e autor dos best-sellers “Sapiens: uma breve história da humanidade” e “Homo Deus – Uma breve história do Amanhã” -, escreve sobre a pandemia do coronavírus que o mundo todo está enfrentando.

POR YUVAL NOAH HARARI
15 DE MARÇO DE 2020
Muitas pessoas culpam a globalização pela epidemia de coronavírus e dizem que a única maneira de evitar mais surtos desse tipo é desglobalizar o mundo. Construa muros, restrinja viagens, reduza o comércio. No entanto, embora a quarentena de curto prazo seja essencial para interromper as epidemias, o isolacionismo de longo prazo levará ao colapso econômico sem oferecer proteção real contra as doenças infecciosas. Exatamente o oposto, o verdadeiro antídoto para a epidemia não é a segregação, mas a cooperação.
As epidemias mataram milhões de pessoas muito antes da era atual da globalização. No século XIV, não havia aviões e navios de cruzeiro, e a Peste Negra se espalhou do leste da Ásia para a Europa Ocidental em pouco mais de uma década. Matou entre 75 milhões e 200 milhões de pessoas – mais de um quarto da população da Eurásia. Na Inglaterra, quatro em cada dez pessoas morreram. A cidade de Florença perdeu 50.000 de seus 100.000 habitantes.
Em março de 1520, um único transportador de varíola – Francisco de Eguía – desembarcou no México. Na época, a América Central não tinha trens, ônibus ou burros. No entanto, em dezembro, uma epidemia de varíola devastou toda a América Central, matando, segundo algumas estimativas, até um terço de sua população.
Em 1918, uma cepa de gripe particularmente virulenta conseguiu se espalhar em poucos meses para os cantos mais remotos do mundo. Ela infectou meio bilhão de pessoas – mais de um quarto da espécie humana. Estima-se que a gripe tenha matado 5% da população da Índia. Na ilha do Taiti, 14% morreram. Em Samoa, 20%. No total, a pandemia matou dezenas de milhões de pessoas – e talvez até 100 milhões – em menos de um ano. Mais do que a Primeira Guerra Mundial matou em quatro anos.
No século que se passou, desde 1918, a humanidade se tornou cada vez mais vulnerável a epidemias, devido a uma combinação de populações crescentes e melhores transportes. Uma metrópole moderna, como Tóquio ou Cidade do México, oferece patógenos muito mais ricos do que a Florença medieval, e a rede de transporte global é hoje muito mais rápida que em 1918. Um vírus pode chegar de Paris a Tóquio e a Cidade do México em menos de 24 horas. Deveríamos, portanto, ter esperado viver em um inferno infeccioso, com uma praga mortal após outra.
No entanto, a incidência e o impacto das epidemias diminuíram drasticamente. Apesar de surtos horrendos, como AIDS e Ebola, no século XXI as epidemias matam uma proporção muito menor de humanos do que em qualquer outro período anterior à Idade da Pedra. Isso ocorre porque a melhor defesa que os seres humanos têm contra patógenos não é o isolamento – é a informação. A humanidade têm vencido a guerra contra epidemias porque, na corrida armamentista entre patógenos e médicos, os patógenos dependem de mutações cegas, enquanto os médicos dependem da análise científica da informação.

Ganhando a guerra contra patógenos
Quando a Peste Negra ocorreu no século 14, as pessoas não tinham ideia de sua causa e do que poderia ser feito a respeito. Até a era moderna, os humanos geralmente atribuíam doenças a deuses raivosos, demônios maliciosos ou ao ar, e nem suspeitavam da existência de bactérias e vírus. As pessoas acreditavam em anjos e fadas, mas não podiam imaginar que uma única gota de água pudesse conter toda uma armada de predadores mortais. Portanto, quando a Peste Negra ou a varíola vieram, a melhor coisa que as autoridades poderiam pensar em fazer era organizar orações em massa a vários deuses e santos. Isso não ajudou. De fato, quando as pessoas se reuniam para orações em massa, muitas vezes causavam infecções em massa.
Durante o século passado, cientistas, médicos e enfermeiros em todo o mundo reuniram informações e, juntos, conseguiram entender o mecanismo por trás das epidemias e os meios para combatê-las. A teoria da evolução explicou por que e como surgem novas doenças e doenças antigas se tornam mais virulentas. A genética permitiu que os cientistas espiassem o próprio manual de instruções dos patógenos. Embora o povo medieval nunca tenha descoberto o que causou a Peste Negra, os cientistas levaram apenas duas semanas para identificar o novo coronavírus, sequenciar seu genoma e desenvolver um teste confiável para identificar pessoas infectadas.
Depois que os cientistas entenderam o que causa as epidemias, ficou muito mais fácil combatê-las. Vacinas, antibióticos, higiene aprimorada e uma infra-estrutura médica muito melhor permitiram que a humanidade ganhasse vantagem sobre seus predadores invisíveis. Em 1967, a varíola ainda infectou 15 milhões de pessoas e matou 2 milhões delas. Mas, na década seguinte, uma campanha global de vacinação contra a varíola foi tão bem-sucedida que, em 1979, a Organização Mundial da Saúde declarou que a humanidade havia vencido e que a varíola havia sido completamente erradicada. Em 2019, nenhuma pessoa foi infectada ou morta por varíola.
Guard Our Border
O que essa história nos ensina para a atual epidemia de coronavírus?
Primeiro, isso implica que você não pode se proteger fechando permanentemente suas fronteiras. Lembre-se de que as epidemias se espalharam rapidamente, mesmo na Idade Média, muito antes da era da globalização. Portanto, mesmo que você reduza suas conexões globais ao nível da Inglaterra em 1348, isso ainda não seria suficiente. Para realmente se proteger através do isolamento, tornar-se medieval não nos serve. Você teria que permanecer na Idade da Pedra. Você pode fazer isso?
Em segundo lugar, a história indica que a proteção real vem do compartilhamento de informações científicas confiáveis ​​e da solidariedade global. Quando um país é atingido por uma epidemia, deve estar disposto a compartilhar honestamente informações sobre o surto, sem medo de uma catástrofe econômica – enquanto outros países devem poder confiar nessas informações e devem estender a mão amiga, em vez de ostracizara a vítima. Hoje, a China pode ensinar aos países de todo o mundo muitas lições importantes sobre o coronavírus, mas isso exige um alto nível de confiança e cooperação internacional.
A cooperação internacional é necessária também para medidas efetivas de quarentena. Quarentena e bloqueio são essenciais para impedir a propagação de epidemias. Mas quando os países desconfiam um do outro e cada país sente que é o seu próprio país que importa, os governos hesitam em tomar medidas tão drásticas. Se você descobrisse 100 casos de coronavírus no seu país, iria bloquear imediatamente cidades e regiões inteiras? Em grande medida, isso depende do que você espera de outros países. Bloquear suas próprias cidades pode levar ao colapso econômico, mas se você acha que outros países irão ajudá-lo, será mais provável que você adote essa medida tão drástica. No entanto, se você pensa que outros países o abandonarão, provavelmente hesitaria, até que fosse tarde demais.
Talvez a coisa mais importante que as pessoas devam perceber sobre essas epidemias seja que a sua disseminação em qualquer país põe em perigo toda a Espécie humana. Isso ocorre porque os vírus evoluem. Vírus como o corona se originam em animais, como os morcegos. Quando eles pulam para os seres humanos, inicialmente os vírus estão mal adaptados aos seus hospedeiros humanos. Enquanto se replicam em humanos, os vírus ocasionalmente sofrem mutações. A maioria das mutações é inofensiva. Mas, de vez em quando, uma mutação torna o vírus mais infeccioso ou mais resistente ao sistema imunológico humano – e essa cepa mutante do vírus se espalha rapidamente na população humana. Como uma única pessoa pode hospedar trilhões de partículas de vírus que sofrem replicação constante, toda pessoa infectada oferece ao vírus trilhões de novas oportunidades para se tornar mais adaptado aos seres humanos.
Isso não é mera especulação. A Crise na Zona Vermelha  de Richard Preston, descreve exatamente essa cadeia de eventos no surto de Ebola em 2014. O surto começou quando alguns vírus do Ebola saltaram de um morcego para um humano. Esses vírus deixaram as pessoas muito doentes, mas ainda estavam adaptadas para morar dentro de morcegos mais do que para o corpo humano. O que transformou o Ebola de uma doença relativamente rara em uma epidemia violenta foi uma única mutação em um único gene  do vírus Ebola que infectou um único humano, em algum lugar na área de Makona, na África Ocidental. A mutação permitiu que a cepa mutante do Ebola – chamada cepa Makona – se ligasse aos transportadores de colesterol das células humanas. Agora, em vez de colesterol, os transportadores estavam puxando o Ebola para dentro das células. Essa nova cepa Makona era quatro vezes mais infecciosa para os seres humanos.
Enquanto você lê essas linhas, talvez uma mutação semelhante esteja ocorrendo em um único gene no coronavírus que infectou uma pessoa em Teerã, Milão ou Wuhan. Se isso de fato está acontecendo, é uma ameaça direta não apenas aos iranianos, italianos ou chineses, mas também à sua vida. Pessoas de todo o mundo compartilham um interesse de vida ou morte em não dar ao coronavírus essa oportunidade. E isso significa que precisamos proteger todas as pessoas em todos os países.
Na década de 1970, a humanidade conseguiu derrotar o vírus da varíola porque todas as pessoas em todos os países foram vacinadas contra a varíola. Se mesmo um país não vacinasse sua população, poderia ter colocado em perigo toda a humanidade, porque enquanto o vírus da varíola existisse e evoluísse para algum lugar, ele sempre poderia se espalhar novamente por toda parte .
Na luta contra o vírus, a humanidade precisa proteger estreitamente as fronteiras. Mas não as fronteiras entre os países. Pelo contrário, precisa proteger a fronteira entre o mundo humano e a esfera do vírus. O planeta Terra está se unindo a inúmeros vírus, e novos vírus estão em constante evolução devido a mutações genéticas. A fronteira que separa essa esfera de vírus do mundo humano passa dentro do corpo de todo e qualquer ser humano. Se um vírus perigoso consegue penetrar nesta fronteira em qualquer lugar do mundo, coloca toda a espécie humana em perigo.
Ao longo do século passado, a humanidade fortaleceu essa fronteira como nunca antes. Os modernos sistemas de saúde foram construídos para servir de barreira nessa fronteira, e enfermeiros, médicos e cientistas são os guardas que a patrulham e repelem os invasores. No entanto, longas seções dessa fronteira foram deixadas lamentavelmente expostas. Existem centenas de milhões de pessoas em todo o mundo que carecem de serviços de saúde básicos. Isso coloca em perigo todos nós. Estamos acostumados a pensar em saúde em termos nacionais, mas fornecer melhores cuidados de saúde para iranianos e chineses ajuda a proteger israelenses e americanos também de epidemias. Essa verdade simples deve ser óbvia para todos, mas infelizmente ela escapa até mesmo às pessoas mais importantes do mundo.
Um mundo sem líder
Hoje a humanidade enfrenta uma crise aguda, não apenas devido ao coronavírus, mas também devido à falta de confiança entre os seres humanos. Para derrotar uma epidemia, as pessoas precisam confiar em especialistas científicos, os cidadãos precisam confiar nas autoridades públicas e os países precisam confiar uns nos outros. Nos últimos anos, políticos irresponsáveis ​​minaram deliberadamente a confiança na ciência, nas autoridades públicas e na cooperação internacional. Como resultado, agora estamos enfrentando esta crise desprovida de líderes globais que podem inspirar, organizar e financiar uma resposta global coordenada.
Durante a epidemia de Ebola de 2014, os EUA serviram como exemplo desse tipo de líder. Os EUA cumpriram um papel semelhante também durante a crise financeira de 2008, quando se reuniram atrás de países suficientes para evitar o colapso econômico global. Mas, nos últimos anos, os EUA renunciaram ao seu papel de líder global. O atual governo dos EUA cortou o apoio a organizações internacionais como a Organização Mundial da Saúde e deixou bem claro ao mundo que os EUA não têm mais amigos de verdade – eles têm apenas interesses. Quando a crise do coronavírus eclodiu, os EUA ficaram à margem e até agora se abstiveram de assumir um papel de liderança. Mesmo que eventualmente tente assumir a liderança, a confiança no atual governo dos EUA foi corroída a tal ponto, que poucos países estariam dispostos a segui-lo.
O vazio deixado pelos EUA não foi preenchido por mais ninguém. Exatamente o oposto. Xenofobia, isolacionismo e desconfiança agora caracterizam a maior parte do sistema internacional. Sem confiança e solidariedade global, não seremos capazes de parar a epidemia do coronavírus, e provavelmente veremos mais dessas epidemias no futuro. Mas toda crise também é uma oportunidade. Esperamos que a epidemia atual ajude a humanidade a perceber o grave perigo que representa a desunião global.
Para dar um exemplo proeminente, a epidemia pode ser uma oportunidade de ouro para a UE recuperar o apoio popular que perdeu nos últimos anos. Se os membros mais afortunados da UE enviam rápida e generosamente dinheiro, equipamentos e pessoal médico para ajudar seus colegas mais atingidos, isso provaria o valor do ideal europeu melhor do que qualquer número de discursos. Se, por outro lado, cada país é deixado para se defender, a epidemia pode soar como a morte do sindicato.
Neste momento de crise, a luta crucial ocorre dentro da própria humanidade. Se essa epidemia resultar em maior desunião e desconfiança entre os seres humanos, será a maior vitória do vírus. Quando os humanos brigam – os vírus dobram. Por outro lado, se a epidemia resultar em uma cooperação global mais estreita, será uma vitória não apenas contra o coronavírus, mas contra todos os patógenos futuros.
Direitos autorais © Yuval Noah Harari 2020

sábado, março 14, 2020

Porto, Norte de Portugal, Maratona 2019.

Escultura na Praça Central

Em 2019/2, estive três dias em Portugal onde fui com a finalidade de encontrar Claudio Zoppi, meu Sobrinho da Alegria - expressão baiana de que tanto gosto e que se refere aos parentes por escolha. Cláudio, pesquisador da UNICAMP, estava lá para correr os 42 km da 16a. Maratona do Porto, maior evento esportivo da cidade, que, em 2018,  produziu um impacto ao redor de 13 milhões de  Euros na economia local.



Cláudio Zoppi


Cláudio, que já correu em maratonas de diversos países, nas suas palavras, "compete com ele mesmo, buscando obter tempos cada vez melhores."  Isolda - minha amiga-irmã e excelente companheira de viagem - e eu acompanhamos, no dia da Maratona, cenas rápidas da corrida em cenários diversos. Nos demais dias, fizemos alguns agradáveis passeios pela cidade, revendo não só o Porto como também Gaia. 



Divulgação Oficial da Maratona

Do Correndomundo, retirei estes textos meus, escritos em 2013 sobre a cidade:
"Há 20 anos, fiz um bate-e-volta ao Porto. Um dia inteiro de passeios pela cidade, que me deu um conhecimento superficial e a impressão de uma cidade sem muitos atrativos e até mal cuidada. Passados 10 anos, retornei, hospedei-me na avenida dos Aliados e lá estive durante uma semana. Modifiquei a impressão anterior. Passei a vê-la como uma beleza madura, que não salta aos olhos no primeiro momento e que precisa de tempo e aprofundamento para ser decifrada e, depois, admirada. Voltei mais uma vez e voltei, agora, pela quarta vez. Descobri, então, que a gente não se apaixona pelo Porto. Aprende a amá-lo a cada encontro e a cada vez mais. Há tanto o que ver. Comece reservando um final de tarde para ver o pôr-do-sol, a partir da Vila Nova de Gaia."



Vista desde o Douro


"Segunda maior cidade de Portugal e fonte do próprio nome do país, Porto está às margens do Douro, pertinho das cantinas que produzem aquele vinho que lhe fez o nome conhecido no mundo todo. Inaugurados há pouco, lá estão os teleféricos, transportando visitantes da parte alta para as margens do rio, onde estão as cantinas, oferecendo degustações e possibilitando compras no local. Como o teor alcoólico do  vinho do porto é alto, aconselho que não se visitem muitas cantinas no mesmo dia."



Em 2019


"Caminhe muito pela cidade, não se deixe impressionar pelas subidas e descidas. Percorra os labirintos do Centro Antigo. Não tenha medo de perder-se. A Torre dos Clérigos vai guiá-los e situá- los, já que pode ser vista de quase toda a cidade - ou parta da Câmara Municipal, percorra a Avenida dos Aliados, interessante e não extensa, caminhe devagar, olhando belos prédios, e chegue até a Estação São Bento."



Paredes da Estação de Trem São Bento cobertos por 20 mil azulejos.


Há bons museus no Porto - Museu Nacional Soares dos Reis, Museu do Vinho, Museu de Arte Contemporânea, Museu dos Transportes; há muitas igrejas magníficas - Igreja da Misericórdia, Igreja de São Francisco, Igreja do Carmo, Igreja de Santa Clara; há mercados, palácios, mosteiros, jardins, praças e pontes; há bons restaurantes, hotéis e locais de entretenimento. Além de tudo isso, existem avenidas, ruas, ruazinhas e becos, onde se pode passear e entreter-se com o muito que a cidade oferece."



Beleza nos casarios

A Maratona de 2019, que contou com mais de 15 mil participantes, teve os seguintes  resultados finais: "o primeiro atleta a cruzar a linha de meta foi o etíope Deso Gelmisa aos 02:09:08, seguido pelo queniano Victor Kiplimo, com 02:10:56. O pódio masculino foi fechado pelo etíope Debele Belda, com 02:14:22. Na competição feminina, a primeira atleta a completar a maratona foi a etíope Bontu Bekele Gada, aos 02:33:38, seguida das suas congéneres Mestawot Tadesse e Genet Getaneh, com 02:39:14 e 02:40:59, respetivamente. A atleta do AD Marco, Rosa Madureira foi novamente a primeira portuguesa a pisar o tapete vermelho da chegada da maratona, às 02:49:53 de prova, ficando no 5º lugar da classificação geral feminina." In https://www.maratonadoporto.com/pt/noticias/edp-maratona-do-porto-foi-uma-grande-festa-do-desporto/


Foto a partir de Gaia

A 17a. Maratona do Porto, em 2020, já está  com data marcada. Será dia 8 de novembro, com início às 9 horas.  As informações já estão em https://www.maratonadoporto.com/pt/informacoes-2020/ . Trata-se de um evento interessante de assistir - até para pessoas que, como eu, só correm de notícias ruins e jogos de futebol.


Canso ...só de olhar! Parabéns a quem corre.



Novamente, minha  opção de reserva e hospedagem  foi no Grande Hotel de Paris, na Rua da Fábrica, 27, muito perto da avenida dos Aliados -  com mais de 140 anos,  é o mais antigo hotel , em funcionamento ainda, na cidade do Porto. Bem localizado e com boa conservação de móveis, acessórios,  pinturas, desenhos, lustres e exposição de documentos antigos, oferece excelente café da manhã, num salão de cinema. Falta-lhe o conforto dos hotéis modernos, mas tem  um charme inesquecível.http://www.hotelparis.pt


                                                         Ruas íngremes e encantadoras


                                         Porto - "Que varia e está sempre bem e é sempre a mesma." FP