sexta-feira, abril 24, 2009

Susan Boyle

Recebi de Ronaldo, meu querido amigo, a indicação de http://www.youtube.com/watch?v=j15caPf1FRk . Já havia lido notícias sobre a performance da cantora escocesa, transformada, de imediato, em famosa, principalmente pela internet, após sua apresentação no reality show Britain's Got Talent, em Glasgow. Confio nas informações e escolhas do Ronaldo, por isso fui ao youtube conferir. Emocionou-me muito a canção e a simplicidade de Susan Boyle. A canção, do musical Os Miseráveis, tem uma letra linda e ela, uma voz fantástica. Além de contribuir com a arte, cantando magnificamente, Susan contribuiu com o debate sobre contradições e sofrimentos gerados por uma cultura obcecado pela aparência. Contribuiu , ainda, para divulgar o texto belíssimo de "Sonhei um sonho".
"Sonhei um sonho
num tempo já acabado,
quando a esperança era grande
e viver valia a pena.
Sonhei que o amor
nunca morreria.
Sonhei que Deus perdoaria.

Eu era, então, jovem e destemido
e sonhos eram feitos,
e usados e desperdiçados.
Não havia resgate a pagar,
nenhuma música sem cantar,
nenhum vinho a saborear.

Mas os tigres vêm à noite,
com suas vozes suaves
como trovão.
Eles despedaçam suas esperanças,
e transformam seu sonho em vergonha.

E ainda assim
eu sonhei que ele viria para mim,
que viveríamos os anos juntos.
Mas existem sonhos
que não se realizam
e tempestades imprevisíveis.

Eu tive um sonho
que minha vida seria
Tão diferente deste inferno
em que estou vivendo,
tão diferente do que parecia.
Agora a vida matou o sonho
que eu sonhei ."

sexta-feira, abril 17, 2009

Pedro e eu





Pedro é filho da minha filha Fabiana. Tem 9 anos. É sensível, esperto e criança. Uma criança bem informada, atualizada ...mas uma criança. Talvez aí resida seu maior encanto. Gosto muito de conversar com ele. Amoroso, muito inteligente e bem educado. Um belo menino. Está visitando nossa Bela União. Como é curioso e observador, está atento a tudo que o rodeia. Brinca bastante com Gonçalo, filho de Ígor, meu sobrinho.
Encontrou os Legos da Infância de Gugu - encantou-se com os modelos antigos desse brinquedo. Sentiu falta dos bonecos e das armas, lamentavelmente os bonecos heróis e as armas agressivas de hoje. Vejo no Pedro de hoje a infância de sua mãe e de seus tios, a infância da Fabianinha e do Fernando, a passagem expressa da minha vida. Envelheço. Para não envelhecer, entretanto, só morrendo cedo . Deus me livre (bati na madeira três vezes). Estou muito bem aqui. Tenho saúde, amor à vida, ânsia de conhecimento e , o que é mais importante, senso de humor, pois, como escreveu Ludwig Wittgenstein:
Humor não é um estado de espírito, mas uma visão de mundo.

quinta-feira, abril 16, 2009

"A vida é assim..."


Há vinte dias, retornei à Bela União dos meus antepassados. Surgiram alguns problemas. Faltou água - seca terrível. Choveu. Faltou luz. Consertaram. Tive enxaqueca - três dias com dor-de-cabeça. Passou tudo felizmente.
Trabalho muito quando estou aqui. Rotineiramente, trabalho muito.Limpar, varrer, cozinhar, lavar, regar plantas, cuidar de jardim, colher frutas, dar comida para cachorros, gatos, patos e galinhas são atividades de todos os dias, atividades dessas que , como dizia minha mãe, a gente faz,faz, faz e , no fim do dia, parece que não fez nada. Só está cansada.Penso muito e escrevo pouco. Leio e estudo. Durmo cedo e acordo cedo também. Recebo algumas visitas, como a de Luís Carlos, meu primo , e Ely, sua mãe, pessoas tão agradáveis e gentis. Sei notícias de familiares e amigos através da internet. Olho cada flor que desabrocha. Reconheço a história de cada árvore. Relembro pessoas que por aqui passaram.
Poucos fatos me tiram dessa rotina. Renovei a CNH. Estive em Santa Maria muito rapidamente. Fui jantar e almoçar com Daudt e Maria, meus amigos-irmãos. Encontrei, no almoço, amigos queridos: Adalberto e Vera, Luís Antônio e Téssia, Hugo e Carmem, Márcio, Simone, Suzana, Afrânio. Lamentei não encontrar outros tantos amigos, mas precisava voltar logo.
Nos fins-de-semana, estou com Mile, meu irmão, e Igor, Lílian, Gonçalo e Isadora, meus sobrinhos . Convívio pleno e agradável.
Sinto saudades de meus filhos, principalmente da infância deles. Sinto saudade do que poderia ter sido e não foi. Vivo um período de nostalgia e de recolhimento – talvez mudança de rota, fechamento de ciclo ou o viver simplesmente.
Bem....vou arrumar a minha mala. As passagens já estão compradas.
"O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim, esquenta e esfria, aperta e
depois afrouxa, aquieta e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem."

João Guimarães Rosa

terça-feira, abril 07, 2009

Recordações

"Momento imperceptível,
Que coisa foste, que há
Já em mim qualquer coisa
Que nunca passará?
Sei que, passados anos,
O que isto é lembrarei,
Sem saber já o que era,
Que até já o não sei.
Mas, nada só que fosse,
Fica dele um ficar

Que será suave ainda

Quando eu o não lembrar."Fernando Pessoa

Mi dispiace...!





Temos água na Bela União. Choveu 60 milímetros. Chuva forte , em alguns momentos , com granizo e ventania. E o vento fez alguns postes caírem e ficamos sem eletricidade, durante dois dias - e sem internet , é claro. Nada demais comparado com a situação de Abruzzo. Leio , com profunda tristeza, sobre o terremoto na Itália. Sei que minhas pessoas queridas, que vivem naquele país, nada sofreram diretamente. Todos nós, entretanto, sofremos com a perda e a dor de tantas pessoas e a destruição de lugares históricos. Coragem e solidariedade é o que podemos desejar e oferecer nesta hora.

sexta-feira, abril 03, 2009

O sertão nosso destes dias





















Faz já algumas semanas que não chove aqui, na Bela União. Terminou o março sem as "águas de março". As plantas mostram sinais evidentes de sofrimento - déficit hídrico, diria o Afrânio. Os gramados trocam o verde-vivo por um cinza-triste. Os campos começam a perder vitalidade e a escurecer. À noite, faz frio; durante o dia, calor. Lembro-me do sertão da Bahia - e recordo as dificuldades das gentes daquele lugar. Ontem fui à cidade buscar água potável para uso doméstico. Minha primeira leitura da manhã é a previsão do tempo, que não nos acena com chuvas para os próximos dias. Olho o céu azul - azul, sem nuvens, e a desesperança ofusca a beleza. Mas um dia vai chover, pois, como dizia "seu" Armando, desde que o mundo é mundo sempre choveu. Precisa-se de paciência.




















"Deus costuma usar a solidão
Para nos ensinar sobre a convivência.
Às vezes, usa a raiva para que possamos
Compreender o infinito valor da paz.
Outras vezes usa o tédio,
quando quer nos mostrar a importância da aventura e do abandono.
Deus costuma usar o silêncio
para nos ensinar sobre a responsabilidade do que dizemos.
Às vezes usa o cansaço, para que possamos
Compreender o valor do despertar.
Outras vezes usa a doença, quando quer
Nos mostrar a importância da saúde.
Deus costuma usar o fogo, para nos ensinar a andar sobre a água.
Às vezes, usa a terra, para que possamos
Compreender o valor do ar.
Outras vezes usa a morte, quando quer
Nos mostrar a importância da vida."

Fernando Pessoa

quinta-feira, março 26, 2009

Bela União

"Nas cidades a vida é mais pequena
Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.
Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave,
Escondem o horizonte, empurram nosso olhar para longe de todo o céu,
Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar,
E tornam-nos pobres porque a única riqueza é ver."

Fernando Pessoa

" Não me perguntes onde fica..."




















Estou em Alegrete, desde ontem. Tudo me é familiar. Vivi quase vinte anos nesta cidade. Sou do tempo em que o pão era deixado, ainda quentinho, na janela da minha casa e que o leite era entregue, na porta, pelo leiteiro. Meus filhos são alegretenses. Minha vida profissional foi iniciada aqui. Revejo alguns amigos , colegas e ex - alunos. Relembro outros amigos, presentes hoje na minha memória e saudade. Recordo muitas histórias, umas dramáticas, outras divertidas. Percorro ruas conhecidas - e lamento apenas a arquitetura alterada das antigas casas. Gosto das praças, do rio, das árvores frondosas. Gosto das lembranças que tenho daqui , gosto, por isso , do que escreveu José Bicca Larré:
"...Alegrete, patrimônio histórico há muito tombado nos anais da minha saudade e definitivamente catalogado entre os meus afetos! "

quinta-feira, março 19, 2009

Adeus, Dona Zélia.

"Aprendi com a primavera a me deixar cortar para voltar sempre inteira."
Cecília Meireles
Morreu Dona Zélia. Acompanhou a infância e a adolescência minha e de meus irmãos. Ela e o marido, seu Júlio, eram os vizinhos mais próximos da Bela União. Grande amiga de minha mãe, discreta e gentil, sempre foi considerada parte de nossa família. Quando pequena, eu adorava visitá-la. Íamos todos os pequenos, a pé ou a cavalo, passar tardes de domingo em sua casa. Ela nos recebia não como crianças, mas como verdadeiras visitas. Sentávamos na sala. Servia-nos licor de frutas, doce de leite, café com bolo ou pão caseiro. Tudo caprichosamente feito por ela. Era uma excelente cozinheira. Tudo o que fazia era cuidadosamente bem feito. Ela nos tratava com seriedade, conversava conosco, ria com discrição e elegância - assim como os meus filhos, sempre detestei pessoas que só conversam bobagens com os pequenos, que não os levam a sério. Dona Zélia era de uma fineza nata e de uma grande sensibilidade e respeito com o outro. Ela, sim, poderá dar aulas de convívio no céu e, quem sabe, de lá, ensinar muitos dos que estão na terra. Se bem que já ensinou vivendo! Saudades nossas! Saudades com gosto de infância.

quarta-feira, março 18, 2009

Nostalgia


Agra
Quando morrem pessoas da nossa geração, morre também um pouco da nossa prepotência, do excesso de importância que a gente se dá. A vida não pode ser levada a sério, quando pode terminar assim, sem aviso prévio, a qualquer momento, sem levar em conta projetos e sonhos. Tenho pensado na relevância que, historicamente, foi dada aos profetas de todo tipo. Medo do futuro, sempre tão misterioso. Necessidade de desvendá-lo antes da hora.
É difícil aceitar o imprevisível. E previsível mesmo só este exato momento.

"Vão breves passando
Os dias que tenho.
Depois de passarem
Já não os apanho."

Fernando Pessoa-1931