quinta-feira, agosto 25, 2011

Reminiscências

Maturuca RR

















Organizando roupas, anotações e documentos para viajar, encontrei vários " diários de campo" , que fiz em Roraima, nos 18 anos em que lá trabalhei como assessora da Secretaria Estadual de Educação. Foram, em média, três viagens a  cada ano, tanto para Boa Vista, quanto para comunidades indígenas. Selecionei partes de alguns textos e, no próximo fim de semana, pretendo postá-los aqui. Embora antigos ( 1983 a 2000) , evidenciam uma realidade que eu gostaria de mostrar a meus netos.
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Março/1998 - Fizemos 170 km de estrada asfaltada (asfalto muito ruim!). Depois, estrada de terra - cada vez menos parecida com estrada. Na subida da Serra, está péssimo o caminho. Há também muitas queimadas. Não chove "desde o ano passado" segundo me disseram e há previsão de chuvas somente em final de abril (...) Foram 9h30 min de viagem até chegar à Maturuca. Pensei que o caminhão não ia aguentar. Está com a cabina toda furada. O motorista disse que costuma ter mais poeira dentro dele do que na estrada.Cheguei com os cabelos duros dessa poeira fininha. Nos braços, onde eu havia passado protetor solar, instalou-se uma camada de pó que parecia gesso.Como sempre , saí de Boa Vista com quatro pessoas e cheguei com mais de vinte (...) Há sempre índios querendo visitar parentes em outras comunidades, e transporte, só " carona" mesmo.
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Maturuca situa-se em um vale, cercada por serras enormes. As casas,  típicas dessa comunidade, acompanham esse " cerco" das montanhas , em harmonia com o ambiente. Verdadeira paisagem " combinada". Naquele momento e naquele lugar , a Escola parecia-me cenário de sonho: crianças, impecavelmente uniformizadas, professores e pessoas da comunidade, com seus adereços típicos,cantavam e dançavam  para me receber. Explicaram - me a canção e os movimentos.Mostrava um bando de borboletas, na beira do Rio Maú,  dançando para receber uma borboleta diferente, que voara de muito longe, para trazer-lhes alegria. Recebi presentes, chorei muito e, como sempre, lamentei nâo ter uma filmadora para registrar este momento tão " forte".
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Estou hospedada na casa de Inácio ( macuxi) , diretor da Escola, e Elínea, professora de Português e Macuxi.Eles fazem parte do primeiro grupo de professores, com que comecei a trabalhar em Educação Indígena.Têm três filhas - Margarete,Ivete e Ivanete - e  dois filhos adotados - Lázaro e Isac. Isac é Wapixana. Lázaro é Macuxi. Deito , no máximo, às 19 horas. Levanto às 05 horas.Às vezes , tenho preguiça de acompanhar os hábitos de higiene: três banhos por dia - de manhã cedo, ao meio dia e à tardinha. No mais, procuro seguir os hábitos do grupo. Vou ao rio, dou um mergulho rápido,  passo sabâo na roupa que estou vestindo, esfrego-a no corpo mesmo, mergulho, novamente, naquela água  cristalina. Repito duas vezes esse processo. Minha roupa fica limpíssima. Troco-a por uma roupa seca e estendo as roupas molhadas.


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Observo que as crianças são educadas para participar e ajudar dos trabalhos em casa e na comunidade. Vi meninos e maninas, cedo da manhã,varrendo o pátio,molhando plantas,dando comida aos " bichos", arrumando a casa,dando comida aos irmãos menores.Todos, quando tomam banho, lavam suas roupas.Ivete, de 12 anos, lava minha roupa todo o dia. Hoje, ao voltar da escola, encontrei meus tênis limpíssimos,secando. Isac, com quatro anos, virou leite acidentalmente e, sem que ninguem mandasse, foi lavar-se e limpar o chão. Vi esse mesmo menino  buscar cebola e alho para sua mãe : distinguia um do outro e questionava a necessidade de ser grande ou pequeno,perguntando: "quantas pessoas vão comer aqui em casa hoje?"
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Avó e neto macuxi

















Um outro dia, buscarei mais " Diários de Campo" e transcreverei aqui outras passagens.
Foi essa uma das experências mais ricas da minha vida. Aprendi muito mais do que ensinei. Aprendi vida;ensinei técnicas que me eram solicitadas pela escola . Agora , preciso organizar mala e mochila porque " Lá vou eu..."