quinta-feira, setembro 03, 2015

México por Paulo de Tarso Menini Trindade: 1a. Parte




“Pobre México, tan lejanos de Dios, y tan cerca de Estados Unidos”.
- Porfirio Dias, Presidente do México por mais de 30 anos.
“Adelante, adelante, no somos machos, pero somos muchos!”
-Algum Mexicano Infame.




Semana passada fui ao México.Minha mãe tinha pedido que escrevesse sobre esse país. Não é fácil, no entanto,  descrever um país tão grande, diverso, complexo e interessante. Tem certos países que são relativamente homogêneos e, mesmo com pouca experiência,  se conhece tudo. Este é o caso dos Estados Unidos, fora poucos lugares, como Nova Iorque, Boston, Miami e San Francisco, é  muito semelhante. Viajando de carro pelos EUA, às vezes tenho a impressão que são só cinco quarteirões que repetem sempre, a gente passa por um Starbucks, um WalMart, um Burger King, e daí repete, Starbucks, Walmart, Burger King...



Claro que há aqui um exagero, mas descreve 70% do país. Esta homogeneidade não é o caso do México, assim como não é do Brasil. Em muitas partes do Brasil, me sinto em outro país. Claro que aqui vale a explicação de que, quando me perguntam se eu sou Gaúcho, a minha resposta é MUITO! Ser Gaúcho é o que me permitiu manter uma identidade cultural forte mesmo sem morar no Brasil há 18 anos.







A primeira vez que fui ao México foi na minha lua de mel, na ilha de Cozumel. Dizer que foi quando conheci o México é como dizer “conheci o Brasil, estive na ilha de Marajó”. Voltei muitas e muitas vezes, a trabalho ou de férias, percorri muito o país e trabalhei com muitos mexicanos, e agarrei um carinho especial por esse povo. No começo eles não sabiam bem como me classificar. Obviamente não era um gringo, por mais que as vezes pensasse e agisse como tal; falava espanhol com um terrível sotaque porteño (vivi 5 anos em Buenos Aires, de onde é minha esposa), mas não era argentino - e  falava espanhol de verdade e não portuñol, assim que não parecia brasileiro, e daí vai. Com o tempo muitos se tornaram meus amigos. Eles são um povo muito doce, hospitaleiro e acolhedor, ou, pelo menos, têm este espírito - até mais que os brasileiros.





Pensando em como descrever o México, a primeira coisa que me ocorreu, foi a fábula dos quatro  cegos e o elefante.    Um agarra uma pata e diz “é como um tronco de arvore”; outro, o rabo e diz “é como uma cobra”;   etc. Vou tentar descrever alguns aspectos desse país e dessa gente, mas não acho que chegue ao elefante inteiro. Assim, vamos por partes:









- Comida: gosto muito de rir dos meus amigos chineses dizendo que “comida chinesa na China é horrivel, vai na praça de alimentação de um shopping em qualquer lugar e tem melhor que aquilo”. A comida Mexicana também sofre do fato de que existe uma versão “export” que não tem muito a ver com a de verdade, a diferença é que comida mexicana no México é muito melhor (a da China não, a versão export é muito melhor). Sobre comida comecemos com : não existe comida “Mexicana” (assim como não existe comida chinesa). Cada parte do país tem uma culinaria própria e muito distinta. No norte se come muita carne, minha favorita é o cabrito assado, eles trazem um quarto de cabrito na mesa,  crocante por fora e a carne muito tenra. É delicioso. 








Em Puebla - ao norte do DF - se fazem uns pratos elaboradíssimos, meu favorito é pimentão recheado. Tem um prato que eles fazem com muito orgulho uma vez ao ano, que leva 76 ingredientes distintos. No oeste, contra o mar, comem -se muitos frutos de mar frescos. No DF, como em qualquer cidade rica, se come em restaurante francês, italiano, brasileiro etc. A única coisa que eu encontro em comum entre todos, é a tortilla. Imaginem uma massa de panqueca bem fininha, mais firme e fina que as nossas, com uma consistencia de pão. Isso é o arroz deles, é o que faz parte de todas as refeições, é o grande unificador. 








Claro que também tem a pimenta, que é muita e é forte. Tem uma tabela de ajuste, se dizem “un poquito picoso” a expressão correta é “puta que pariu ,  ta me queimando a boca”. Se dizem “picoso” a realidade é “ socorro, está derretendo a minha língua”, “Bien Picoso” é “depois nem caindo de boca num extintor de incêndio”. Com o tempo eu aprendi a dizer “no, sin nada”. Eles me olham desapontados, mas isto também é porque eles gostam de aterrorizar estrangeiros com a pimenta. Os chineses fazem a mesma coisa com as comidas estranhas, pedem as coisas mais escabrosas e ficam te olhando para ver se vais comer. Por isso eu repito, comida chinesa na China é muito ruim.








- Clima: já senti frio no México, em Monterrey e no DF, durante o grosso do inverno, mas geralmente as opções são calor, muito calor, terrivelmente calor, e forno de pão. Este último é onde eu estava semana passada, no deserto da Baja California, 45 graus e seco. Uma vez em um voo de Monterrey a Atlanta fazia tanto calor, que eles tiveram que retirar 24 passageiros do avião, senão não tinha como decolar pela pouca densidade do ar. Várias garrafas de agua mineral são uma compania indispensável por todos os lados.



- Tipos de mexicano, por classe social: generalizações crassas naturalmente, mas de alguns tipos que eu encontrei varias vezes:
                - Mexicano Pobre: eles têm muito medo, e com razão. Andam de cabeça baixa, não olham nos olhos. O poder de negociação deles é muito baixo, a unica coisa que eles tem para barganhar é trabalho braçal, e isso no México sobra. Eles são honestos, trabalhadores, dedicados - dá pena de ver. Tem um fatalismo nos olhos de quem espera que que as coisas saiam mal, e geralmente estão corretos. As moças se casam muito cedo e tem muitos filhos; os pais se viram como podem, mas aos 30 anos parecem velhos.







                - Mexicano de classe profissional:   esses são os que sim foram educados e têm uma vida relativamente confortável. Moram em apartamentos, tem carro, assistem a TV todas as noites, os filhos vão à escola e tem a expectativa de ir à Universidade. A parte difícil para eles é o medo de cair na pobreza. Não por falta de trabalho, há muito trabalho para pessoas qualificadas, o medo deles é violencia, problemas de saúde etc. É bastante possível se tornar pobre, e é muito dificil deixar de ser pobre.







               - Mexicano rico: estes são os todo-poderosos. Se vestem bem, são muito cosmopolitas, são Mexicanos ma-non-troppo, não morrem de patriotismo. Os realmente ricos são cercados por camadas e camadas de pessoas  que dependem deles, e que nunca os desafiam, e sempre os tratam de uma maneira subserviente. Não é que eles escolham que as coisas sejam assim, é como as coisas se dão. Eu faço bons negocios com este tipo de gente, simplesmente porque eu não sou subserviente, não interessa que todos estejam de cabeça baixa ao redor, eu olho no olho, aperto a mão forte, trato como igual e não tenho medo de dizer quando eu acho que eles estão errados. A reação deles a isso? Alívio e felicidade. Eles adoram poder conversar de igual para igual e poderem intercambiar ideias de verdade, sem que as outras pessoas digam somente o que acham que eles querem escutar.  ( Continua )






PS. Patati - como sempre o chamamos - é meu filho do meio. Já escreveu sobre Cuba no Correndomundo. Somos muito amigos e respeitamos, reciprocamente, nossas divergências de opinião - como convém a qualquer mãe e filho. Admiro sua lucidez, sua honestidade e seu senso de humor. Imaginem a saudade que sinto dele...