sexta-feira, julho 18, 2014

Nada a ver....


Desde maio último, eu queria mostrar as fotos que fiz no Festival Internacional de Balonismo, que, anualmente, acontece em Torres. Queria também mostrar um  poema lindo de Fernando Pessoa, meu poeta preferido. Juntei-os hoje nesta página... com o título de Nada a ver - as fotos e o texto, é claro.


"Na noite terrível, substância natural de todas as noite,
Na noite de insônia, substância natural de todas as minhas noites,
Relembro,velando em modorra incômoda,
Relembro o que fiz e o que podia ter feito na vida.
Relembro, e uma angústia
Espalha-se por mimcomo um frio do corpo ou um medo.


O irreparável do meu passado - esse é que é o cadáver!
Todos os outros cadáveres podem ser que sejam ilusão.
Todos os mortos pode ser que sejam vivos noutra parte.
Todos os meus próprios momentos pode ser que existam algures,
Na ilusão do espaço e do tempo,
Na falsidade do decorrer.


Mas o que eu não fui,o  que eu não fiz,o que nem sequer sonhei;
O que só agora vejo que deveria ter feito,
O que só agora claramente vejo que deveria ter sido...
Isso é que é morto para além de todos os deuses,
Isso - e é hoje talvez o melhor de mim - é que nem os deuses fazem viver...


Se em certa altura
Tivesse voltado para a esquerda em vez de para a direita;
Se em certo mpomento,
tivesse dito sim em vez de não, ou não em vez de sim;
Se em certa conversa
Tivesse dito as frases  que só agora, no meio-sono, elaboro - 
Se tudo tivesse sido assim,
Seria outro hoje, e talvez o universo inteiro
Seria insensivelmente levado a ser outro também.


Mas não virei para o lado irreparávelmente perdido,
Não virei nem pensei em virar, e só agora o percebo;
Mas não disse que não ou não disse que sim, e só agora vejo o que não disse:
Mas as frases que faltou dizer nesse momento surgem-me todas,
Claras, inevitáveis, naturais,
A conversa fechada concludentemente,
A matéria toda resolvida....
Mas só agora o que nunca foi, nem será para trás, me dói.


O que falhei deveras não tem esperança nenhuma,
Em sistema metafísico nenhum.
Pode ser que para outro mundo eu possa levar o que sonhei,
Mas poderei eu levar para outro mundo o que me esqueci de sonhar?
Esses sim, os sonhos por haver, é que são o cadáver.
Enterro-o no meu coração para sempre para todo o tempo, para todos os universos.


Nesta noite em que nao durmo, e o sossego me cerca
Como uma verdade de que não partilho,
E lá fora o luar, como a esperança que não tenho, é invisível pra mim."