quinta-feira, dezembro 20, 2012

Recife, a Veneza Brasileira

Centro histórico de Recife








































“Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar as suas próprias árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar o calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser. Que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver”
Amyr Klink




Centro histórico -  Marco Zero








































É sempre bom a Recife retornar. Sente-se , desde o aeroporto, o alto astral pernambucano. Já se disse que o recifense é , por vocação, um boêmio alegre. Penso que vai além disso. É um povo educado, determinado, lutador ...  e alegre sim. Pudera! morando numa cidade linda, que tem, por todo  lado, praias bonitas, urbanas e perfeitas para banho; paisagens tão encantadoras que lembram Veneza - tanto que é chamada de Veneza Brasileira - entrecortadas por pontes, rios e canais, que ligam um bairro a outro. Tem efervescência cultural muito própria, incluindo o frevo, que se toca e dança em todo o estado; tem conjuntos arquitetônicos imponentes que fazem lembras a frase de  Ludwig  Wittgenstein transcrita e emoldurada por Brennand:  " A arquitetura eterniza e glorifica alguma coisa. Por isso não pode haver arquitetura onde não há nada a glorificar."



Casa de Cultura - antigo presídio








































Recife, cujo nome se origina dos corais naturais presentes em seu litoral, os arrecifes, é cidade com clima agradável todo o ano, belezas naturais e quase 500 anos de história para ser mostrada e admirada. Tanto Recife quanto Olinda nasceram no período colonial e têm muitas marcas de portugueses e holandeses que as disputaram em batalhas memoráveis. Assim como os portugueses deixaram as igrejas em Olinda, os holandeses , liderados por Maurício de Nassau, marcaram o bairro do Recife Antigo, agora restaurado, colorido e sempre com muitos turistas e jovens locais.
Também  ilustres filhos da terra têm contribuído para que Recife encante seus visitantes. Um desses filhos é Francisco Brennand, que , a meu ver, sozinho já justifica uma viagem à capital de Pernambuco. 



Recife vista desde Olinda








































É importante, mas pouco conhecida no Brasil geral, o fato de que os judeus de Nova York saíram, em grande  parte, daqui, de Recife. Quando os portugueses , na sua maioria católicos,  tomaram a colônia dos holandeses, deram aos judeuso um prazo de três meses para partir ou se converter ao catolicismo. " Com medo da fogueira da Inquisição, quase todos venderam o que tinham e deixaram o Recife em 16 navios. Parte da comunidade judaica expulsa de Pernambuco fugiu para Amsterdã, e outra parte se estabeleceu em Nova York. Através deste último grupo a Ilha de Manhattan, atual centro financeiro dos Estados Unidos, conheceu grande desenvolvimento econômico; e descendentes de judeus egressos do Recife tiveram participação ativa na história dos Estados Unidos." http://pt.wikipedia.org/wiki/Pernambuco




Ronald e Suely Telma





















Minha amiga Suely Telma, que nos esperou no aeroporto  e nos acompanhou todos os dias em que estivemos entre Olinda e Recife, fez-nos a lista que transcrevo a seguir, com as visitas fundamentais e obrigatórias, especialmente para Ronald que visitava essas cidades pela primeira vez. A lista iniciava com o lugar que se constitui na minha maior paixão: a oficina e o museu de Francisco Brennand, onde se precisa estar, no mínimo, um dia inteiro - tem restaurante no local.




Mural da Igreja no Museu de Brennand























Francisco de Paula Coimbra de Almeida Brennand nasceu em 11 de junho de 1927, no Recife. Estudou em vários países europeus e especializou-se, na Itália, em cerâmica. Em 1971, na Cerâmica São João da Várzea, empresa fundada pelo seu pai, em 1917, e desativada desde 1945, instalou seu ateliê/oficina aproveitando os enormes galpões existentes e desativados. A região, denominada Várzea, está a 16 km da cidade de Recife e situa-se à beira do Rio Capibaribe, havendo exuberante mata atlântica ao seu redor. Sobre Brennand  http://www.youtube.com/watch?v=kok-JNVnWp4 http://www.youtube.com/watch?v=ewrrUKXwq94  ( ovo do Brennand )



 
Mosaico de Brennand
























Com 85 anos, Brennand, lúcido e produtivo, assistiu, neste ano de 2012, a um documentário sobre sua vida, já premiado na Mostra Internacional de Cinema  de São Paulo e dirigido por Mariana Brennand Fortes, sua sobrinha-neta. Outros cineastas já haviam filmado Brennand, um artista que gosta de cinema e que tem Antonioni, Pasolini, Tarkovski, John Madden e Buñuel como seus diretores preferidos. PS.No museu de Brennand , encontrei esses  mosaicos de peixinho, que comprei, parte deles, há 10 anos, para o painel que tenho na minha casa,em Torres.




Detalhes da oficina/museu de Brennand





















Em 2 de dezembro de 2012, numa bela entrevista ao Diário de Pernambuco, Francisco Brennand conta da semelhança de suas esculturas com estruturas primitivas , não conhecidas por ele anteriormente."São elementos formais que afloram do inconsciente mais profundo (..) Não temos só consciência da espécie, mas também do universo.É uma consciência remota que não pode ser traduzida ou interpretada com palavras. Somos o universo. O que existe em nosso corpo é o que existe no universo."



Museu de Recife





















A lista da Suely, que seguimos rigorosamente, acompanhados por ela, incluia, entre outros lugares, o Museu do Homem do Nordeste, em Casa Forte; o Museu do Estado, na Graça; a Casa de Gylberto Freire, onde comprei uma bela edição de Casa Grande e Senzala, em Apipuco; o Recife Antigo, com visita ao Centro de Artesanato; o Paço da Alfândega, onde fomos na Livraria Cultura ver as novidades - impressiona-me os títulos que constituem a lista dos mais vendidos; o Centro Cultural da Caixa, lugar belíssimo ao anoitecer; a Casa da Cultura, com amostra rica e variada do artesanato pernambucano.  



Amo cisnes!





















Desde a primeira vez que visitei Recife, impressiona-me o resultado da determinação legal de que cada edifício tenha, como propriedade sua, visível ao público,  uma obra de arte. Podem - se ver, assim,  esculturas e murais belíssimos enquanto se passeia pela cidade - uma cidade onde o metro quadrado, no centro, está entre os mais caros do Brasil.



Crianças em visita ao Museu do Homem





















Quando eu morava na Bahia, levei, algumas vezes, amigos de outros países para visitar Recife. Era sucesso garantido. Os estrangeiros encantavam-se com o ritmo, as cores, as artes, a Boa Viagem e as outras praias, a comida e o artesanato local. Nessas horas fala alto o orgulho de pertencer a um país tão grande e com tanta diversidade. Silencia-se, entretanto,  a dor da gritante desigualdade social e da miséria que ainda nos agride.












quinta-feira, dezembro 13, 2012

Olinda - OH! linda cidade...



















Maldosamente, dizem que o melhor de Olinda é a vista que se tem de Recife. Nada a ver. A cidade é bonita  e  tem vida própria. Bastante  fotogênica, exibe singular plasticidade quando vista de dentro para fora, como na foto ao lado, ou de dentro para dentro, como na foto seguinte. Com 30 anos de Patrimônio Histórico e Cultural da Humanidade, Olinda tem Arte em toda parte.




















Foi a segunda cidade brasileira a ser declarada Patrimônio, em 1982. A primeira foi Ouro Preto. Fundada em 1535, pelo português Duarte Coelho, primeiro donatário da Capitania de Pernambuco, Olinda é uma das mais antigas cidades brasileiras e certamente uma das mais bem conservadas. Localizada na região Metropolitana de Recife, com cerca de 400 mil habitantes, tem beleza natural e é importante centro turístico do nordeste.





















A  cidade tem lugares históricos encantadores, como a Catedral , o Alto da Sé, o Mosteiro de São Bento, o Convento de São Francisco, com a Igreja de Nossa Senhora das Neves, a igreja e a praça do Carmo e a Prefeitura, prédio onde,em 1829, foi iniciado o seu conhecido curso jurídico,com estudantes de todo o Brasil.  No centro histórico também, está o famoso Quatro Cantos, local onde ferve o carnaval todos os anos. Aqui nos hospedamos, na Pousada dos Quatro Cantos, num casarão lindo, entre árvores frondosas.





















Quase um terço da área total de Olinda é tombada pelo patrimônio histórico. Esse processo de  preservação  começou na década de 1930. A partir daí foram promovidas várias ações no sentido de preservar todo o patrimônio histórico, cultural e arquitetônico do município. No desce e sobe das ladeiras. encontram-se , além desse patrimônio todo, casas coloridas, frondosas árvores, lojinhas de artesanato, bons restaurantes, bares, cafeterias e fantásticas vistas, como a que se tem do Alto da Sé.























"Olinda se tornou um importante pólo econômico no fim do século XVI, fato que motivou a invasão dos holandeses. Depois da expulsão deles a cidade começou a ser reconstruída.(...) Até o início do século XX, por causa da, por assim dizer, estagnação, Olinda manteve preservada sua arquitetura. Então, as atividades culturais e o turismo começaram a se tornar relevantes, e a preservação e o tombamento dos monumentos começou a ser feito."
pt.wikipedia.org/.../Centro_Histórico_de_Ol.




"A cidade tem um traçado irregular, de influência medieval, adaptando-se de forma orgânica às curvas do terreno e sendo influenciada pela arquitetura religiosa. As torres das igrejas se destacam na paisagem da cidade. A arquitetura civil, ao contrário da religiosa, é simples perto da de outras cidades brasileiras da época. Recebeu influência da arquitetura portuguesa, como construções com sacada em pedra ou madeira, fachadas contíguas e grandes quintais, adaptada ao clima tropical do local."
pt.wikipedia.org/.../Centro_Histórico_de_Ol.























Olinda, primeira capital de Pernambuco, evidencia as heranças culturais da chamada Civilização do Açúcar. Tem muito a oferecer, além dos casarios, igrejas, conventos, mirantes, ladeiras, árvores e flores. Tem frutas doces, culinária rica , licores caseiros; tem o artesanato dos mercados, o Museu do Mamulengo, os cantos gregorianos do Mosteiro de São Bento. Tem seu conhecido carnaval ,tão rico em manifestações folclóricas, com  bonecos gigantes, clube de frevo, grupos de mascarados e ... muita alegria em suas ladeiras. Todo brasileiro deveria poder conhecer Olinda.Penso retornar logo.























PS. Dizer que os amigos são tesouros que vamos acumulando ao longo da vida, não é , na minha concepção, frase de almanaque ou discurso vazio. É certeza, é vivência, é constatação.Nada melhor para bem conhecer um lugar que conviver com amigos nesses e desses lugares. Por sorte, eu poderia fazer uma longa lista de países, estados ou cidades onde tenho amigos e com os quais muito aprendi sobre a cultura do local.























Em Olinda, mais do que amigos, tenho uma família. Muito obrigada Sebastião (in memoriam), Suely, Nezinha, Sílvio, Sanclair, Neire e Sônia pelo tanto de afeto e aprendizagens que aportaram à minha vida ao longo de muitos anos de convivência. Agradeço pelos passeios que fizemos juntos, a Caruaru, Fazenda Nova, Gravatá,  Tracunhaém,  Bezerros, João Miguel e tantos outros lugares. Agradeço pelos longos diálogos, pelas risadas, pelas comidas regionais, pelo maravilhoso convívio. A vocês, meu amor  e meu carinho.

domingo, dezembro 09, 2012

Intervalo

Jacas pernambucanas

" Bendito seja o mesmo sol de outras terras
Que faz meus irmãos todos os homens
Porque todos os homens, um momento no dia, o olham como eu,
E, nesse puro momento
Todo limpo e sensível
Regressam lacrimosamente
E com um suspiro que mal sentem
Ao homem verdadeiro e primitivo
Que via o Sol nascer e ainda o não adorava.
Porque isso é natural — mais natural
Que adorar o ouro e Deus
E a arte e a moral ..."


Fernando Pessoa




Pernambuco

Artesanato tradicional de Pernambuco



Ao digitar Pernambuco, lembrei-me que, quando comecei a lecionar,  usava essa palavra como código para dar notas - secretas - aos alunos : dez letras diferentes...de um a dez. Meu desafio era que eles chegassem  à  palavra - chave. E chegavam facilmente.




Museu do Homem em Recife


Quando  alguém fala ou escreve que " simpatiza..." sei que é verdade. Não se é  hiperbólico com palavra tão simples. Simpatizar é também de fácil compreensão - assim como seu oposto. 
Realmente, simpatizo com Pernambuco : sertão, agreste, zona da mata, região metropolitana; 
Olinda, Recife, Jaboatão, Caruaru, Petrolina, Gravatá, Tracunhaém, Fazenda Nova; 
frevo, maracatu, bolo de rolo, feijão verde, queijo coalho, inhame, mangas e goiabas.
Simpatizo sim, simpatizo com tudo.


Restaurante Parraxaxa em Recife
A cultura popular pernambucana é linda de ver e , por vezes, é surpreendente. Manifestações tradicionais estão em todo o estado, não só no carnaval, nas feiras de rua e nas festas de São João. Estão também, no cotidiano, como, por exemplo, na colocação de cascas de ovos na ponta das cercas de madeira. Usada ainda no interior, reencontrei  essa prática  no excelente reastaurante regional  Parraxaxa ( www.parraxaxa.com.br) .



Casa de Gilberto Freyre
  
Pernambuco tem cerca de 9 milhões de habitantes. Ostenta, entre aqueles que aqui nasceram, uma relação de pessoas de causar inveja a outros estados. São pernambucanos Gisberto Freyre, Nelson Rodrigues, João Cabral de Melo Neto, Mestre Vitalino, Romero Britto, Manuel Bandeira, Josué de Castro, Francisco Brennand, Luís Gonzaga e tantos outros, em áreas diversas do conhecimento e das artes. 



Os cabos externos deverão desaparecer




Está localizado no centro-leste da Nordeste e tem como limites: Paraíba,Ceará, Alagoas, Bahia e  Piauí, além de ser banhado pelo oceano Atlântico. Fernando de Noronha é parte desse estado - o que . justifica, por si só, o fluxo constante de turistas. Tem, entretanto, muito mais. Tem paisagens lindas,arquitetura e história admiráveis, cultura contagiante. Oferece passeios, com boas atrações, do litoral ao sertão. Tem Nova Jerusalém, Porto de Galinhas, Itamaracá, Maria Farinha, Lampião, Maria bonita e....bolo de rolo.




Bolo de rolo  
Bolo de rolo, que só conheço em Pernambuco, é um rocambole, com massa finíssima, em geral recheado com doce de goiaba.  Preparam-se, tradicionalmente, cinco tabuleiros de massa de pão-de-ló, que precisam ser assadas rapidamente.  Enrola-se a primeira - que resultará num rolo bem fininho - e , a seguir, a segunda, a terceira...até a última. Já o encontrei recheado com doce-de-leite. Bom mesmo é o recheio com goiaba. Acredito que nenhum visitante retorna sem bolo de rolo na bagagem.


Popular bandinha

Os holandeses permaneceram poucos anos em Pernambuco - chegaram em 1630 e foram expulsos em 1654. Deixaram , no entanto, boas recordações. Quando o conde Maurício de Nassau aqui desembarcou, estava acompanhado por uma equipe de engenheiros e arquitetos, que traçaram pontes, diques e canais. Eu me pergunto como seria esta terra hoje, que viveu historicamente movimentos separatistas, se os holandeses tivessem nela permanecido.



Muitas e variadas cerâmicas


Pernambuco investe, atualmente, em roteiros histórico-culturais descentralizados, com rotas alternativas às das praias, procurando, assim, ampliar o turismo no interior do estado. Traçou, para tanto, um plano estratégico com metas para o período de 2008 a 2020. Entre os objetivos desse plano estão a valorização das manifestações artísticas e culturais, o incentivo à construção de novos empreendimentos e a criação de produtos turísticos inovadores. Sucesso!Os pernambucanos merecem o melhor.

sexta-feira, dezembro 07, 2012

"Eu gosto de Juazeiro e adoro Petrolina ..."

Escultura da sereia no Rio São Francisco


"Na margem do São Francisco, nasceu a beleza
E a natureza ela conservou
Jesus abençoou com sua mão divina
Pra não morrer de saudade, vou voltar pra Petrolina
Do outro lado do rio tem uma cidade
Que em minha mocidade eu visitava todo dia
Atravessava a ponte ai que alegria
Chegava em Juazeiro, Juazeiro da Bahia.


Vista de Juazeiro a partir de Petrolina

Hoje eu me lembro que nos tempos de criança
   Esquisito era a carranca e o apito do trem
   Mas achava lindo quando a ponte levantava
  E o vapor passava num gostoso vai e vem.

  Petrolina , Juazeiro, Juazeiro, Petrolina
 Todas duas eu acho uma coisa linda
 Eu gosto de Juazeiro e adoro Petrolina."

Alceu Valença



Vista de Petrolina a partir de Juazeiro


Entre Juazeiro e Petrolina, corre o rio São Francisco, o Velho Chico, como é carinhosamente chamado. É um dos rios mais importantes do Brasil, com 2830 km de extensão. Nasce no município de Medeiros, em Minas Gerais, atravessa o estado da Bahia, faz a divisa desse estado com Pernambuco e a divisa natural entre Sergipe e Alagoas, desaguando, depois, no Oceano Atlântbico.

Goiabas em fazendas irrigadas com água do Velho Chico




Em seu percurso, passa por  áreas com diferentes climas, vegetações e relevos, sendo utilizado com fonte hídrica para a geração de energia em cinco usinas hidrelétricas. Percorre regiões semiáridas, com pouca chuva e afluentes , mesmo assim é perene, porque seu volume é mantido por afluentes do centro de Minas Gerais, onde as chuvas são mais frequentes. Recebe 90 afluentes  na sua margem direita  e 78, na esquerda. Tem grande importância econômica, social e cultural para a região que o recebe.



Mangas Tommy, irrigadas com água do Velho Chico
São Francisco apresenta condições de navegação em alguns trechos. Já fiz nele, a partir de Juazeiro ou de Petrolina, em barcos turísticos,  belos passeios, visitando suas ilhas e apreciando suas belas margens. Esses passeios são oferecidos durante a semana - menos aos domingos. 
Grande é a importância  socioeconômica desse rio para as cidades que o margeiam. Juazeiro e Petrolina são hoje destaque na exportação de frutas, cultivadas em fazendas irrigadas.



Centro de Juazeiro 

Juazeiro é uma cidade bem interessante.Está localizada no Vale do São Francisco, na margem direita do rio do mesmo nome. Com população ao redor de 200 mil habitantes, forma, junto com Petrolina,  o maior aglomerado urbano do semiárido. Seu interior já era percorrido por bandeirantes em 1596. Com o estabelecimento, em 1833 ,  de uma Missão Franciscana, tornou-se cidade no mesmo local onde hoje a conhecemos. 
(A foto ao lado foi retiradada internet. Não encontrei a identificação do autor ).


Produção constante de uvas

Juazeiro é também chamado de Terra das Carrancas, em razão da escultura de madeira usada nos barcos, que muitos acreditam afugentar maus espíritos. A cidade tem presença forte nas manifestações culturais populares da Bahia.
Sua grande riqueza é a agricultura irrigada, graças às águas do rio São Francisco. Petrolina e Juazeiro são os maiores produtores de frutas tropicais no país, com destaque para manga, goiaba,uva, melancia, melão, coco e banana.
Mangas de uma das duas mil mangueiras do "seu" Manuel

 



Petrolina , que tem esse nome em homenagem a D.Pedro II e sua esposa, Maria Leopoldina, é a cidade irmã de Juazeiro, localizada na margem pernambucana do rio São Francisco. Juntas, Juazeiro e Petrolina, constituem o grande pólo exportador de frutas. Distante 730 km de Recife, Petrolina tem a segunda maior população e o segundo maior PIB do interior de Pernambuco. Tem, ainda,  o maior índice de saneamento básico do nordeste e já foi apontada como uma das 20 cidades de futuro no Brasil.



Belos e fotogênicos cajueiros

Petrolina, que passou a município em 1893,  tem    hoje 300 mil habitantes, excelente rede hoteleira, um grande shopping em funcionamento e mais dois em construção. É uma cidade vibrante, com muitos executivos transitando e já com muitos turistas aparecendo. O aeroporto Senador Nilo Coelho, com oito vôos diários para Recife, Salvador e conexões, firma-se como um dos principais do Nordeste, impulsionado pela produção agrícola do Vale do São Francisco.

Plantações de uva de mesa





O aeroporto  atende a demanda de exportação de frutas da região , já que  é segundo maior de Pernambuco. Sua a pista de pouso e decolagem é a segunda maior do Nordeste e possui, ainda,  o maior terminal de cargas refrigeradas do país com seis câmaras frigoríficas, com capacidade para 17 mil caixas cada uma.




Manuel e Rogério - pessoas muito gentis conosco


Com 3.250 metros de extensão, a pista recebe grandes aviões cargueiros, com capacidade para até 110 toneladas. Tudo isso faz com que se registre , em Petrolina, constante crescimento, tanto econômico quanto populacional.
Favorecida pelo clima seco e pela irrigação com águas do São Francisco, Petrolina, além de maior exportadora de frutas, tornou-se o segundo maior centro vinícola do país, tendo já vinhos premiados internacionalmente.




As frutíferas produzem durante o ano todo
Sua agroindústria tem crescido também. Produz-se sucos, polpas e doces principalmente. Embora meu interesse prioritário sejam as  fazendas, reconheço que há, em Petrolina, muitas atrações urbanas, como o Bodódromo, centro gastronômico ao ar livre, onde servem carne de bode e carne de cordeiro, acompanhados de vinho local e pratos típicos, como macaxeira e feijão de corda; os centros de artesanato e de artes; o museu do sertão e as igrejas.



Meios de transporte...



A taxa de desemprego não é alta, há investimentos públicos em educação  e nota-se nas pessoas orgulho de pertencer a este lugar.
Os meios de transporte são variados, do  moderno ônibus ao pobre burrinho.
Rico e interessante é o folclore daqui. Gostei de escutar  as histórias do Nego d´Água, que carrega as moças bonitas para o fundo do São Francisco; da Nossa Senhora da Rapadura, que, se entrar no rio, a água ficará toda doce; da sereia, das carrancas e outras mais.   


Vista de Petrolina e Juazeiro
Nesta foto, retirada da internet, pode-se ver Juazeiro e Petrolina e , no meio da ponte, a ilha que marca a divisa entre Bahia e Pernambuco - as ilhas daqui são muitas e bem  bonitas.
O vale do São Francisco merece uma visita detalhada para se ver cachoeiras, grutas, ilhas, árvores gigantescas e essas duas cidades, acolhedoras e simpáticas, onde o desenvolvimento econômico e o desenvolvimento social andam juntos - embora o segundo caminhe com mais lentidão.
Gostaria de retornar. Recomendo visita.
"Tenho fome da extensão do tempo, e quero ser eu sem condições." Fernando Pessoa

segunda-feira, dezembro 03, 2012

Revendo o Sertão Bahia/Pernambuco

Carne de bode na Feira de Bonfim











































De Salvador para Bonfim, viajamos em ônibus da empresa Falcão Real. Executivo, confortável, passagem com preço bem razoável. Viagem tranquila.

De Bonfim para Petrolina, por causa do horário que deveríamos chegar, viajamos num pinga-pinga desses que dariam um estudo de caso a antropólogos, sociológos, linguistas...

Chorei ao afastar-me de Senhor do Bonfim. Tenho fortes ligações afetivas com a cidade . Ando muito sensível. Fim de ano talvez... talvez consciência do envelhecimento...Despeço-me das pessoas queridas e dos lugares sempre com receio de não mais tornar a vê-los.








































Chegando em Petrolina, onde nosso objetivo era ver as fazendas de frutas, fomos para o hotel Velho Chico - hotel simples, eficiente, agradável, com atendimento personalizado. Uma boa escolha. Realmente gentis, Rogério, o proprietário, e os  funcionários ajudaram-nos o tempo todo - eu havia torcido o pé logo na chegada e estava caminhando com dificuldade.

Rever o rio São Francisco é sempre uma bênção, tanto do lado de Juazeiro, quanto de Petrolina. O Velho Chico, como é chamado na aqui , dá vida ao sertão - basta ver a produção das fazendas que estão próximas a ele. 
No post seguinte, as fazendas e o rio - inseparáveis!


domingo, dezembro 02, 2012

Meu querido Senhor do Bonfim...

Peu, meu querido afilhado
Emocionei-me ao retornar a Bonfim depois de quase sete anos. Tenho boas lembranças desta região. Participei, como trabalho voluntário, durante quatro anos,  no  Instituto de Teologia e Pastoral de Bonfim -ITEPAB- da construção do projeto e da  aprovação pelo MEC, do curso Superior de Teologia e Pastoral, pertencente à Diocese. Foi trabalho e aprendizado, humano e intelectual, com pessoas inesquecíveis, coordenadas pelo Pe. Ramón Cazalas Serrano, espanhol que hoje mora em Portugal. Deixei raízes neste lugar.
Minha querida  Zoraide



Vim agora para reencontrar meus quatro afilhados - pena que somente dois ainda residem aqui. Encontro-os crescidos, bem formados, maravilhosas pessoas. Pedro Paulo, o Peu, publicou um belo livro de poesias ; Jânio está concluindo o terceiro colegial. Jantei na casa de minha amiga Zoraide, que reuniu seus familiares, meus afilhados e alguns amigos. Conversamos muito. Relembramos história vividas por nós, pelo Pe. Ramón e pelos meninos do Seminário, onde eu me hospedava quando vinha trabalhar.



Típica paisagem do semiárido
Rimos ao recordar uma Romaria da Terra, em 2004, com seis mil pessoas que percorreram, sob sol escaldante e terra seca e árida, mais de cinco quilômetros. Eu, sem experiência de sertão, sem chepéu e sem bloqueador solar, num vermelhão que tornava pálido o mais robusto camarão, passei mal e fui socorrida por uma senhora na entrada da cidade onde findava a Romária. Tinha febre, dores fortes pelo corpo e vomitava muito. Desidratação. Fui salva pela pela batida de polpa e  água do coco. Procurei fazer, naquele dia,com que o mico fosse um mico discreto. Impossível. Dormi e acordei quando a dona da casa fazia relatos do meu estado de saúde para amigos meus e curiosos.
Bode para venda na feira de Bonfim
Senhor do Bonfim , localizado no semiárido, a 360 km de Salvador e a 110 km de Juazeiro- cidade que divide Bahia e Pernambuco- tem hoje 75 mil habitantes e a segunda maior feira do Nordeste - a maior é a de Caruaru. Nos sábados, essa feira é uma festa. Pode-se, entre outras coisas, comprar frutas, verduras, legumes, flores e árvores, cerâmicas, roupas, sapatos, redes, galinhas mortas e galinhas vivas, bodes vivos e bodes em pedaços , artesanato em couro e em madeira; pode-se ouvir o genuíno forró e as músicas de Luís Gonzaga, que está completando seu centenário.

Feira de Bonfim no sábado
A história de Senhor do Bonfim está  relacionada à busca de ouro e pedras preciosas e à introdução da criação de gado no sertão baiano. Ainda no século XVI, portugueses pertencentes à Casa da Torre  organizaram expedições com destino ao rio São Francisco e às minas de ouro de Jacobina, iniciando a ocupação do interior da província e a formação de canais de comunicação com o litoral. A zona de passagem dessas expedições, com suas rancharias, possibilitou a fixação de vaqueiros, bandeirantes e desbravadores. Foi em  1750, que se estabeleceu  o núcleo que deu origem à cidade.


Na feira, esperando o dono...
Bonfim tem a maior e mais tradicional festa de São João, na Bahia. Considerada Capital do Forró, o São João  dura em torno de cinco dias ( contam que o atual prefeito perdeu a eleição porque a diminuiu para três dias ) e começa na rodoviária, onde chegam centenas de ônibus de todo o estado, e as pessoas são recebidas com música - gaita, pandeiro, triângulo e voz. A primeira vez que lá cheguei, ri sozinha, entre surpresa e encantamento com a animação. O povo amanhece - e passa o dia - dançando e cantando.


Forrozinho na feira de sábado
Senhor do Bonfim preserva características tradicionais, como trios de sanfoneiros, quadrilhas, bandas de pífanos e alvoradas juninas, quando  multidões dançam pelas ruas durante as madrugadas. Mais tradicional, entretanto , é a guerra de espadas - bambus cheios de pólvora . A guerra é realizada em área determinadas, as casas recebem proteção especial, as luzes são apagadas e as pessoas que brincam com as espadas precisam usar capacetes. Embora me dê medo, é um belo espetáculo. Por indescritível, indico um vídeo onde esse espetáculo pode ser visto:
http://www.youtube.com/watch?v=L41vOxvx-UQ
Jânio, meu afilhado, meu marido e meu compadre




Não é fácil morar no sertão. Como escreveu Euclides da Cunha, o sertanejo é, antes de tudo,um forte.
Quem nunca palmilhou a terra seca e árida dificilmente o entenderá. Paradoxalmente, é , no entanto, o povo mais doce e generoso que eu conheço. Dizem que o sol do sertão desperta a doçura das frutas e a coragem de viver. Acredito que desperta também a doçura das gentes.




Do livro Vivências e Utopias, escrito por Peu - Pedro Paulo Souza Rios - mimoso da dinda, transcrevo o poema:
Chuva no Sertão

Chuva,chuva!
Boa nova aos povos do sertão
Evangelho encarnado e experimentado.

A trovoada chegou
A natureza se põe a cantar - e canta
Melodias do tempo novo.

A pachamama suspira
O sertão refloresce em espigas de milho
Em flor de margarida
De maracujá e de mandacaru
Sinto no ar o aroma da novidade.

O jovem que em tempos passados partiu, retorna
renasce a esperança
O sertão se renova.



Na esquina
O povo declama a justiça
Encena a liberdade
e no terreiro dança o amor.

Onde reinava a opressão
Agora reina a organização
Aliança dos pobres criada e recriada
Diariamente em mutirão.