quinta-feira, março 13, 2008

" Antes tarde..."

Fotografei esta flor de tuna , tão agreste e tão feminina, para, no Dia Internacional da Mulher, oferecê-la às minhas amigas.
Esqueci de postá-la. Talvez eu tenha resistência aos dias de /do/da... Quero mesmo é justiça e alegria de viver para todas as pessoas, independente de datas especiais, de gênero, de raças, de etnias...
Entretanto, através de Cristina Wernz, menina linda que foi minha aluna, reencontro o poema de Adélia Prado e decido oferecê-los , poema e flor, às amigas - mulheres que vivem dupla jornada, jornada intensa, busca de jornadas novas ou de compreensão de jornadas velhas , muitas vezes com " cansaço histórico " , mas, ainda assim, com ânimo e encantamento!
Com licença poética
Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta,
anunciou:vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza
e ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo.
Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou."
In Adélia Prado, Poesia Reunida Siciliano, São Paulo, 1991.