quarta-feira, janeiro 08, 2014

Sobre o inesperado de uma viagem - 2a. parte



Pedro e eu fomos para o apartamento no hotel, conectamos os notes e falamos rapidamente com pessoas da familia. Vi  que chegavam muitas mensagens. Nao as li; nao havia tempo. Mile, Viviana, Rosana,Ricardo Mendes e Gugu tentavam, a distancia, ajudar de diferentes formas, contatando embaixadas - do Brasil e dos Estados Unidos - enviando-me numeros de telefone e localizando amigos e amigos de amigos que vivem na Escocia. Voltei logo para o hospital, deixando o Pedro no Hotel. 


Encontrei Ron estavel - os numeros continuavam os mesmos. Fiquei com ele, segurando-lhe a mao, que estava muito fria. Pediram-me , depois, que saisse de perto, pois iam proceder a colocacao de um cateter nno pescoco. Sai. Acompanhou-me a lembranca de ter passado exatamente por isso, na UTI de Santa Maria, quando o mesmo procedimento foi feito com o meu filho. Confiei que Ron se recuperaria, assim como meu filho se recuperou. Eu precisava de esperancas.


Aqui estou agora, esperando ser chamada para perto de Ron. Escrevo na tentativa de diminuir minha tensao, de tornar mais leve a espera e de preparar-me para todas as esperas que estao por vir. Tenho esperanca de que vamos sair dessa e e continuar vivendo , como nos 4 anos e 6 meses que estamos juntos, numa delicada e cuidadosa relacao  de amor, companheirismo, solidariedade, partilha. Uma relacao de bondade, como me diz sempre a Neneca.


Nao retornei ao hotel. Decidi ficar, durante a noite, perto do Ron. O pessoal da enfermagem improvisou um quarto para  mim, numa sala dos funcionarios. Depois da meia-noite, expliquei ao Ron que dormiria um pouco, mas que estava por perto e que, a qualquer alteracao, eu seria chamada por Paul, o enfermeiro responsavel por ele. Dormi apenas uma hora. Retornei  ao meu lugar, entre monitores e multiplos aparelhos.



Conversou comigo uma outra pessoa, talvez fosse a chefe da unidade. Aconselhou-me a avisar os filhos do Ron e demais familiares. Percebi o que significava isso. Eu ja conhecia os numeros dos monitores e sentia cada mudanca como uma ameaca. Fui orientada por medicos e enfermeiros a conversar com o Ron - segundo eles, faria bem a mim e ttalvez a ele. Conversei muito. Relembrei fatos da nossa vida. Falei das pessoas que gostavam muito dele: Mile, Fernando, Pedro, Fabianinha, Marcel, Gugu, Cleber, Fabio, Rosana, Clovis, Adriana, Neneca, Antonio Angelo, Renildo e muitos, muitos outros.


Falei de nossa combinacao de que deveriamos ser cremedos e nossas cinzas incluidas `a terra  de um pequeno morro, no meu campo , na bela Uniao. Combinaramos que sobre nossas cinzas se faria uma cruz, com pedras do proprio campo. Relembrei pessoas de Illinois, familiares e amigos.Rezei muito.Rezei como Ron sempre fazia antes das nossas refeicoes.Minha dor de cabeca aumentava. Sentia-me no limite. Pensei no Pedro, sozinho no hotel. Tentei acalmar-me. Voltei ao meu improvisado quarto e escrevi este texto, porque escrever era minha alternativa de  acalmar-me, reunir forcas e administrar minha dor. Nao consegui dormir, voltei para junto do meu marido, que nunca me deixava sozinha, ate mesmo quando eu tinha uma simples gripe.


Escrevo, novamente, por necessidade de usar a minha lingua e tentar, com ela, analisar a situacao, planificar o que preciso fazer e tomar as decisoes necessarias. Escrevo tambem para nao me sentir tao soh. Consegui organizar um esquema de conexao com familia e amigos. Pedro reune as informacoes e, pelo IPad, repassa-as a algumas pessoas...Gugu contatou Jim e Kevin , os filhos do Ron. Jim, que mora na China, telefona-me com frequencia. Esta preocupado com o pai e comigo. Pediu-me para que eu tentasse dormir um pouco.Choramos muito e externamos nossos medos - mais medo que esperanca. Jim falou com o medico responsavel pelo Ron. As noticias foram muito ruins. Jim 'e favoravel  ao desligamento das maquinas.


Andreza, gaucha de Encantado,  amiga de Viviana Neves, veio encontrar-nos no hotel. Ela mora em Edimburgo. Levou-me para comprar um celular e trouxe -me ate o hospital. Solidaria e atenciosa, ofereceu-se para nos ajudar aqui. Numa vinda para o hotel, um velho taxista, vendo-me chorar, perguntou-me o que acontecera. Contei-lhe. Ao saber que Pedro e eu estavamos sozinhos, parou o carro, escreveu num pedaco de papel os nos. de seus telefones de casa e celular. Disse-me que se eu precisasse de ajuda, telefonasse que ele e a esposa viriam nos ajudar.Choro muito quando algo assim me testemunha o quanto de bondade existe num mundo onde insistimos em enxergar apenas o ruim. Conversei com Pedro sobre  voltar ao Brasil. Ele reafirma que a prioridade  somos o Ron e eu - e esforca - se para ajudar e para cuidar de mim.


Na noite seguinte, dormi no hotel, conforme Jim me pedira. Tomei um tranquilizante e dormi durante 6 horas. Tomei cafe com Pedro e logo chamei para o Intensive Care. Disseram-me que eu fosse imediatamente para o hospital. Fui e encontrei Louise , a doce e competente enfermeira que assistia Ron. Fui informada de que ele havia piorado, estava sendo aquecido para ver se reagia. Agora rins, coracao e pulmao funcionavam com aparelhos. Perguntaram minha opiniao sobre o desligamento das maquinas que o mantinham vivo. Ja sabiam que os filhos do Ron eram favoraveis ao desligamento. Pedi um tempo para pensar e fui para junto dele.


Voltei a falar com Ron. Pedi-lhe ajuda. Ele deveria decidir sobre a vida dele. Repeti isso. Vi , pela primeira vez, uma lagrima escorrer pelo rosto dele. Mostrei para a enfermeira. Ela assegurou-me que era uma reacao mecanica, porque ele havia vomitado. Eu ainda acredito que nao. Esperava-se quem depois de aquecido, houvesse alguma reacao. Nao houve. Ele parecia muito tranquilo. Passei a falar com ele sobre o tempo em que estiveramos juntos, como o haviamos aproveitado bem, de como minha familia e meus amigos gostavam dele e de como os filhos dele gostavam de mim. Falei depois sobre nossos mortos amados:  nossos pais, os irmaos dele, a filha que ele perdera. Falei muito sobre Daniel, nosso amado Dan, pai adotivo dele e que morrera ha pouco tempo. Disse-lhe que nao sentisse medo e nem se sentisse sozinho nessa hora.


Como na Escocia so o medico pode determinar o desligamento das maquinas, informaram-me que esperariam ate o dia seguinte . Estou convencida de que temos um limite de forcas alem do limite que pensamos ter. O resto deste dia, a noite toda e ate as 11 horas da manha comprovaram-me isso. Administrei a minha dor no limite do que me foi possivel. Perguntaram a religiao do Ron e ofereceram-se para chamar um ministro protestante. Concordei. Veio um senhor e rezou pelo Ron e, mais ainda, por mim. Falei com Gugu. Ele me pediu que nao permitisse o desligamento das maquinas. Choramos muito. Expliquei-lhe que essa decisao nao era nossa. Eu seria apenas comunicada dela - como o fui na manha seguinte..........