sexta-feira, julho 17, 2015

Guernica : o Painel e a Cidade

Teto Atual da Casa de Las Juntas
" Gernika es el pueblo más feliz del mundo. Sus asuntos los gobierna una junta de campesinos que se reúne bajo un roble, y siempre toman las decisiones más justas."
Jean Jacques Rousseau ( 1712 - 1778 )

Maria e eu junto ao Roble Neto
Emocionou-me, repetidas vezes, a grande tela pintada a óleo, produzida, em 1937, por Pablo Picasso e hoje principal obra do Acervo do Museu Reina Sofia, em Madrid - a única que não se pode fotografar. Guernica é um painel que mede 7,82 m X 3,5 m - grandioso como arte e  contundente como documento histórico. Um doloroso repúdio à Guerra.

Tronco do Roble Filho
Embora Guernica me impressionasse muito como arte e como visão do artista em relação à Guerra Civil Espanhola, eu não a relacionava com um espaço específico, delimitado e real, onde tão horrendo massacre aconteceu. Quando cheguei a Bilbao, Norte da Espanha, no País Basco, meus queridos amigos Pedro e Maria esperavam-me com intensa e movimentada agenda, a qual incluía Guernica, a pequena e histórica cidade, reconstruida após cruel destruição.

Casa das Juntas
Transcreverei , a seguir, partes de um texto do professor Voltaire Schilling, gaúcho, nascido rm Porto Alegre. Ele e refere , nesse texto, à comunidade de Guernica, de forma clara, concisa e precisa, descrevendo-a tal como li, escutei e vi esse lugar tão impressionante. O texto completo está em http://educaterra.terra.com.br/voltaire/mundo/guernica_eta.htm

     
Jardim da Casa das Juntas em Guernica

"
" Era uma segunda-feira, dia de feira-livre na pequena cidade de Biscaia. Das redondezas chegavam às suas estreitas ruas os camponeses do vale de Guernica, no país dos bascos, trazendo seus produtos para o grande encontro semanal. A praça ainda estava bem movimentada quando, antes das cinco da tarde, os sinos começaram os seus badalos. Tratava-se de mais uma incursão aérea. Até aquele dia fatidico - 26 de abril de 1937 - Guernica só havia visto os aviões nazistas da Legião Condor passarem sobre ela em diregão a alvos mais importantes, situados mais além, em Bilbao. Mas aquela 2a. feira seria diferente......



.....A primeira leva de Heinkels-11 despejaou sua bombas sobre a cidadezinha precisamente às 16h45min. Durante as 2h e 45 min seguintes os moradores viram o inferno desabar sobre eles. Estonteados e desesperados correram para os arredores do lugarejo onde mortíferas rajadas de matralhadora disparadas pelos caças os mataram aos magotes. No fim da jornada, contaram-se 1.654 mortos e 889 feridos, numa população não superior a 7 mil habitantes. Quase 40% haviam sido mortos ou atingidos.....

Prédio Público - detalhes em ferro
Na realidade a tragédia começou oito meses antes, na noite de 25 de julho de 1936, quando, entre um acorde e outro de uma ópera wagneriana, Hitler decidiu-se a apoiar Franco. Na semana anterior, o general espanhol havia sublevado o exército contra o governo republicano-esquerdista da Frente Popular. O Führer estava em Bayreuth para prestigiar o tradicional festival musical quando recebeu uma carta do caudilho. A solicitação era modesta. Tratava-se de saber se o governo nazista contribuiria com uma dezena de aviões de transporte e algumas armas. Hitler não hesitou. 


Pintura representando a Junta e o  Roble Pai





A escolha da pequena Guernica deveu-se a vários motivos. A cidade era um alvo fácil, sem proteção antiaérea, além de não ter uma população numerosa. Além disso abrigava um velho carvalho (Guernikako arbola) embaixo do qual os monarcas espanhóis ou seus legados, desde os tempos medievais, juravam respeitar as leis e costumes dos bascos, bem como as decisões da batzarraks (o conselho basco). Como o levante de Franco foi também contra a autonomia regional, a destruição de Guernica serviria como uma lição a todos os que imaginavam uma Espanha federalista ou descentralizada.   



Escudo de Guernica gravado em bloco de pedra

Assim, quando a notícia da dizimação provocada pelo bombardeamento "científico" chegou aos jornais provocou um frêmito de horror em todos os cantos do mundo. Quase todos os habitantes de cidades, em qualquer lugar do planeta, sentiram instintivamente que estavam sendo apresentados a um outro tipo de guerra, à guerra total, e que, doravante, por vezes, seria mais seguro estar-se numa trincheira no fronte, do que vivendo numa grande capital." 
Voltaire Schilling


Casa das Juntas
Percorri a pequena cidade de Guernica com profundo respeito e pesar. Olhando ruas, jardins, casas, igrejas e escolas, pensava na brutalidade de uma guerra, em que seres humanos , indefesos e desavisados, são mortos com tanta crueldade. A tentativa também foi de, exterminando as pessoas, exterminar uma forma de governar. 

Guernica é como uma cidade sagrada para os Bascos

Até hoje , reis e rainhas, ao serem corado, vão a Guernica, onde recebem o títlo de Senho(a) de Viacaya e prometem manter as determinações da Junta. Tradição que se manteve, apesar da dor. Curiosamente , o aviso das reuniões da Junta era feito com cinco foqueiras, acesas em cinco altas montanha.

No vitral do teto, tradicionais casas do País Basco

As reuniões  eram realizadas embaixo de um grande roble ( carvalho ). Antes dessa primeira árvore morrer , foi transplantado um filhote dela, que , durante muitos anos, serviu de sombra e abrigo para novas reuniões. Hoje um jovem roble - um carvalho neto - cresce nas proximidades da bela Casa da Junta, onde há muito documentos históricos e um pequeno museu. Guernica foi uma das localidades mais impactantes que vi. Ainda não tenho condições de muito falar sobre ela. Recorro a Pablo Picasso e ao prof. Voltaire para encerrar esta postagem tão dolorida.


Principal Igreja de Guernica
".....Não era algo belo de ser visto. Picasso, para retratar o clima sombrio que envolvia o desastre, utilizou-se da cor negra, do cinza e do branco. Como nunca a máxima de Giulio Argan segundo a qual a "arte não é efusão lírica, é problema" tenha sido tão explicitada, como na composição de Picasso. O painel encontra-se dominado no alto pela luz de um olho-lâmpada - símbolo da mortífera tecnologia - seguida de duas figuras de animais. No centro um cavalo apavorado, em disparada, representa as forças irracionais da destruição. A direita dele, impassível, um perfil picassiano de um touro imóvel. Talvez seja símbolo da Espanha em guerra civil, impotente perante a destruição que a envolvia. Logo a baixo do touro, encontramos uma mãe com o filho morto no colo. Ela clama aos céus por uma intervenção. Trata-se da moderna pietá de Picasso. Uma figura masculina, geometricamente esquartejada, domina as partes inferiores. A direita, uma mulher, com seios expostos e grávida, voltada para a luz, implora pela vida, enquanto outra, incinerada, ergue inutilmente os braços para o vazio, enquanto uma casa arde em chamas. Naquele caos a tecnologia aparece esmagando a vida."



Guernica de Pablo Picasso. Museu Reina Sofia. Madrid