terça-feira, junho 04, 2013

Guimarães,cidade-berço de Portugal.


Rua com que se acessa o Centro Histórico...
Guimarães é um charme de cidade! Patrimônio Mundial pela UNESCO desde 2001, Capital Europeia da Cultura em 2012, conhecida como Berço da Nação Portuguesa, tem relevante passado histórico, em razão do papel que desempenhou , em especial,  no ano 1128, na reconquista do território ocupado pelos mouros. Num trecho da antiga muralha medieval, consta a inscrição: Aqui nasceu Portugal.

...ou se parte do Centro Histórico.

Partindo do Porto, da bonita  Estação Ferroviária de São Bento , em 1h35min, chega-se a Guimarães. Com cerca de 60 mil habitantes, situada no distrito de Braga e distante desta a apenas 26 km, é uma cidade pequena e harmoniosa, que fascina e encanta pela sua história, beleza e originalidade. Guimarães, construída sobre uma antiga cidade romana, foi escolhida por D.Afonso Henriques, o primeiro rei de Portugal,  como Capital do Reino , após sua vitória na Batalha de São Mamede, em 1128.

Centro Histórico
A cidade tem suas raízes no século X, quando a Condessa Mumadona Dias, viúva de Hermenegildo Mendes, mandou construir um mosteiro, que  deu origem à fixação de um grupo populacional ao seu redor. Para a defesa desse aglomerado, a Condessa  construiu um castelo a pouca distância, na colina, criando assim um segundo ponto de fixação. A ligação entre os dois núcleos formou a rua Santa Maria. O mosteiro tornou-se famoso santuário de peregrinação. A vila expandiu-se com a presença de crentes que vinham pagar promessas ou rezar e aí ficavam. Foi , então, construída a muralha para sua defesa. 

Parte do centro histórico de Guimarães

Posteriormente, os dois núcleos fundem-se num único, e passa a existir uma cidade intramuros. Novas igrejas,conventos e palácios são construídos , mas a estrutura básica permanecerá. Em 1853, a vila, através de ato da Rainha D. Maria II, é elevada à categoria de cidade. Lamentável que, em meio às ideias de progresso para a nova cidade, vem autorizada a destruição de grande parte das muralhas que a cercavam. Mesmo sendo abertas ruas e avenidas, felizmente houve um certo controle que fez com que o magnífico centro histórico de Guimarães fosse conservado e preservado.
Padrão do Salado, monumento épico português.
Na Praça Principal - Largo da Oliveira - encontra-se o Paço do Concelho , do século XIV, e o ( estranhíssimo) Padrão do Salado, também desse século, que  foi mandado erguer por D. Afonso I para comemorar a vitória contra os muçulmanos, na Batalha do Salado. Embora seja um monumento nacional , o Salado mais parece ruína de alguma construção ou algo incompleto. Não consegui saber o nome do autor desse projeto! Penso que ele queria mesmo ser esquecido.

Centro histórico
É realmente encantadora essa histórica cidade com suas subidas e descidas, seus labirintos de ruazinhas sinuosas, ladeadas por casas antigas, seus jardins, com muitas árvores, arbustos e flores. Deve-se caminhar, sem pressa, pela praça principal, pelo Largo da Oliveira e pelo antigo Palácio Ducal. Se houver tempo,ir ao alto de uma colina visitar o Castelo de Guimarães, construído no século X para proteger a cidade dos invasores e ampliado no século XII, passando a ser usado como arsenal e palácio. Foi nesse castelo que, segundo a lenda, nasceu Afonso Henriques, o primeiro rei de Portugal.
 
Detalhe do Palácio Ducal
Construído no século XV pelo primeiro Duque de Bragança, o Ducal exibe maravilhosos e tranquilos jardins. Parece ser um dos lugares preferidos de jovens universitários, que constituem uma boa parcela da população de Guimarães. Esteve em ruínas e foi restaurado durante a ditadura de Salazar. Está classificado como monumento nacional e é hoje usado como residência oficial do Presidente da República.

Largo da Oliveira
A igreja Nossa Senhora da Oliveira, famosa especialmente por sua ornamentada torre,  foi fundada por D. Afonso Henriques e restaurada no reinado de D. João I para comemorar a sua vitória na Batalha de Aljubarrota, em 1385. Sobre essa igreja, conta-se a lenda de que uma oliveira foi plantada à sua frente com o objetivo de retirasr dela o azeite necessário para manter acesas as lâmpadas do altar. A árvore, no entanto, murchou, foi secando e morreu.  Anos depois, um piedoso comerciante colocou,  no lugar onde estivera a oliveira, uma grande cruz - e a oliveira, então, milagrosamente,  começou a reviver, brotar e crescer. Sem diminuir o milagre, esclareça-se que a oliveira que se vê ao lado da igreja não é a original.

Estranho.....

A arquitetura das igrejas de Guimarães é imponentes e belíssima. Não me causou, no entanto,  boa impressão os santos de algumas dessas igrejas. Estão todos vestidos com roupas um pouco estranhas e usando perucas a meu ver extravagantes. Esse Jesus, por exemplo, mais parece ter saído das ruas do  bairro Haight-Ashbury de San Francisco, nos anos cinquenta/sessenta. Havia uma outra santa com roupas que me lembraram as que eu fazia para minhas bonecas de pano, quando eu era criança e morava no meio rural.

Órgão de tubos da Igreja da Oliveira

Impressionou-me a grandiosidade e sonoridade deste órgão. Abaixo dele , uma grande faixa solicitava  " Donativos para restauro do órgão de tubos desta Colegiada de Nossa Senhora da Oliveira". Com certeza, essa campanha de donativos será bem sucedida, considerando que a cidade de Guimarães Guimarães é  conhecida pelo seu patrimônio, pela paisagem inspiradora, pela capacidade empreendedora e pelo sentimento de pertença da sua população residente.

Detalhe do Museu de Alberto Sampaio

Entre os museus existentes aqui, destaca-se o Museu de Alberto Sampaio, sobre o qual José Saramago, escritor português, Prêmio Nobel da Literatura,escreveu:
" Declara já o viajante que este é um dos mais belos museus que conhece. Outros terão riqueza maior, espécies mais famosas, ornamentos de linhagem superior: o Museu de Alberto Sampaio tem um equilíbrio perfeito entre o que guarda e o envolvimento espacial e arquitetônico. Este museu merece todas as visitas, e o visitante faz jura de cá voltar de todas as vezes que em Guimarães estiver."
Presença frequente de estátuas no alto das construções

O Comité da UNESCO inscreveu o Centro Histórico de Guimarães na Lista de Bens Patrimônio Mundial, baseado nos seguintes critérios:
 a) Guimarães é de um considerável significado universal, na medida em que aqui se desenvolveram técnicas especializadas de construção de edifícios durante a Idade Média que depois foram exportadas para as colônias portuguesas, na África e no Novo Mundo, transformando-se, mesmo, em características essenciais;


 b)    A história de Guimarães está intimamente associada com o estabelecimento da identidade nacional portuguesa e da língua portuguesa no século XII; 

Aprazíveis locais de passeio
c) Guimarães, uma cidade excepcionalmente bem preservada, reflete a evolução de alguns edifícios particulares desde os tempos medievais até ao presente, com particular incidência entre os séculos XV e XIX.

Ramón e Ronald no Centro Histórico
Ramón contou-me que , ao longo dos anos, era usual , na Espanha, as noivas  virem a Guimarães comprar peças , especialmente lençois e toalhas de mesa, para os enxovais. De fato, o linho ainda é um dos produtos mais originais e mais produzidos nessa região. Como consequência, a produção de bordados é tradicional também. A delicadeza das bainhas abertas, em linho de cores pasteis,  para quem conhece e aprecia, é algo muito especial.Gostaria de ter comprado uma toalha rosa...mas ver já basta!

Não esquecendo os azulejos....
"Pouco a pouco o passado recordemos
E as histórias contadas no passado
Agora duas vezes Histórias, que nos falem
Das flores que na nossa infância ida
Com outra consciência nós colhíamos
E sob uma outra espécie
De olhar lançado ao mundo."


Fernando Pessoa

domingo, junho 02, 2013

Porto, histórica e doce cidade.

Vista da cidade a partir do Douro
Há 20 anos, fiz um bate-e-volta ao Porto. Um dia inteiro de passeios pela cidade, que me deu um conhecimento superficial e a impressão de uma cidade sem muitos atrativos e até mal cuidada. Passados 10 anos, retornei, hospedei-me na avenida dos Aliados e lá estive durante uma semana. Modifiquei a impressão anterior.


Inesquecível!

Passei a vê-la com uma beleza madura, que não salta aos olhos no primeiro momento e que precisa de tempo e aprofundamento para ser decifrada e, depois, admirada. Voltei mais uma vez e voltei, agora, pela quarta vez. Descobri, então, que a gente não se apaixona pelo Porto. Aprende a amá-lo a cada encontro e a cada vez mais. Há tanto o que ver. Comece reservando um final de tarde para ver o pôr-do-sol, a partir da Vila Nova de Gaia.

Pela beleza da paisagem, encara-se até um teleférico.

Segunda maior cidade de Portugal e fonte do próprio nome do país, Porto está às margens do Douro, pertinho das cantinas que produzem aquele vinho que lhe fez o nome conhecido no mundo todo. Inaugurados há pouco, lá estão os teleféricos, transportando visitantes da parte alta para as margens do rio, onde estão as cantinas, oferecendo degustações e possibilitando compras no local. Como o teor alcoólico do  vinho do porto é alto, aconselho que não se visitem muitas cantinas no mesmo dia.

Placidez do Douro

Caminhe muito pela cidade, não se deixe impressionar pelas subidas e descidas. Percorra os labirintos do Centro Antigo. Não tenha medo de perder-se. A Torre dos Clérigos vai guiá-los e situá- los, já que pode ser vista de quase toda a cidade - ou parta da Câmara Municipal, percorra a Avenida dos Aliados, interessante e não extensa, caminhe devagar, olhando belos prédios, e chegue até a Estação São Bento.
 
Estação de São Bento
A Estação Ferroviária de São Bento merece uma visita, mesmo que não se esteja de partida ou chegada. De inspiração francesa, ela é toda bonita e agradável. Precisa-se de tempo para ver , detalhadamente, os azulejos, em quadros imponentes, com mais de vinte mil peças no total, retratando cenas históricas do norte de Portugal. Inaugurada em 1916, a estação de São Bento transporta passageiros até Campanhã, a estação principal, ou os transporta a cidades do norte, como Barcelos, Braga e Guimarães.


Morro recoberto....

Mesmo que você não faça aqueles " três pedidos" que tradicionalmente se faz a cada igreja que se entra pela primeira vez, entre em todas elas. São fantásticos museus, às vezes bem mais bonito e informativo que muitos deles. A Igreja do Carmo, por exemplo , de arquitetura rococó e de emocionante beleza,   mostra uma das mais extraordinárias coleções de azulejos da cidade.

Riqueza barroca

Não deixe de ir até a pesada e bem protegida Catedral da Sé. Fundada no século XII, sofreu várias reconstruções - a maior delas, no século XVIII. São notáveis as madeiras do teto e os relevos folheados a ouro.  Percorra seu entorno e  deslumbre-se com as paisagens. A catedral está no alto de um morro, de onde se tem magnífica vista do rio, da cidade, de ruazinhas, de outras igrejas e de históricos casarões.

Ex-Libris do Porto

Projetada por um mestre italiano do barroco, Nicolau Nasoni, e  construída entre 1754 e 1763, a  sineira Torre dos Clérigos, toda em granito, faz parte da igreja do mesmo nome e constitui-se na porta de entrada da Cordoaria, interessante e histórico bairro do Porto. Dizem que a vista que se tem do topo da Torre é belíssima. Dizem. Eu não a vi .  Não encarei os 225 degraus, em carocol,até o final de seus 76 metros.

( www.cpf.pt )
O Centro Português de Fotografia  está localizado, na Cordoaria,  num severo e forte edifício, que já serviu como prisão, principalmente de perseguidos políticos. O cenário, no primeiro momento , parece bastante opressor, com os seus pesados portões de ferro e suas celas pequenas. Há algumas exposições,entretanto, que levezam o ambiente; outras, o espaço acresce-lhes densidade, tornando-as ainda mais intrigantes.

Jardim da Cordoaria
Lugar agradável de permanecer o tempo suficiente para descansar, pensar, ver e encantar-se, é o Jardim das Cordoarias, situado acima da avenida dos Aliados e depois da Torre dos Clérigos. Árvores frondosas, arbustos bem aparados, flores, esculturas e bancos tornam este jardim encantador. Estudantes de arte da vizinha universidade fazem ali esboços e turistas fotografam o local e os estudantes. Saindo desse sossegado espaço, parece-me ser o momento propício para ir até a Livraria Lello, na rua das Carmelitas, e encontrar, no rico edifício de 1906, um fantástico amontoado de livros novos, usados e raros.


Falha minha. Entusiasmei-me com a arte de rua, no Porto, e esqueci de fotografá-la. Em casas velhas e  abandonadas, edifícios caindo os pedaços, muros mal rebocados e portas de garagem , vi grafites de muita boa qualidade - criativos, sugestivos, nítidos e bem acabados. Torci para que essas intervenções fossem preservadas por muito tempo - ou que se tornassem um processo artístico estimulado e reconhecido não só em Portugal.

Centro histórico

Há bons museus no Porto - Museu Nacional Soares dos Reis, Museu do Vinho, Museu de Arte Contemporânea, Museu dos Transportes; há muitas igrejas magníficas - Igreja da Misericórdia, Igreja de São Francisco, Igreja do Carmo, Igreja de Santa Clara; há mercados, palácios, mosteiros, jardins, praças e pontes; há bons restaurantes, hotéis e locais de entretenimento. Além de tudo isso, existem avenidas, ruas, ruazinhas e becos, onde se pode passear e entreter-se com o muito que a cidade oferece.

Um rádio que só falta divulgar as notícias de 1877

A opção de reserva e hospedagem no Grande Hotel de Paris, na Rua da Fábrica, 27, muito perto da avenida dos Aliados, teve a ver com o desejo de vivenciar a cidade, convivendo mais com sua história e seu espírito romântico. Com 136 anos,  é o mais antigo hotel , em funcionamento ainda, na cidade do Porto. Bem localizado e com boa conservação de móveis, acessórios,  pinturas, desenhos, lustres e exposição de documentos antigos, oferece excelente café da manhã, num salão de cinema.Não tem o conforto dos hotéis modernos, mas tem todo um charme inesquecível.http://www.hotelparis.pt

Ramón C Serrano, meu amigo-irmão.
O retorno ao Porto foi muito bom. Melhor ainda foi estar com Ramón no dia de seu 72o. aniversário. A alegria da partilha é sempre uma bênção. O convívio, um tesouro. Amigo há mais de 10 anos; irmão por escolha mútua. Considero-o um padre dedicadíssimo ao seu sacerdócio - um santo moderno. Conheço a grandeza de seu trabalho e a dedicação extrema com que o faz. Estará bem onde estiver, na Espanha,na Itália, em Portugal. Fará, entretanto, e sempre, muita falta no Nordeste do Brasil.

"Que varia e está sempre bem e é sempre a mesma."
" E há poetas que são artistas
 E trabalham nos seus versos
 Como carpinteiros nas suas tábuas!

Que triste não saber florir!
Ter que pôr verso sobre verso, como quem constrói um muro
E ver se está bem, e tirar se não está!...
Quando a única casa artística é a Terra toda
Que varia e está sempre bem e é sempre a mesma."


Fernando Pessoa

terça-feira, maio 28, 2013

Istambul/Lisboa

bye,bye, Istambul.
Não exponho lista de cidades preferidas. Fazer isso é como sublinhar passagens em livros: remete-se para elas a atenção do leitor, podendo  interferir, assim,  nas suas escolhas. Não quero, entretanto, deixar de escrever que Istambul , de há muitos anos, está presente na minha lista de cidades especiais. Saio daqui já pensando em voltar.


Sabores e texturas inesquecíveis
Num voo direto pela Turkish Airlines - uma companhia aérea confortável e agradável - viajamos de Istambul a Lisboa. No aeroporto, gastei minha sobra de liras turcas comprando doces e frutas secas - deliciosos! De Lisboa , fomos direto, de trem, para o norte de Portugal, com a finalidade de visitar  Pe. Ramón, meu querido amigo-irmão , e de passar com ele seu aniversário. 

segunda-feira, maio 27, 2013

Istambul : fotos e comentários breves


Tulipas em profusão

Já estou nos Estados Unidos e, por engano, deletei o texto sobre Istambul. Sobraram-me breves anotações em papeizinhos avulsos. Decidi, entretanto, postar sobre essa fascinante cidade hoje, de modo a não interromper a sequência cronológica que venho mantendo até agora. Com base nessas anotações e na minha memória, escreverei sobre Istambul, em tópicos, a partir das fotos que felizmente não perdi e de lembranças armazenadas nesta viagem e em viagens anteriores à Turquia.



Pequena Santa Sofia


A Turquia é o sexto país mais visitado do mundo e uma das economias que mais cresce na Europa. Em matéria de turismo, é a bola da vez - e não acredito que, no caso brasileiro, este boom tenha sido determinado pela novela das oito. Desde antes, muitos brasileiros viajavam principalmente para Istambul , cidade belíssima , com muitas atrações, bons restaurantes e hotéis, paraíso de compras - e preços razoáveis em tudo. Uma vez, cheguei nessa cidade, de navio, ao amanhecer. Vi uma das imagens inesquecíveis na minha vida de andarilha : o perfil da cidade com incontáveis minaretes - a cidade tem duas mil mesquitas.Lindo mesmo.



Igreja que foi transformada em mesquita


Pela primeira vez, visitei esta igreja, construída em 527, pouco antes da outra Santa Sofia e transformada em mesquita, depois da tomada de Constantinopla, em 1453. Foi fundada pelo imperador Justiniano e pela imperatriz Teodora. É muito bonita, pequena em comparação com a outra, e parecendo não bem cuidada. Chama atenção, no entanto, pelas colunas de mármore vermelho e verde, pelos capiteis e pelos delicados frisos. Os dois santos que  nominam essa igreja foram centuriões romanos que se converteram ao cristianismo. É interessante visitá-la.



Antigo cemitério junto à Pequena Santa Sofia


Desde adolescente, gosto de cemitérios - observo arquitetura, olho esculturas, analiso fotos, leio textos. Visito-os como a um museu.  Paradoxalmente, não vou a cemitérios onde repousam pessoas que amo e que têm vida na minha memória e saudade. Neste cemitério, junto a Igreja de São Sérgio e São Baco, também conhecida como Pequena Santa Sofia, minha imaginação acelera-se. Diz-se que o tamanho dos ornamentos guardam relação com a altura dos mortos. Haveria, assim, crianças entre os adultos. Os barretes seriam  indicativos de profissão, condição social ou religiosa. Os textos, não os pude ler.



Cidade de duas mil mesquitas


Desta vez, dediquei-me, em especial,  a parte asiática de Istambul, por acreditar que  era o momento de detalhar a cidade. Pouco vi da parte europeia. Arrisco uma sugestão a quem a visita  pela primeira vez e dispõe de dois ou três dias somente. Faça um cruzeiro pelo Bósforo, visite o Palácio Topkapi, a Santa Sofia e a Mesquita Azul . Faça compras no Gran Bazar. Parta com a consciência de que conhece um pouco de Istambul e de que precisa voltar a vê-la. Se retornar, vai gostar mais ainda.



Ponte entre a parte asiática e a europeia de Istambul


O Cruzeiro pelo Bósforo é realizado, no mínimo, em quatro horas e percorre cerca de trinta km do Estreito de Bósforo, canal que liga o Mar de Mármara ao Mar Negro e que divide o lado asiático do lado europeu de Istambul. Considero esse Cruzeiro imprescindível não só porque se pode ver mansões e palácios nas margens, mas também porque, com ele,  pode-se  dimensionar melhor essa vibrante e caótica metrópole com mais de dez milhões de habitantes.



Detalhe da entrada do PalácioTopkapi



Não sei o tempo necessário para visitar todo o Palácio Topkapi. Em três visitas, não consegui visitar nem a metade dele - verdade que tenho (re)visitado alguns espaços e que , todo ele, está distribuído por 700 quilômetros quadrados.Inaugurado em 1459, residência de sultões por 400 anos, espelha o poder otomano em toda sua opulência e grandiosidade. A distribuição de pátios, residências, salões, banhos, jardins pavilhões, bibliotecas, harém e tendas lembram a antiga estrutura de acampamentos de nômades. O harém chegou a ter 700 mulheres e é um dos espaços mais ricos e bonitos. Topkapi foi aberto ao público, como museu, em 1924.



Detalhe dos magníficos jardins do Topkapi


Nesta viagem,  não visitei nem  Santa Sofia, símbolo bizantino e otomano, nem  Mesquita Azul, que tem 20 mil peças de azulejos desenhados a mão, nem  Gran Bazar. Sobre esses três lugares já há postagens aqui, no Correndomundo. Preferi visitar, minuciosamente, o Bazar das Especiarias, também conhecido como Bazar Egípcio - é sensorial, genuíno, pequeno e com menos turistas. Inesquecível passear em meio a cheiros de especiarias, cores exuberantes, formas diversas e diferentes - e ter, ainda, a possibilidade de provar doces de mel, frutas secas, azeitonas e queijos.



Doces com frutas e mel


O Bazar das Especiarias foi construído no início do século XVII, como extensão da Mesquita Nova e com a finalidade de arrecadar dinheiro para suas obras assistenciais.  É conhecido também como Bazar Egípcio por ter sido feito com recursos oriundos de impostos  pagos por importações do Egito. Especializou-se em temperos orientais, tão importantes na culinária local. A localização de Istambul sempre favoreceu a rota de comércio entre o oriente, local onde eram cultivadas a maioria das especiarias, e a Europa. Além de alimentos, podem-se comprar, nesse local, utensilios domésticos, roupas, brinquedos, plantas, perfumes e quinquilharias mil. Não resisti aos doces e frutas secas. Amarguei, depois, carregá-los. Pensava, entretanto, que presentes são atos de amor.



Detalhe das Muralhas de Teodoro


Do Mar de Mármara até o Chifre de Ouro, as Muralhas de Teodósio - fileira de muros duplos - estendem-se por  quase 7 km. Têm elas onze portões fortificados e 192 torres e serviram para proteger Constantinopla, do lado em que era terra, por mais de mil anos. Foram construídas por Teodósio II em 412-422. Resistiram a muitos ataques e só foram vencidas pelos otomanos na Tomada de Constantinopla. Pena que, em 1950, uma secção foi demolida para dar lugar a uma avenida. Para percorrê-la, penso que é melhor usar um táxi coletivo, micro-ônibus, denominado dolmus.



Palácio Dolmabahçe


Construído em 1856 pelo sultão Abdul Mecit, Dolmabahçe é um palácio barroco que ostenta suntuosidade e grandiosidade, como se quisesse disfarçar a decadência do império otomano, já em declínio no período de sua construção. Seus portões, jardins e fontes são exageradamente bonitos e podem ser fotografados pelos visitantes. Internamente, fotografias são proibidas. Lamentei não fazer fotos de uma escadaria, em formato de ferradura dupla, feita de latão e cristal Baccarat , tendo corrimão de mogno polido. Um luxo só!



Fonte do Cisne no Palácio Dolmabahçe


O Palácio só pode ser visitado em um dos dois passeios orientados e explicados por um guia do próprio local. No jardim, muitas flores, estátuas e fontes, como essa do Cisne, de rara beleza e leveza, apesar dos exageros ornamentais. Na entrada do palácio, o maior lustre que já conheci, presente da rainha Vitória ao Sultão. No dormitório, onde morreu, em 1938,  Atatürk - pai dos turcos, como ficou conhecido -  o relógio está parado às 9h5min - hora final de uma vida dedicada à modernização da Turquia.



Fortaleza da Europa vista a partir do Cruzeiro pelo Bósforo


Ainda sobre o cruzeiro pelo Bósforo, penso que o melhor mesmo é comprá-lo no hotel, pois o preço não é muito diferente de ir por conta-e- risco e ganha-se tempo na locomoção. Lembre que o trânsito de Istambul é mais do que caótico! Na Itália, costuma-se dizer que em Milano, dirige qualquer pessoa; em Roma , dirige quem dirige bem; em Napoli, dirigem os napolitanos. Pois bem, acredito que , em Istambul, dirigem os turcos... que sabem dirigir de ré, que descem e trocam sinais de trânsito e entram em ruas com sentido contrário. Chega a ser divertido.



Chifre de Ouro, visto do teleférico



Do alto de uma colina, nas proximidades de um cemitério, admiramos a magnífica vista do Chifre de Ouro - como sou gaúcha, a palavra chifre me faz tremer...mesmo que seja de ouro! Descrito como o maior porto natural do mundo, contribuiu para a riqueza e o poder de Constantinopla. Corre a lenda de que teria águas douradas porque, durante a invasão otomana, os bizantinos ricos jogaram ali muitas jóias valiosas. Para descer até o porto, pode-se usar o teleférico, que não chega a ser assustador (para mim) porque é pequena a distância percorrida.



Minha perdição foi aqui: doces e frutas secas.


Já escrevi que Istambul é excelente para compras e para o exercício da pechincha. O vendedor sempre vai oferecer por 100% do que ele gostaria de vender. Você pode oferecer 25% do valor que lhe foi dado. Vá subindo de 5 em 5 - provavelmente ele fará o mesmo ao baixar o preço. Não se stresse. Faça teatro. Dê a entender que desistiu. É provável que se consolide a compra em 50% do valor inicial : um resultado bom para os dois lados.



Estação Sirkeci


Quem costuma ler livros policiais, certamente já leu Assassinato no Expresso Oriente de Agatha Christie e já ouviu falar no Trem dos Reis ou Rei dos Trens - o Orient Express que, em 1889, começou a interligar Paris a Istambul , numa viagem de três dias e de 2900 km. A Estação Sirkeci foi contruída para receber esse famoso trem. Trabalha-se hoje na recuperação do belo prédio da estação, com portas, janelas, arcos e diferentes trabalhos de pedra, harmoniosamente distribuídas. Edifício interessante de visitar. Se não for tomar um trem para a parte europeia da Turquia...ao menos tome um café no seu bonito restaurante e pense em aventuras e aventureiros. 



Fotografei a foto de outro...

Há muito mais o que ver em Istambul - cidade linda, de gente bonita, de mescla de culturas, de cheiros, formas e cores marcantes. Tem gosto de quero mais. Quero mais é voltar! Quero ver museus e mesquitas que ainda não vi. Quero ver a Europa e a Ásia que vivem e convivem nesta parte tão bonita do mundo.


sábado, maio 25, 2013

Grécia/Turquia - viajando de ônibus

Kavala - Grécia
Em Kavala, compramos os bilhetes para o ônibus que, diariamente, faz Thessaloniki/Istambul, com paradas em Kavala, Xanthi e Alexandroupolis. Apesar de a distância não ser longa - 450 km - o ônibus demora nove horas para chegar em Istambul, porque, além das cidades, faz paradas em restaurantes e cafeterias. É confortável, com internet e monitores individuais.

Bandeira turca na alfândega
Ao passar a fronteira Grécia/Turquia, todos os passageiros descem e obtêm a permissão para entrar em território turco. Brasileiros não necessitam de visto; americanos, sim. Ronald atrasou o ônibus quinze minutos, porque precisou apresentar passaporte americano em outro  compartimento, pagar quinze dólares e , assim, obter o necessário visto.

Campos da Turquia
Os campos da Grécia e da Turquia encantam-me sempre. Olho-os incansavelmente - o que torna a viagem agradável. Chegamos a Istambul, no início da noite. Tomamos um táxi para ir da parada final ao hotel reservado.Fico insegura quando dependo de táxi sem dominar o mapa do local - e mais uma vez minha insegurança foi reforçada. De posse do endereço do hotel, mesmo bem especificado, o taxista declarou, depois de alguns minutos de corrida,  não saber onde era.Sugeri que usasse o GPS. Respondeu que estava quebrado. Levou-nos a outro hotel, onde ele demonstrou ser bem conhecido. 

Hotel Maywood
Não descemos e insistimos que ele encontrasse o hotel que reserváramos. Fez-se de tonto e repetiu o mesmo esquema num segundo hotel. Quando outra vez nos negamos a descer e falamos em pedir informações a um policial,  ele simplesmente deu uma ré, contornando uma esquina, e deixando-nos no hotel inicialmente indicado - o agradável e bem localizado Hotel Maywood, em Sultanahmet.  Paciência é fundamental em viagem. Sem stress!

Drama, a cidade das águas e das grutas.

Gruta de Alistrati

É a segunda vez que visito Drama, um município com menos de 100 mil habitantes, localizado no nordeste da Grécia, parte da Macedônia , na região de Trácia. Cidade antiga, que já fez parte dos impérios romano e bizantino, tem nos excelentes recursos hídricos uma de suas maiores belezas e uma de suas maiores riquezas. A Grécia aparece em terceiro lugar na lista de maiores fornecedores externos de mármore para o Brasil, atrás somente da Espanha e da Itália. Estão em Drama e Kavala as grandes minas de mármore, especialmente a  branca.

Águas de Drama
Os turistas são atraídos especialmente pelas fantásticas grutas de Drama. O rio Angitis corta a cidade e é parte de sua urbanização e embelezamento. Atravessa sua praça principal , formando cascatas e ilhas, e possibilitando a construção de cenários com pontes, túneis, jardins e refúgios para patos, marrecos e gansos.
Acesso para as grutas
Desta vez, em razão do crescimentos das águas do rio, não conseguimos entrar nas grutas. Sei que são belíssimas - as mais bonitas que conheço. Gostaria muito de revê-las. Valeu, entretanto, passear pelas margens do rio e rever a densa e bonita vegetação da localidade.

Telefones públicos de Drama
Drama oferece bons restaurantes, que servem tradicional comida grega. Junto ao rio , que atravessa a principal praça da cidade, entre cenários com muita água e muitas aves, há um restaurante fantástico, que serve variedade de pescados, num ambiente agradável e com atendimento perfeito.

Ronald, Alex e Gisela

A gruta principal ( Cave of Alistrati ) está localizada a 50 km de Serres, a 25 km de Drama e 55 km do Kavala. É considerada a mais bonita  e mais decorada da Grécia - acredito que é a mais surpreendente da Europa. Ali, a natureza revela o seu poder de criação de ornamentos fantásticos e de formações rochosas impressionantes.

terça-feira, maio 21, 2013

A Lidia do Zygaktis River


Paulo de Tarso
São Paulo devia gostar muito de Philippi, pois sempre que possível retornava a esse lugar. Além disso, tornou-o conhecido através de suas palavras em Epístolas. Em uma dessas epístolas, elogia os filipenses por sua fé em Jesus e por seu apoio. Paulo aconselha-os a centralizar a vida em Cristo e a estar contentes em todas as situações, ser fortes em oração e imitar com alegria o exemplo de seu Salvador.
Igreja de Santa Lídia

Perto de Philippi, está o Batistério e a Igreja de Santa Lídia, um lugar belíssimo junto ao rio Zygaktis. Conta-se que foi nesse lugar que Paulo de Tarso, o Apóstolo,  batizou, em nome de Cristo,  a primeira mulher grega e europeia, chamada Lídia, uma rica vendedora de púrpura, que vivia em Tiatira. Eram , em geral, ricos os vendedores dessa tinta bastante rara. Lídia teria sido batizada na presença de toda a sua família. O batismo de Lídia  está relatado na bíblia, no livro de Atos dos apóstolos.
Batistério junto ao Zygaktis
Os batismos eram, em geral, realizados no campo, onde estavam localizados lagos, rios, fontes ou outras  reservas naturais de água. Nesses lugares, passaram a construir batistérios, grandes edifícios com espaços externos, onde era feita a preparação  ao batismo , através de ensinamentos cristãos e confissões de fé, e espaços internos, onde estavam as fontes de água batismal.

Detalhe do interior da Igreja de Santa Lidia
A Igreja de Santa Lídia impressiona pela história e pela estética. Logo na entrada, há um mapa, em mosaico, que mostra o percurso feito por Paulo desde Istambul, percorrendo Neapolis - atual Kavala - chegando a Philippi, a Lídia e a Thessaloniki. Em todo o interior da igreja, podem ser vistos ícones belíssimos, numa arquitetura admirável. A partir de 1974, quando construções e recuperações foram concluídas, tem aumentado constantemente o número de visitantes cristãos de todo o mundo. Vale a visita, tanto do ponto de vista religioso, quanto histórico.