sábado, setembro 13, 2014

Ouro Preto, visita recomendada sempre (texto sem revisao)


Igrejas-museus

Estivemos, Zeli, minha irmã, e eu, durante três dias em Ouro Preto, bela e histórica cidade mineira. Tempo insuficiente para todos os olhares que a cidade proporciona...e merece. Para convencer-me de que conheço um sítio histórico, preciso também conhecer - ao menos um pouco - de seu entorno. Gosto de saber o rumo que a cidade tomou ao longo do tempo, para onde cresceu, como se desenvolveu...ou não, como foi seu processo de migração. A curiosidade me torna ansiosa. As perguntas surgem e, para a maioria delas, não tenho respostas.


Ouro Preto está declarada pela UNESCO como Patrimônio Histórico da Humanidade. É a mais famosa das cidades coloniais mineiras, embora eu tenha escutado que Diamantina -  que também é  parte da lista da UNESCO - está mais bem preservada e cuidada. Essas duas , juntamente com Tiradentes, Mariana, Congonhas e São João del-Rei abrigam as melhores construções eclesiásticas, bem como o melhor entalhe barroco do Brasil.
 

O registro de Ouro preto como vila, iniciou-se   em 1698, com a chegada do bandeirante Antônio Dias, que ficou enlouquecido ao ver as pepitas de ouro escuro, facilmente encontradas nas minas em torno do vilarejo. Daí a origem de seu nome. Cresceu rápido - a ganância pelo ouro é antiga e chama muita gente. Em 1711, o povoado foi elevado à categoria de vila - com o nome de Vila Rica. Em 1823, tornou-se cidade, com o nome de Ouro Preto.  Prosperou, enriqueceu e demonstrou isso com o luxo e a beleza de suas  construções.


Entre 1721 e 1897, foi a capital de Minas Gerais.Construída entre montanhas, é óbvio que com  descidas e subidas, ruas íngremes e confusas, nos primeiros passeios a gente se sente espacialmente confusa, mas, pouco a pouco, vai -se acostumando ao traçado e descobrindo verdadeiras joias arquitetônicas, como as casas do século XVII, os chafarizes e as igrejas. O centro histórico está bem conservado e cuidado, incluindo o calçamento das ruas, as fontes e a iluminação.


Pelo número e bela suntuosidade das igrejas, pode-se pensar no quanto de ouro e dinheiro rolou por ali. A riqueza precisou de artistas também. Precisava-se, além da opulência, de bons artistas e bons artesãos para que a beleza fosse inigualável e de forte presença. Ouro Preto revelou ao mundo figuras extraordinárias como o pintor eclesiástico Mestre Athayde e o grande escultor Aleijadinho.

 Trabalhos em crochê preservavam a intimidade das casas
A Inconfidência Mineira, liderada por Tiradentes - Joaquim José da Silva Xavier - teve sua base em Ouro Preto. Hoje , a  praça principal da cidade chama-se Praça Tiradentes e está localizada no antigo Morro de Santa Quitéria. Ali está o Museu da Inconfidência , que já foi prédio público da Coroa, Palácio dos Governadores, Câmara e até cadeia. No centro da praça, está o monumento a Tiradentes, no mesmo lugar em que foi colocada sua cabeça - ele foi o único rebelde contra os colonizadores portugueses a ser executado.

Monumento a Tiradentes
Tive um diálogo interessante com um taxista ao indicar-lhe o caminho da pousada onde estávamos. Como não lembrei o endereço, tentei fornecer-lhe indicações do local. Falei que era uma descida depois de uma subida forte. Ele me respondeu que, em Ouro Preto, essa era a indicação de qualquer lugar...Acrescentei que estava próxima a uma grande igreja...Ele acrescentou que era, portanto , como todas as outras pousadas...Felizmente lembrei que era próxima a um museu, restringindo,assim, o número delas. Por sorte, lembrei-me o nome - com a ajuda de minha irmã. Digamos que eu estava tonta de tanta beleza.

Ao fundo, Igreja de São Francisco de Assis

A Igreja de São Francisco de Assis ( 1766-1802 ) é a obra-prima de dois grandes mestres do Barroco: Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, e Manoel da Costa Athayde. É uma das mais importantes do rococó latino-americano e talvez a que conjugue a maior harmonia no trabalho desses dois grandes artistas. Na frente dessa igreja, está localizada uma grande feira de artesanato, com o predomínio de objetos feitos em pedra-sabão - peças lindas, preços convidativos e boa oportunidade de pagar pecados... carregando-as.

Ladeiras
Famoso pelo número de peças que esculpiu e pela qualidade de seu trabalho, Aleijadinho ( 1738-1815 ) sofreu terríveis deformações em consequência da lepra que o atingiu. Conta-se que, quando ele esculpiu as estátuas de Bom Jesus de Matosinhos, não conseguia mais caminhar e havia perdido totalmente o movimento das mãos.Continuava, no entanto , a trabalhar, com a ajuda de seus discípulos que o carregavam morro acima e amarravam martelos e cinzeis às suas mãos. Há lugares quer preservam materiais do Aleijadinho, como o Museu Arquidiocesano de Arte Sacra. Lamentavelmente, estão proibidas as fotografias, mesmo sem flash, na maioria dos espaços internos.


Além da Igreja de São Francisco de Assis, cujo teto impressiona pela sua leveza e grandiosidade, visite a Matriz de Nossa Senhora do Pilar, que, para sua construção, foi usada quase meia tonelada de ouro e mais meia tonelada de prata. Na Matriz de Nossa Senhora da Conceição, foram enterrados Aleijadinho e seu pai, Manoel Francisco Lisboa , arquiteto e mestre de obras.Na Igreja de Nossa Senhora do Carmo, há uma fonte rococó belíssima e uma estátua de Santa Helena, obra de Aleijadinho também. Sem exagero, há tantas igrejas em Ouro preto que, se você for fazer os tradicionais três pedidos em cada uma delas....vai precisar de uns três dias...
Saudades de Alegrete......
Assistimos, inicialmente em Ouro Preto e, posteriormente, em Mariana, as festividades alusivas à Independência do Brasil. O cenário contribuía para a beleza do evento. Uma simples banda escolar, frente a um solar, sobrado ou igreja, comovia pelo conjunto que formava. Como gosto muito de cavalos, encantei-me com o desfile dos (poucos) cavaleiros, usando apeiros e trajes tão diferentes do sul. Realmente diversidade e diferença é riqueza cultural de qualquer país.

.....comemorações do Sete de Setembro.
As igrejas são realmente fabulosas, mas há outros lugares que merecem uma visita, como a Casa dosContos, antiga fundição de ouro, hoje local de exposição de mobiliário dos séculos XVIII e XIX; o Museuda Inconfidência, na Praça Tiradentes, onde está a estátua de Tiradentes; o Teatro Municipal, antiga Casa da Ópera; e a Rua Direita, por onde caminham - deslumbrados - turistas e viajantes brasileiros e estrangeiros.


Há muito o que contar de Ouro Preto e das demais cidades históricas mineiras. O intervalo entre a viagem a Minas e a viagem seguinte, entretanto,  foi pequeno - menos de uma semana. Embora quebrando a cronologia, ao retornar da Europa, em outubro, continuarei escrevendo sobre a bela Minas Gerais. Agradeço a Zeli, minha irmã caçula, a alegria compartilhada nesta viagem mineira e maneira. Sem o estímulo dela, eu não teria ido - e não teria (re)visto tanta grandiosidade e beleza, que nos remete a um período histórico riquíssimo. Brigadim, Zeli!


Minha irmã Zeli
"Que lindo dia o que vemos!
Mas, como estes tempos vão,
É bom que não confiemos....
É melhor dizer que temos,
Não um dia de verão,
Mas um dia de veremos."

Fernando Pessoa