segunda-feira, agosto 03, 2015

"Soy de Bilbao..."


Detalhe da Catedral de Bilbao
Aprendi com Pedro e Maria Jesus, meus amigos de Bilbao, que basta expressar o desejo de ser biscayno para que assim se torne. Quem nasceu em qualquer país ou cidade, portanto, se afirmar sou de Bilbao... será. Gostei tanto da cidade e do País Basco, que parti dizendo: voltarei! sou de Bilbao.



Entrada do Teatro



     
















Comunidade Autônoma do País Basco e capital da Província de Bizkaia, com cerca de 400  mil habitantes  , situada nas proximidades da fronteira com a França, Bilbao impressiona por vários motivos, entre os quais  a localização, os museus, o traçado urbano, o porto, a proximidade com Guernica, os rios, o mar, as pontes,  a gastronomia, o bilinguismo - espanhol e basco -  e os habitantes locais , tão acolhedores e simpáticos.

Impressionante Teatro Arriaga Antzokia
A cidade está no fundo do vale formado pelos  os rios Nervión e Ibaizabal, rodeada por duas cadeias montanhosas, com altitude média não superior a 400 metros de altura. Esses rios, a partir daí, recebem o nome de Ría de Bilbao. É interessante que os rios -  nesta região e em outras - passam a chamar-se ría quando são grandes e deságuam no mar. Em alguns casos, ría corresponde a foz ou estuário.

Praça Central
Cheguei a Bilbao -  400 km de Madrid - no trem procedente de Burgos, cidade onde eu permanecera por dois dias, especialmente para ver sua famosa catedral e o monumento a El Cid Campeador. Fui , imediatamente, conquistada por El Botxo , nome carinhoso que os morados dão à cidade e que significa buraco em euskera , a língua basca.

Praça Central
É bem interessante escutar a língua basca. Sendo oficial, ela aparece escrita,  junto com a  língua espanhola, em toda a cidade,  nos pontos turísticos e nas placas informativas. Como é muito antiga e não tem origem latina - anterior, portanto,  ao período de ocupação do império romano -  é difícil para a gente entendê-la. Nas escolas, a educação é bilingue em castelhano e basco. São oferecidos currículos diferenciados de acordo com predomínio de uma ou de outra língua.

La ría de Bilbao
A cidade surgiu na Idade Média, como um povoado de ferreiros, agricultores e marinheiros. Em 1300, recebeu de Diego López de Haro, Senhor de Bizkaia, o título de Vila e a jurisdição sobre la ria, para que servisse de porto exportador de lã castelhana e porto de entrada de mercadorias estrangeiras.Em 1511, foi criado o Consulado de Bilbao, que intensificou  a exportação de lãs e tecidos, a importação de bacalhau e a fabricação de navios.

Centro histórico
Centro de Bilba

A mineração de ferro e a fundação do Banco de Bilbao - nos séculos XIX e XX - marcaram o período de forte industrialização nos setores siderúrgico, naval, químico e metalúrgico. Seu antigo porto tornou-se o maior do Mar Cantábrico. A cidade, no entanto,  tinha a fama de ser feia e desinteressante. Com o fim do ciclo do ferro, ficou também pobre. Seus habitantes, entretanto, não desanimaram e buscaram alternativas. Transformaram-na em cidade prestadora de serviços e a colocaram, com destaque , no mapa turístico da Espanha.

Calle del Perro

Antiga Estação Santander




















Além do Museu Guggenheim, Bilbao possui outros museus importantes, como o Museu de Belas Artes, o Museu Basco de Etnografia e História e o Museu Arqueológico. Realiza muitos  eventos anuais , como  o Festival Internacional de Cinema Documental e a Feira Internacional de Mostras. Mantém a Orquestra Sinfônica, a Sociedade Coral de Bilbao e a Real Academia de Língua Basca. Seu maravilhoso Teatro Arriaga -  inaugurado em  1890 - tem programação constante e atraente. Seu time de futebol esteve sempre na  primeira divisão. A cidade faz por merecer os  turistas que a visitam.

Detalhe da arquitetura do Museu

Praça Unamuno







Cidade medieval, nascida com vocação comercial, pioneira na industrialização e conservadora de suas tradições, Bilbao possui intensa, moderna e trepidante vida urbana. Percorri , com meus amigos Pedro e María Jesus, as Sietes Calles del  Casco Viejo - Sete ruas do Centro Histórico - a principal zona de animação tanto diurna quanto noturna. 

Centro  Histórico
É uma delícia caminhar pelas sete estreitas ruazinhas e por suas adjacências, com muitas construções renascentistas, barrocas, neoclássicas e modernistas. É uma delícia ver tantas cores e tanta vivacidade e tanta gente nos bares ao final  da tarde. Há  muito comércio, incluindo livrarias e galerias de arte. Muito bom caminhar aqui , embora o transporte público seja abundante e de boa qualidade - tem até um  metrô novinho. 

Modernos meios de transporte 
Penso voltar a Bilbao no próximo ano - se possível na Semana Santa , quando há intensa programação: de procissões a concertos. Se não for nessa semana, poderá ser durante as datas das Feiras Internacionais, grandiosas e com programações atraentes.  Penso também estar mais tempo na região, para visitar Santander, uma bela cidade, distante de Bilbao pouco mais de 100 km. Veremos o que nos reserva o tempo, senhor dos destinos...


Bilbao na minha coleção de portas

" A novela inacabada,
Que o meu sonho completou,
Não era de rei ou fada
Mas era de quem não sou


Para além do que dizia

Dizia eu quem não era...
A primavera floria
Sem que houvesse primavera."

Fernando Pessoa


Partindo de Bilbao. Gracias Pedro e Maria Jesus

domingo, julho 26, 2015

Agradecimento

Queridas pessoas

Gosto de fazer aniversário, embora não me agrade que esse evento seja anual - pois , assim sendo, a idade aumenta muito rapidamente.


Precioso, entretanto, é o recebimento de mensagens e telefonemas. Li cada palavra recordando quem a escrevera...o lugar onde morava...como eu a conhecera e como nossas histórias de vida se entrelaçavam. Foram belos e sensíveis momentos - agradeço-lhes muito por eles. Muito mesmo.Beijos

PS. A foto  acima, meu filho fez, no dia 24 mesmo, dia do meu aniversário, de surpresa e com o celular. Pela definição dela, não consegui  ampliá-la.

quarta-feira, julho 22, 2015

O Fantástico Museu Guggenheim de Bilbao

                                                                   

Tulipas - Jeff Koons
                                                      
A cidade basca de Bilbao possui um dos cinco museus, no mundo,  pertencentes à Fundação Salomon Robert Guggenheim. Salomon ( 1861 - 1949 ) nasceu na Filadélfia, nos Estados Unidos e foi educado em escolas públicas e privadas, tanto na sua cidade natal, quanto na Suíça, país de origem de Meyer Gugenheim, seu pai.

Puppy

O pai deixou-lhes uma grande e sólida empresa - a Guggenheim Brothers - dividida entre seus seis filhos. Os irmãos multiplicaram a herança. Salomon passou a colecionar obras de arte abstrata da década de vinte. A par disso, continuou com os trabalhos filantrópicos, que eram uma marca forte da empresa. Com o intuito de atingir um grande público e de divulgar a arte moderna, criou a Fundação Guggenheim, responsável hoje por museus mundialmente conhecidos.

Guggenheim de Bilbao visto desde o rio Nervion
Até este ano, são cinco os Museus mantidos pela Fundação, sendo o de Nova Iorque e o de Bilbao os mais famosos . Os dois exibem arte moderna e pós - moderna. O museu americano foi construído por Frank Lloyd Wright; o espanhol, por  Frank Gehry.

Outra perspectiva do Museu de Bilbao
A Fundação é reconhecida por contratar arquitetos famosos e por construir edifícios fantásticos e singulares, que fogem aos padrões já estabelecidos. Em razão dessa característica , existe uma crítica bastante divulgada de que os edifícios são mais famosos e mais conhecidos do que os trabalhos artísticos neles expostos.

Interessantes combinações...

Verdade que o Museu Guggenheim projetou Bilbao no panorama cultural  mundial e tornou-se um ícone da Espanha do século XX. A ideia de um grande museu na cidade nasceu no final dos anos 80, quando o governo basco, face aos problemas com a extração de ferro, decidiu diversificar as atividades econômicas através de uma requalificação da área portuária.  O país atravessava um momento bastante difícil com a crise da indústria siderúrgica.Era preciso abrir novos caminhos - tornar-se atraente para o turismo seria um deles.


Jeff Koons

Assim como a construção do Museu Guggenheim de Bilbao, surgiram muitos  -  e arrojados - projetos na cidade - aeroporto, metrô, ponte pedonal, centro cultural. Se o objetivo era a revitalização de Bilbao, pode-se afirmar que foi plenamente alcançado. Mais de um milhão de visitantes, no ano passado, viram a cidade e comentaram o Guggenheim - valeu para toda a região. Além de tudo isso, uma cidade que tem um povo hospitaleiro, gentil, agradável.
Puppy - Jeff Koons

Ouve-se , com frequência, um comentário brincalhão de que Puppy , imperdível pelas sua dimensão e colorido, foi o primeiro cachorro que ganhou uma grande casa antes mesmo de nascer. Com um sistema interno de manutenção do que seria um grandioso jardim, essa obra de Jeff Koons, à entrada principal do Museu, encanta adultos e crianças, especialmente pela originalidade e engenhosidade.



Esculturas na parte externa do Museu
Em 1992, a construção do Guggenheim de Bilbao foi iniciada. Foi concluída cinco anos mais tarde. Trabalharam, em conjunto, na elaboração do projeto, duas equipes, uma em Bilbao; outra, em Los Angeles. A grande dificuldade estava nos cálculos estruturais. Muitos especialistas questionaram sua execução em razão das formas bastante complexas. As discussões foram longas e complexas.

      

Contrastes


" Externamente, o museu é coberto por superfícies de titânio curvadas em vários pontos, que lembram escamas de um peixe, mostrando a influência das formas orgânicas presentes em muitos trabalhos de Gehry. Do átrio central, que tem 50 metros de altura e lembra uma flor cheia de curvas, partem passarelas para os três níveis de galerias. Visto do rio, o edifício parece ter a forma de um barco, homenageando a cidade portuária de Bilbao que teve bons anos de festa marítima"...www.guggenheim.org/bilbao

Interatividades
As exposições , neste museu, mudam frequentemente, mantendo, entretanto , a característica de terem sido feitas ao longo do século XX. Predominam as instalações artísticas, sendo as obras tradicionais de pintura e de escultura bem minoritárias. Somente a exposição de esculturas de aço, desenhadas por Richard Serra, é permanente.

Aço,cores,luzes
Impressiona e encanta a localização do museu. Está num terreno alongado, na curva do rio, ocupando os 32.500 m2 de uma antiga fábrica abandonada, O espaço interior, ocupado por exposições, tem 11.000m2. A revitalização proposta pelo Governo Basco procurou tornar o rio Nervion o foco do visual da cidade. A construção do museu nesse local foi ponto de partida para recuperação e valorização dessa área.
Proximidade com o rio Nervion

" O projeto do prédio segue o estilo de Frank Gehry. Inspirado nas formas e texturas de um peixe, pode ser considerada uma escultura, uma obra de arte em si. As formas não têm nenhuma razão geométrica ou governado por qualquer lei. O museu é essencialmente um shell que evoca o passado industrial e do porto de Bilbao vida , suas indústrias tradicionais , metalurgia e construção naval estão presentes nos materiais e formas: de titânio e aço , velas , barcos e peixes imenso ...."www.guggenheim.org/bilbao


Vista do lado oposto do rio

Construído em calcário , vidro e titânio,   foram usadas 33 mil peças de titânio, a  metade com um milímetro de espessura , cada uma com forma única de acordo com o seu lugar. Essas peças tão fina encaixam-se  perfeitamente nas curvas necessárias . O vidro usado teve um tratamento especial para deixar passar o sol, mas não o calor, e evitar que a luz natural pudesse danificar as exposições.O calcário usado , em tom ocre, veio de Granada. Foi, de fato, uma obra de arte delicada e complexa.


ludicidade e cor
Os Museus Guggenheim, especialmente os de Bilbao e Nova Iorque já foram concebidos para a função que exercem. Eles albergam obras de arte constituem motivo para visita às cidades onde se situam e - mais ainda - ilustram a filosofia da Fundação: “A Arquitectura em prol das Artes.”


Visitantes refletidos na escultura

"Por outras palavras, a ideia e um dos principais objectivos da fundação, para além de coleccionar peças de arte contemporanea e promover a sua divulgação, é fazer rodear a arte de mais arte, na forma do próprio museu." Material de divulgação do Museu


Arte que acolhe arte

sexta-feira, julho 17, 2015

Guernica : o Painel e a Cidade

Teto Atual da Casa de Las Juntas
" Gernika es el pueblo más feliz del mundo. Sus asuntos los gobierna una junta de campesinos que se reúne bajo un roble, y siempre toman las decisiones más justas."
Jean Jacques Rousseau ( 1712 - 1778 )

Maria e eu junto ao Roble Neto
Emocionou-me, repetidas vezes, a grande tela pintada a óleo, produzida, em 1937, por Pablo Picasso e hoje principal obra do Acervo do Museu Reina Sofia, em Madrid - a única que não se pode fotografar. Guernica é um painel que mede 7,82 m X 3,5 m - grandioso como arte e  contundente como documento histórico. Um doloroso repúdio à Guerra.

Tronco do Roble Filho
Embora Guernica me impressionasse muito como arte e como visão do artista em relação à Guerra Civil Espanhola, eu não a relacionava com um espaço específico, delimitado e real, onde tão horrendo massacre aconteceu. Quando cheguei a Bilbao, Norte da Espanha, no País Basco, meus queridos amigos Pedro e Maria esperavam-me com intensa e movimentada agenda, a qual incluía Guernica, a pequena e histórica cidade, reconstruida após cruel destruição.

Casa das Juntas
Transcreverei , a seguir, partes de um texto do professor Voltaire Schilling, gaúcho, nascido rm Porto Alegre. Ele  refere , nesse texto, à comunidade de Guernica, de forma clara, concisa e precisa, descrevendo-a tal como li, escutei e vi esse lugar tão impressionante. O texto completo está em http://educaterra.terra.com.br/voltaire/mundo/guernica_eta.htm

     
Jardim da Casa das Juntas em Guernica

"
" Era uma segunda-feira, dia de feira-livre na pequena cidade de Biscaia. Das redondezas chegavam às suas estreitas ruas os camponeses do vale de Guernica, no país dos bascos, trazendo seus produtos para o grande encontro semanal. A praça ainda estava bem movimentada quando, antes das cinco da tarde, os sinos começaram os seus badalos. Tratava-se de mais uma incursão aérea. Até aquele dia fatidico - 26 de abril de 1937 - Guernica só havia visto os aviões nazistas da Legião Condor passarem sobre ela em diregão a alvos mais importantes, situados mais além, em Bilbao. Mas aquela 2a. feira seria diferente......





.....A primeira leva de Heinkels-11 despejou sua bombas sobre a cidadezinha precisamente às 16h45min. Durante as 2h e 45 min seguintes os moradores viram o inferno desabar sobre eles. Estonteados e desesperados correram para os arredores do lugarejo onde mortíferas rajadas de matralhadora disparadas pelos caças os mataram aos magotes. No fim da jornada, contaram-se 1.654 mortos e 889 feridos, numa população não superior a 7 mil habitantes. Quase 40% haviam sido mortos ou atingidos.....



Prédio Público - detalhes em ferro


Na realidade a tragédia começou oito meses antes, na noite de 25 de julho de 1936, quando, entre um acorde e outro de uma ópera wagneriana, Hitler decidiu-se a apoiar Franco. Na semana anterior, o general espanhol havia sublevado o exército contra o governo republicano-esquerdista da Frente Popular. O Führer estava em Bayreuth para prestigiar o tradicional festival musical quando recebeu uma carta do caudilho. A solicitação era modesta. Tratava-se de saber se o governo nazista contribuiria com uma dezena de aviões de transporte e algumas armas. Hitler não hesitou. 



Pintura representando a Junta e o  Roble Pai





A escolha da pequena Guernica deveu-se a vários motivos. A cidade era um alvo fácil, sem proteção antiaérea, além de não ter uma população numerosa. Além disso abrigava um velho carvalho (Guernikako arbola) embaixo do qual os monarcas espanhóis ou seus legados, desde os tempos medievais, juravam respeitar as leis e costumes dos bascos, bem como as decisões da batzarraks (o conselho basco). Como o levante de Franco foi também contra a autonomia regional, a destruição de Guernica serviria como uma lição a todos os que imaginavam uma Espanha federalista ou descentralizada.   



Escudo de Guernica gravado em bloco de pedra


Assim, quando a notícia da dizimação provocada pelo bombardeamento "científico" chegou aos jornais provocou um frêmito de horror em todos os cantos do mundo. Quase todos os habitantes de cidades, em qualquer lugar do planeta, sentiram instintivamente que estavam sendo apresentados a um outro tipo de guerra, à guerra total, e que, doravante, por vezes, seria mais seguro estar-se numa trincheira no fronte, do que vivendo numa grande capital." 
Voltaire Schilling http://educaterra.terra.com.br/voltaire/mundo/guernica_eta.htm






Casa das Juntas


Percorri a pequena cidade de Guernica com profundo respeito e pesar. Olhando ruas, jardins, casas, igrejas e escolas, pensava na brutalidade de uma guerra, em que seres humanos , indefesos e desavisados, são mortos com tanta crueldade. A tentativa também foi de, exterminando as pessoas, exterminar uma forma de governar. 



Guernica é como uma cidade sagrada para os Bascos



Até hoje , reis e rainhas, ao serem corado, vão a Guernica, onde recebem o título de Senhor(a) de Viscaya e prometem manter as determinações da Junta. Tradição que se manteve, apesar da dor. Curiosamente , o aviso das reuniões da Junta era feito com cinco fogueiras, acesas em cinco altas montanha.



No vitral do teto, tradicionais casas do País Basco


As reuniões  eram realizadas embaixo de um grande roble ( carvalho ). Antes dessa primeira árvore morrer , foi transplantado um filhote dela, que , durante muitos anos, serviu de sombra e abrigo para novas reuniões. Hoje um jovem roble - um carvalho neto - cresce nas proximidades da bela Casa da Junta - casa onde há muito documentos históricos e um pequeno museu. Guernica foi uma das localidades mais impactantes que vi. Ainda não tenho condições de muito falar sobre ela. Recorro a Pablo Picasso e ao prof. Voltaire para encerrar esta postagem tão dolorida.



Principal Igreja de Guernica


".....Não era algo belo de ser visto. Picasso, para retratar o clima sombrio que envolvia o desastre, utilizou-se da cor negra, do cinza e do branco. Como nunca a máxima de Giulio Argan segundo a qual a "arte não é efusão lírica, é problema" tenha sido tão explicitada, como na composição de Picasso. O painel encontra-se dominado no alto pela luz de um olho-lâmpada - símbolo da mortífera tecnologia - seguida de duas figuras de animais. No centro um cavalo apavorado, em disparada, representa as forças irracionais da destruição. A direita dele, impassível, um perfil picassiano de um touro imóvel. Talvez seja símbolo da Espanha em guerra civil, impotente perante a destruição que a envolvia. Logo a baixo do touro, encontramos uma mãe com o filho morto no colo. Ela clama aos céus por uma intervenção. Trata-se da moderna pietá de Picasso. Uma figura masculina, geometricamente esquartejada, domina as partes inferiores. A direita, uma mulher, com seios expostos e grávida, voltada para a luz, implora pela vida, enquanto outra, incinerada, ergue inutilmente os braços para o vazio, enquanto uma casa arde em chamas. Naquele caos a tecnologia aparece esmagando a vida."



Guernica de Pablo Picasso. Museu Reina Sofia. Madrid