quarta-feira, abril 20, 2016

Correndomundo : agradecimento


Portland - Oregon - Festival das Rosas


Correndomundo completou 10 anos no dia 16 de abril. Hora dos agradecimentos. A existência dele , devo-a a meu filho Juliano Menini Trindade, pois foi ele que me incentivou a escrever e me ensinou como fazer um blog - ainda não muito popularizados em 2006. Agradeço também a minha sobrinha, Fabiana Menine, autora do primeiro layout, e até hoje preocupada em fazer uma cópia para garantira permanência de meus textos e fotos. Havia pensado em nomear muitas pessoas, companheiras constantes nas viagens, através de seus comentários e observações. Desisti porque, depois do grande show do Congresso Nacional , no último domingo,  fiquei desolada e  traumatizada com  referências,  dedicatórias e agradecimentos. Prefiro deixar aos pacientes leitores um poema  de Fernando Pessoa,  a promessa de que , um dia, transformarei o Correndomundo num pequeno livro e ....muitas rosas.  Obrigada, pessoas queridas.  



Portland , Oregon

Reticências

Arrumar a vida,pôr prateleiras na vontade e na ação.
Quero fazer isto agora, como sempre quis, com o mesmo resultado;
Mas que bom ter o propósito claro, firme só na clareza, de fazer qualquer coisa!

Vou fazer as malas para o Definitivo,
Organizar Álvaro de Campos,
E amanhã ficar na mesma coisa que antes de ontem - um antes de ontem que é sempre...
Sorrio do conhecimento antecipado da coisa-nenhuma que serei.
Sorrio ao menos; sempre é alguma coisa o sorrir...
Produtos românticos, nós todos...
E se não fôssemos produtos românticos, se calhar não seríamos nada.

Assim se faz a literatura...
Santos Deuses, assim até se faz a vida!

Os outros também são românticos,
Os outros também não realizam nada, e são ricos e pobres,
Os outros também levam a vida a olhar para as malas a arrumar,
Os outros também dormem ao lado dos papeis meio compostos,
Os outros também são eu.
Vendedeira da rua cantando o teu pregão como um hino inconsciente,
Rodinha dentada na relojoaria da economia política,
Mãe, presente ou futura, de mortos no descascar dos impérios,
A tua voz chega-me como uma chamada a parte nenhuma, como o silêncio da vida...
Olho dos papeis que estou pensando em arrumar para a janelas,
Por onde não vi a vendedeira que ouvi por ela,
E o meu sorriso, que ainda não acabara, inclui uma crítica metafísica.

Descri de todos os deuses diante de uma secretária por arrumar,
Fitei de frente todos os destinos pela distração de ouvir apregoando,
E o meu cansaço é um barco velho que apodrece na praia deserta,
E com esta imagem de qualquer outro poeta fecho a secretária e o poema...
Como um deus, não arrumei nem uma coisa nem outra...

Fernando Pessoa

Portland, Oregon.