quinta-feira, agosto 13, 2009

Fernando Pessoa.

"Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.
Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.
A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera.
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.
Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado.
Ele dela é ignorado.
Ela para ele é ninguém.
Mas cada um cumpre o Destino -
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.
E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E, vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora.
E, inda tonto do que houvera,
à cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia."

sábado, agosto 08, 2009

"Festa de Babette"


Gosto de cozinhar. Não cozinho bem - nunca serei uma Marietinha, como dizia Luís Behares, ao me comparar com essa querida amiga, perfeita em tudo que fazia. Não sou chef ,mas cozinho com alegria, antecipando o prazer de quem vai experimentar o alimento que preparo. Penso que cozinhar é um exercício de generosidade, carinho e respeito com ao próximo. Tenho hoje um conhecimento acumulado , durante muitos anos, de dicas e de segredos culinários.



 Lembro-me, por exemplo, que foi Pithan quem, há mais de 30 anos, ensinou-me a fazer arroz soltinho: uma medida de arroz para cada duas medidas de água. Assim o faço até hoje. Eroni Carus me ensinou a fazer uma sopa deliciosa de cenoura e fígado de frango. Rolando, meu irmão por escolha, foi meu grande mestre: ele sabe cozinhar com perfeição e o faz com alegria.







Ada Emeri fez minha iniciação à legítima cozinha italiana, mais tarde complementada por Lidia - ela faz um risoto ao forno, com vinho branco, fantástico - por Franco e Carmela , com quem aprendi a fazer massas ótimas e por muitos outros amigos de diferentes regiões da Itália. Sônia , Cleusa e Ronaldo me ensinaram a fazer muitos pratos da comida árabe. Com a Kritika, vivenciei o uso de especiarias indianas e fiz um fantástico arroz com tamarindo . Aprendi, com Luís e Raquel, pratos divinos com fígado e uísque! Doces eu não sei fazer - mas sei admirar quem o faz bem. Ninguém faz uma torta Marta Rocha como Amélia Benetti; uma ambrosia como Maria Antônia ; uma torta de coco queimado como Edmea e uma torta de maçã como Regina Veríssimo. E Edmara faz um bolo delicioso - e não é de "caixinha"como os que eu faço.Inesquecíveis!


 
Meus filhos sabem cozinhar. Sou orgulhosa disso. Fico triste quando escuto alguém dizer que não sabe fazer nem arroz! Houve um tempo que essa era uma declaração de riqueza: sinal de que a família tivera sempre empregadas para cozinhar. Entendo-a hoje como uma declaração de dependência - uma pessoa que não sabe sequer preparar seu próprio alimento.








Ronald, mesmo depois que estávamos casados, repetia seu pedido de casamento quando eu fazia sopa de feijão branco ou risoto de vegetais, que ficam excelentes. Faz pouco, Valéria me ensinou uma salada de frango com amendoas torradas ou nozes, cujo segredo está no curry e na mostarda que se agregam à maionese. Engorda, eu sei. "Tudo o que é bom ( ...) engorda!" Mas vocês já foram convidados para uma alfaçada? Se bem que se pode descobrir o prazer de comer um belo prato de vegetais crus. Ultimamente, sirvo, nas saladas, couve-flor e brócolis crus, bem picadinhos.


Gosto de ir à Feira aos sábados, quando estou na cidade.Gosto de ir à horta, quando estou na Bela União. Gosto de cozinhas amplas. Gosto de pratos, xícaras e talheres. Gosto de pessoas por perto quando estou cozinhando. Gosto de elogios ...é claro!
Lembro de um filme dinamarquês, produzido nos anos 80, intitulado Festa de Babette, que enfocava a fé , o amor e o prazer de produzir e servir alimentos. Belíssimo. Não sou uma Babette, não sou uma Marietinha, não sou um Rolandinho.



Estou, entretanto, tentando ser uma cozinheira melhor do que sou. Rubem Alves escreveu : quem cozinha é parente próximo das bruxas e dos magos". Sou, por ora, um parente distante.

segunda-feira, julho 27, 2009

"Geada vestiu de noiva..."



Claro que já passei invernos em lugares muito mais frios que na Bela União. Eram , entretanto, lugares preparados para o frio. Nossas casas, aqui no Sul, são preparadas para outono e primavera! Faz alguns dias que "geada vestiu de noiva / os galhos da pitangueira"(1). E o frio faz-se acompanhar de tosse, febre, gripe normal, gripe de inverno, gripe suína! Revoltante! Meu corpo, nestes dias, é espaço de poder de uma gripe que nele se agarrou e não quer ir embora por nada deste mundo. Deveria chamar-se gripe senador.


Chega de lamúrias. Tive um belo fim de semana de aniversário, com agradáveis surpresas. Mile, Igor, Lilian , Gonçalo, Isadora, Clóvis, Rosana, Melina, Fábio e Renildo estavam aqui, no almoço que teve até bolo com velinhas. Ganhei muitos presentes - entre eles, um pijama de cetim da Margareth ,que foi feito por ela mesma e por suas companheiras de trabalho. Ganhei árvores e flores. Recebi cartas e cartões do Ron que chegaram justamente na manhã do dia 24, quando eu ainda estava em Alegrete. Recebi muitas mensagens e telefonemas ( Toinho, Téssia, Daudt e Maria não se manifestaram - sei que estão no exterior e espero que me tragam presentes!). Sei como é difícil me localizar , mas Maria Alzira, Rolando e outros maravilhosos amigos conseguiram. E os que esqueceram - como eu tantas vezes esqueço seus aniversários - têm o ano inteiro para redimir-se!
Hoje levantei-me às 7h30min , mas , como escreveu Fernando Pessoa,
"Tinha-me levantado cedo e tardava em preparar-me para existir."
Comecei a existir depois do café. Quando sair do computador, começarei a organizar minha bagagem. Hora de mover-me.
(1)Canção de Luís Coronel  e Marco Aurélio Vasconcellos

sexta-feira, julho 24, 2009

Nascida a 24 de Julho...

Ao escrever esse título, lembrei-me de Nascido a 4 de Julho, excelente filme de Oliver Stone, baseado no livro autobiográfico de Ron Kovic, sobre um rapaz americano que volta paraplégico da guerra do Vietnã. Filme dolorido.Nada a ver com a data de hoje - mas tenho fixação em cinema.
Nasci , no dia 24 de julho, na Bela União dos meus antepassados. Sou a filha do meio, numa família de sete irmãos. Vivendo num lugar de difícil acesso e numa família com tantas crianças, não se costumava fazer festas de aniversário. Lembro somente de um aniversário - 7 anos talvez - qe minha mãe fez doces e eu fiquei, na saída do comedor ( comedor era o lugar onde se serviam as refeições!!!) distribuindo-os aos empregados. Senti-me muito importante naquele dia. Essa ausência de festas nunca foi frustração para mim - nenhum terapeuta precisou ocupar -se dela. Tive mais tarde, entretanto, festas fantásticas nos mais diferentes lugares e situações. Festas "surpresa", organizadas pelos meus amigos, principalmente por Rolandinho, sensibilizam-me até hoje. Festa na casa do Ronaldo e da Nica. Festa em Itaara. Festa no Afrânio. Festa , com Lidia e Gugu, à beira do lago, em Braciano. Muitas festas. Saudades de todas e de todos. Saudade do Benetti em especial . A sucessão de belas e comoventes imagens constituem a certeza de que vivi bem e intensamente.
Tive festas em Rondônia , Roraima, Salvador, Mato Grosso, Paris, Miami, Bangalore, Varkala, Roma , Kosice . Sempre recebi muitas cartas, cartões, telegramas ( antigamente era chiquésimo mandar um telegrama ou fonograma!), telefonemas, mensagens. Sempre ganhei muitos presentes também. Adoro receber presentes de aniversário e , para facilitar a escolha deles pelos meus amigos, resolvi , faz alguns anos, divulgar , com antecipação, minha lista de preferências. Já teve o aniversário em que pedi sabonetes. Outro, pedi pirex. Outro, ainda, pedi marrecos e angulistas - Sílvio e Vera me levaram seis " tô fraca" ! Nos últimos anos, passei a pedir árvores e sementes. Assim, tenho a amoreira da Odete, a macieira da Rosana , a árvore do Alfredo e o guabiju da Dirce. Árvores com história. As sementes podem ser mandadas num envelope, pelo correio, naquela forma antiga de comunicação. Ninguém está isento portanto!Nem o Dudu, que está muito longe.
Hoje também é um dia de saudade - saudade dos meus filhos, saudades dos meus netos, saudades de irmãos e sobrinhos, saudades do Ronald, saudades dos meus amigos . Talvez por essa gripe terrível, eu esteja sentindo uma nostálgica saudade - não - sei- bem- de - quê.

E, como escreveu Fernando Pessoa ,

"Ah, não há saudades mais dolorosas do que as das coisas que nunca foram!"

quarta-feira, julho 22, 2009

News




Estou em Alegrete, com uma supergripe. Tive medo de deixar um viúvo recém-casado - mas sobreviverei!






quinta-feira, julho 16, 2009

Sobre cartas e amores transatlânticos

"Meu bem-amado está muito longe, mas penso nele todos os dias,o dia todo. E pensarei nele até que o reencontre. Então não terei mais que pensar. Ele me tomará em seus braços, nossos lábios se tocarão, seremos felizes como éramos felizes e mais ainda porque nos amaremos muito. Ele está muito longe, mas ninguém se acha mais perto de mim, já que ele mora em meu coração. Ele se chama Nelson Algren."


O texto acima não foi escrito por mim - quem me dera tivesse sido eu a autora. Foi escrito por Simone de Beauvoir, no livro Cartas a Nelson Algren - Um Amor Transatlântico. Simone estava totalmente apaixonada por esse americano de Illinois, que não sabia francês e para quem ela mandou, de 1947 a 1964, centenas de cartas de amor .
Ao ler o esse texto, relembrei Fernando Pessoa, que escreveu:
"Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.
Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.
As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.
Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas."
As semelhanças nossas com o texto de Simone de Beauvoir são apenas aproximações feitas por mulheres e homens apaixonados - e que, por sorte, encontram , no texto de Pessoa, uma bela justificativa.

sábado, julho 11, 2009

Eu acredito!


"Vale a pena ser discreto?
Não sei bem se vale a pena.
O melhor é estar quieto
E ter a cara serena."
Fernando Pessoa

sábado, julho 04, 2009

Domingo na Bela União





















Levanto cedo. Deito cedo também - às vezes vejo todo o Jornal Nacional! O aroma do café torna melhor o amanhecer - imprescindível hoje que fazia muito frio e os campos mostravam sinais de que a geada fora grande . Minha primeira tarefa, entretanto, é dar comida aos gatos e cachorros. E são muitos. Depois vem o café.





















Após o café, meu irmão e eu fomos ao pomar colher frutas - laranjas e bergamotas enfeitam , com formas e cores diversas, a paisagem rural de inverno. Bem bonita essa paisagem.Chegam, mais tarde, Fabrício e Lu, nossos sobrinhos, com um grupo de amigos, todos de moto. Gente simpática. Conversamos, rimos, comemos frutas e eles retornaram à cidade.
























Aproveitei o dia para reorganizar meu quarto, desfazer e fazer malas, responder mensagens, escrever para o Ron - estou convicta de que nada substitui uma carta, com longo texto , envelope subscritado a mão, entregue por um carteiro não se sabe bem quando.
























Agora, quando a noite já começa a descer, eu penso que a paz de um dia e de um lugar como este é também celebração da vida.

domingo, junho 28, 2009

Para meus netos

Acordei hoje desejando conversar com vocês já adolescentes. Decidi, então, escrever. Embora o Pedro me diga que eu sou "quase eterna", melhor fazer um texto com antecipação. Vocês são ainda pequenos, e eu já passei dos sessenta anos. Melhor mesmo "garantir".

Somos de família amorosa. Somos naturalmente bastante afetivos. Imagino-os apaixonados. Imagino-os vivendo amores intensos. Custou-me entender algo que lhes quero contar. Ao longo da vida, vivemos grandes amores - e podemos viver muitos amores também. Algumas pessoas, como tio Daudt e a tia Maria do Carmo, podem ser o único amor um do outro, por toda a vida.

 

               Feliz deles porque vivem felizes . Outras pessoas lembram um amor passado, às vezes o primeiro amor, como o grande ou o único amor de suas vidas - eu acredito que essa crença aumenta com o tempo e com as idealizações do que não se esgotou. Outras, como eu, acreditam que o grande amor é o que estamos vivendo, não importa em que idade ou fase da vida. Tenho muito carinho pelo meu passado. Tenho muito carinho pelo Arilton, meu primeiro amor . Tenho muito carinho por todos os amores que tive ao longo de muito tempo. Todos únicos e muito especiais. Neste momento, tenho , no Ronald, o amor da minha vida. Bonito e intenso. É o amor do presente, o amor que estou vivendo. Isso é o que importa.

Meus maravilhosos meninos, vivam intensamente todos os amores: amor pelo trabalho, amor pelo conhecimento, amor pela Humanidade, amor por alguém e, acima de tudo, amor pela vida. Sim! e não esqueçam de expressar o amor por mim, que os amo tanto.


"Eu, enfim, que sou um diálogo continuo,
Um falar-alto incompreensível, alta-noite na torre,
Quando os sinos oscilam vagamente sem que mão lhes toque
E faz pena saber que há vida que viver 
amanhã.
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Mas o fato é que sempre é outono no outono,
E o inverno vem depois fatalmente,
há só um caminho para a vida, que é a vida."
Fernando Pessoa - 1916

terça-feira, junho 23, 2009

Rumo ao Alegrete!


Hoje à noite, irei para o Brasil. Depois dos últimos acidentes aéreos, viajo com medo. Lembro-me que, no início de fevereiro deste ano, quando eu ia pela Air France para o Egito, ao iniciar o vôo sobre o oceano, houve uma forte e longa - mais de uma hora - turbulência. Tranquilizei-me ao pensar que era uma Companhia aerea segura! Deu no que deu. Quando adolescente, aprendi com Cantañeda que vive bem quem tem a morte como companheira. Esse aprendizado me fez valorizar cada momento da minha vida e da vida daqules a quem amo - e foi um bom antidepressivo também. Já escrevi tantas vezes que a vida é feita de chegadas e partidas - para mim , neste momento, conflitantes. Quero ir; gostaria de ficar. Saudades de pessoas de lá; saudades de pessoas daqui. Como diz a Neneca "tudo isso é parte da aventura de viver".