sexta-feira, julho 24, 2009

Nascida a 24 de Julho...

Ao escrever esse título, lembrei-me de Nascido a 4 de Julho, excelente filme de Oliver Stone, baseado no livro autobiográfico de Ron Kovic, sobre um rapaz americano que volta paraplégico da guerra do Vietnã. Filme dolorido.Nada a ver com a data de hoje - mas tenho fixação em cinema.
Nasci , no dia 24 de julho, na Bela União dos meus antepassados. Sou a filha do meio, numa família de sete irmãos. Vivendo num lugar de difícil acesso e numa família com tantas crianças, não se costumava fazer festas de aniversário. Lembro somente de um aniversário - 7 anos talvez - qe minha mãe fez doces e eu fiquei, na saída do comedor ( comedor era o lugar onde se serviam as refeições!!!) distribuindo-os aos empregados. Senti-me muito importante naquele dia. Essa ausência de festas nunca foi frustração para mim - nenhum terapeuta precisou ocupar -se dela. Tive mais tarde, entretanto, festas fantásticas nos mais diferentes lugares e situações. Festas "surpresa", organizadas pelos meus amigos, principalmente por Rolandinho, sensibilizam-me até hoje. Festa na casa do Ronaldo e da Nica. Festa em Itaara. Festa no Afrânio. Festa , com Lidia e Gugu, à beira do lago, em Braciano. Muitas festas. Saudades de todas e de todos. Saudade do Benetti em especial . A sucessão de belas e comoventes imagens constituem a certeza de que vivi bem e intensamente.
Tive festas em Rondônia , Roraima, Salvador, Mato Grosso, Paris, Miami, Bangalore, Varkala, Roma , Kosice . Sempre recebi muitas cartas, cartões, telegramas ( antigamente era chiquésimo mandar um telegrama ou fonograma!), telefonemas, mensagens. Sempre ganhei muitos presentes também. Adoro receber presentes de aniversário e , para facilitar a escolha deles pelos meus amigos, resolvi , faz alguns anos, divulgar , com antecipação, minha lista de preferências. Já teve o aniversário em que pedi sabonetes. Outro, pedi pirex. Outro, ainda, pedi marrecos e angulistas - Sílvio e Vera me levaram seis " tô fraca" ! Nos últimos anos, passei a pedir árvores e sementes. Assim, tenho a amoreira da Odete, a macieira da Rosana , a árvore do Alfredo e o guabiju da Dirce. Árvores com história. As sementes podem ser mandadas num envelope, pelo correio, naquela forma antiga de comunicação. Ninguém está isento portanto!Nem o Dudu, que está muito longe.
Hoje também é um dia de saudade - saudade dos meus filhos, saudades dos meus netos, saudades de irmãos e sobrinhos, saudades do Ronald, saudades dos meus amigos . Talvez por essa gripe terrível, eu esteja sentindo uma nostálgica saudade - não - sei- bem- de - quê.

E, como escreveu Fernando Pessoa ,

"Ah, não há saudades mais dolorosas do que as das coisas que nunca foram!"

quarta-feira, julho 22, 2009

News




Estou em Alegrete, com uma supergripe. Tive medo de deixar um viúvo recém-casado - mas sobreviverei!






quinta-feira, julho 16, 2009

Sobre cartas e amores transatlânticos

"Meu bem-amado está muito longe, mas penso nele todos os dias,o dia todo. E pensarei nele até que o reencontre. Então não terei mais que pensar. Ele me tomará em seus braços, nossos lábios se tocarão, seremos felizes como éramos felizes e mais ainda porque nos amaremos muito. Ele está muito longe, mas ninguém se acha mais perto de mim, já que ele mora em meu coração. Ele se chama Nelson Algren."


O texto acima não foi escrito por mim - quem me dera tivesse sido eu a autora. Foi escrito por Simone de Beauvoir, no livro Cartas a Nelson Algren - Um Amor Transatlântico. Simone estava totalmente apaixonada por esse americano de Illinois, que não sabia francês e para quem ela mandou, de 1947 a 1964, centenas de cartas de amor .
Ao ler o esse texto, relembrei Fernando Pessoa, que escreveu:
"Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.
Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.
As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.
Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas."
As semelhanças nossas com o texto de Simone de Beauvoir são apenas aproximações feitas por mulheres e homens apaixonados - e que, por sorte, encontram , no texto de Pessoa, uma bela justificativa.

sábado, julho 11, 2009

Eu acredito!


"Vale a pena ser discreto?
Não sei bem se vale a pena.
O melhor é estar quieto
E ter a cara serena."
Fernando Pessoa

sábado, julho 04, 2009

Domingo na Bela União





















Levanto cedo. Deito cedo também - às vezes vejo todo o Jornal Nacional! O aroma do café torna melhor o amanhecer - imprescindível hoje que fazia muito frio e os campos mostravam sinais de que a geada fora grande . Minha primeira tarefa, entretanto, é dar comida aos gatos e cachorros. E são muitos. Depois vem o café.





















Após o café, meu irmão e eu fomos ao pomar colher frutas - laranjas e bergamotas enfeitam , com formas e cores diversas, a paisagem rural de inverno. Bem bonita essa paisagem.Chegam, mais tarde, Fabrício e Lu, nossos sobrinhos, com um grupo de amigos, todos de moto. Gente simpática. Conversamos, rimos, comemos frutas e eles retornaram à cidade.
























Aproveitei o dia para reorganizar meu quarto, desfazer e fazer malas, responder mensagens, escrever para o Ron - estou convicta de que nada substitui uma carta, com longo texto , envelope subscritado a mão, entregue por um carteiro não se sabe bem quando.
























Agora, quando a noite já começa a descer, eu penso que a paz de um dia e de um lugar como este é também celebração da vida.

domingo, junho 28, 2009

Para meus netos

Acordei hoje desejando conversar com vocês já adolescentes. Decidi, então, escrever. Embora o Pedro me diga que eu sou "quase eterna", melhor fazer um texto com antecipação. Vocês são ainda pequenos, e eu já passei dos sessenta anos. Melhor mesmo "garantir".

Somos de família amorosa. Somos naturalmente bastante afetivos. Imagino-os apaixonados. Imagino-os vivendo amores intensos. Custou-me entender algo que lhes quero contar. Ao longo da vida, vivemos grandes amores - e podemos viver muitos amores também. Algumas pessoas, como tio Daudt e a tia Maria do Carmo, podem ser o único amor um do outro, por toda a vida.

 

               Feliz deles porque vivem felizes . Outras pessoas lembram um amor passado, às vezes o primeiro amor, como o grande ou o único amor de suas vidas - eu acredito que essa crença aumenta com o tempo e com as idealizações do que não se esgotou. Outras, como eu, acreditam que o grande amor é o que estamos vivendo, não importa em que idade ou fase da vida. Tenho muito carinho pelo meu passado. Tenho muito carinho pelo Arilton, meu primeiro amor . Tenho muito carinho por todos os amores que tive ao longo de muito tempo. Todos únicos e muito especiais. Neste momento, tenho , no Ronald, o amor da minha vida. Bonito e intenso. É o amor do presente, o amor que estou vivendo. Isso é o que importa.

Meus maravilhosos meninos, vivam intensamente todos os amores: amor pelo trabalho, amor pelo conhecimento, amor pela Humanidade, amor por alguém e, acima de tudo, amor pela vida. Sim! e não esqueçam de expressar o amor por mim, que os amo tanto.


"Eu, enfim, que sou um diálogo continuo,
Um falar-alto incompreensível, alta-noite na torre,
Quando os sinos oscilam vagamente sem que mão lhes toque
E faz pena saber que há vida que viver 
amanhã.
...............................................................
Mas o fato é que sempre é outono no outono,
E o inverno vem depois fatalmente,
há só um caminho para a vida, que é a vida."
Fernando Pessoa - 1916

terça-feira, junho 23, 2009

Rumo ao Alegrete!


Hoje à noite, irei para o Brasil. Depois dos últimos acidentes aéreos, viajo com medo. Lembro-me que, no início de fevereiro deste ano, quando eu ia pela Air France para o Egito, ao iniciar o vôo sobre o oceano, houve uma forte e longa - mais de uma hora - turbulência. Tranquilizei-me ao pensar que era uma Companhia aerea segura! Deu no que deu. Quando adolescente, aprendi com Cantañeda que vive bem quem tem a morte como companheira. Esse aprendizado me fez valorizar cada momento da minha vida e da vida daqules a quem amo - e foi um bom antidepressivo também. Já escrevi tantas vezes que a vida é feita de chegadas e partidas - para mim , neste momento, conflitantes. Quero ir; gostaria de ficar. Saudades de pessoas de lá; saudades de pessoas daqui. Como diz a Neneca "tudo isso é parte da aventura de viver".

sábado, junho 20, 2009

"Cada coisa a seu tempo..."



Estou, novamente, em Atlanta.
Havia já decidido ficar alguns dias com Patati, Valéria e Massimo antes de retornar ao Brasil.
Foi difícil, entretanto, sair de Illinois porque Ronald deve ainda permanecer lá até setembro. Depois, dividiremos nosso tempo entre o Brasil e os Estados Unidos. Claro que vou continuar viajando - a única diferença é que não mais estarei sozinha. Somos os dois aposentados!


Agradeço por ter, como escreveu meu amigo Luís Alberto Sanz uma vez, "a possibilidade de introduzir novos fragmentos no mosaico da vida". Belos fragmentos agora.
Agradeço também todas as mensagens que recebi e que muito me sensibilizaram. Pretendo respondê-las logo que eu chegar em casa.
Estou tranquila, estou em paz.
Parece mesmo que:
"Cada coisa a seu tempo tem seu tempo.
Não florescem no inverno os arvoredos,
Nem pela primavera
Têm branco frio os campos."
Fernando Pessoa

sexta-feira, junho 05, 2009

Illinois


Gosto da "Terra de Lincoln", como Illinois é chamado. Fora Chicago, é um Estado predominantemente rural. É bonito viajar por suas estradas vicinais, ladeadas por terras com grandes plantaçoes ou preparadas para plantar. Encantam-me , sobretudo, o verde das árvores frondosas que me fazem pensar que, na Bela União, temos apenas arbustos. Vivo em Pana, pequena cidade perto de Springfield, onde vou seguidamente e onde tem um parque grande e belíssimo e um bairro com casas fantásticas e jardins enormes. Estou bem aqui. Sinto-me em casa.

quinta-feira, junho 04, 2009

Que assim seja!



Um dia, quando eu era muito jovem, acreditei na instituição casamento. União estável . Senso de família. Presença amorosa. Projetos comuns. Partilha cotidiana. Ética nas relações. Generosidade e gentileza nos sentimentos.

Um dia , já faz muito tempo, eu deixei de acreditar na instituição casamento. Perda sucessiva de referenciais de lealdade e afeto. Sensação de morte. Ruptura sofrida. Revolta dolorida. Vazio. Solidão aceita.

Superadas as duas fases, assumi minha solteirice. Liberdade total. Autonomia total. Solidão idem - autonomia e solidão se aproximam sempre. Maturidade bem amadurecida. Relacionamentos , ainda que efêmeros, fantásticos por si mesmos ou pela aprendizagem aportada. Embora sendo um riquíssimo período de vida, desejei modificar esse percurso. Não queria mais estar sozinha no café da manhã ou nas manhãs da vida. Milan Kundera escreveu algo semelhante a mais importante do que dormir junto é acordar junto. Eu desejava afeto e companheirismo.

Um dia, portanto, voltei a acreditar na instituição casamento - para toda a vida, considerando que esta minha vida já não será longa, ainda que eu supere as estatísticas oficiais. Desta vez, especial atenção à gentileza dos sentimentos e à fidelidade dos atos e das palavras. Projetos de -simplesmente - viver bem. Resgate do desejo de uma vida compartilhada com ânimo e encantamento. Tudo pronto. Estou feliz.
”Eu tenho uma espécie de dever, dever de sonhar, e sonhar sempre, pois sendo mais do que um espetáculo de mim mesmo, eu tenho que ter o melhor espetáculo que posso.” Fernando Pessoa