quinta-feira, junho 18, 2015

Fez : minha favorita em Marrocos.

Porta de Boujeloud
Amo Fez. Começo, portanto, com uma declaração de amor a mais fascinantes das cidades marroquinas. Encantou-me revê-la:  suas cores, formas, sons , sabores e odores.  Caminhar pela Medina  , dar passagem aos burrinhos transportadores de cargas, observar as roupas elegantes de homens e mulheres, ver artesãos trabalhando, olhar flores e frutas nos mercados, admirar toda sua fantástica arquitetura .... é inesquecível.


Delicados trabalhos em mármore


Fez  é a mais antiga das cidades imperiais. No ano 789, Idris I , fundador da primeira dinastia de Marrocos, considerou que Volubilis era muito pequena e decidiu construir uma capital nova e grandiosa. Mal o projeto foi iniciado, Idris morreu. Sucedeu-o Idris II , seu filho, que realizou a vontade do pai, Hoje a cidade tem mais de um milhão de habitantes, e o número de turistas que a visitam, aumenta a cada ano.




De fato, o conjunto urbano da Fez atual é composto por três cidades: Fez el Bali ( ou Fez Velha ); Fez el Jedid ( ou Cidade Nova) e a Ville Nouvelle, surgida com o Protetorado Francês no século XX. O núcleo inicial da Fez el Bali era um pequeno grupo berebere, até que chegaram oito mil famílias de muçulmanos andaluzes pricipalmente. Os primeiros refugiados vieram de Córdoba e de Granada. Depois, uniram-se a eles famílias árabes de Kairuã - atual Tunísia. Fez el Bali é considerada, desde 1981, pela UNESCO, como Patrimônio da Humanidade.

Conjugação de madeira nobre e cerâmica
Esses grupos aportaram significativo patrimônio a Fez, que  formou uma base sólida não só para a riqueza econômica, mas também para a riqueza religiosa, cultural e arquitetônica. O movimento de independência de Marrocos nasceu nesta cidade e , até hoje, quando há protestos, a repercussão é mais ruidosa aqui. Trata-se de um lugar com identidade muito definida e personalidade muito forte - interessante é que mantém o seu encantador perfil medieval.

Transporte mais usado na Medina
Além de ser considerada  a capital espiritual de Marrocos, Fez também é uma das cidades mais tradicionais e admiradas internamente. A maior parte da elite intelectual e econômica do país dela provém. Há uma crença de que a pessoa nascida na Medina de Fez é mais religiosa, mais intelectualizada e mais refinada. A esposa do rei de Marrocos é de Fez, e a família real passa muito tempo aqui - o que muito orgulha a população da cidade.




Entra - se, preferencialmente,  na Medina - verdadeiro labirinto com 9.400 ruas - pela Bab Boujloud , uma grandiosa porta azul e verde. Acredito que esse passeio deve ser  acompanhado por um guia. Imagino-me perdida aqui, numa noite de sexta feira 13 ,e sinto antecipado medo...Algumas ruas, além de curvas e bem estreitas, não têm saída. Terminam abruptamente.

Detalhe da fachada do Palácio Real
Vivem na Medina cerca de  160 mil pessoas. Não se pode distinguir a casa de um bilionário da casa de qualquer outra pessoas. É da cultura árabe não fazer demonstrações de riqueza . O interior da casa pode ser um palácio riquissimo, finamente decorado, com pátio ( jardim) de grande beleza - mas isso somente saberão os familiares e os amigos que nela entram. Ostentar riqueza atrai coisas ruins, inclusive inveja e mau-olhado . A simplicidade é uma virtude muito considerada.






















As portas de Fez el-Bali ( Fez a Velha ) são fotogênicas e curiosamente interessantes. Têm, por exemplo, dois timbres ( duas campainhas ), um para pessoas conhecidas; outro, para estranhas. Mostram muitos adereços tradiconais, como ferraduras, que acreditam trazer sorte e espantar mau olhado, é óbvio. Pelas dúvidas, já vou colocar uma na minha casa...Para quem, como eu, gosta de portas, é um lugar fascinante. Muitas portas belíssimas...nem vou legendá-las.São todas de Fez.























Há duas visitas imprescindíveis: palácio real, que ocupa 80 hectares, e bairro dos cortumes. E , quando se vai ao palácio real, deve-se - diz a lenda - passar a mão por uma de suas sete portas.Traz sorte! Da primeira vez que fui a Fez, visitei o bairro dos curtumes. Embora levasse um punhado de hortelã junto ao nariz, achei o cheiro insuportável. Desta vez, preferi perambular pelas lojas - especialmente de malas e bolsas , que são líndíssimas - a fazer uma segunda visita aos cortumes.

Mãos de Fátima
Fátima, cujo nome significa Única, teria sido a flha preferida de Maomé. A mão de Fátima é um amuleto contra o mal usado no Islamismo, no budismo  e no Judaísmo - embora no Judaísmo mude a procedência: o amuleto estaria ligado a uma irmã de Maomé, igualmente uma mulher e esposa perfeita. Atualmente,  pacifistas do Oriente Médio usam-na como símbolo esperança e paz na região. Sem querer dar chance para azar ou mau - olhado, trouxe algumas de diferentes países. As artesanais de Marrocos são belíssimas.



Artesanato de metal típico de Marrocos

Realmente o artesanato de Marrocos é uma de suas grandes atrações. Há muito o que ver. Sempre se acaba comprando alguma coisa - ou coisinha - tanto pela beleza das peças, quanto pela persistência dos vendedores. E há que regatear sempre, um costume que me cansa um pouco. Com o passar do tempo, nota-se uma grande diferença de durabilidade e de qualidade entre o que se compra em lojas bem conceituadas e o que se compra de vendedores de rua. 

Porta-Joias : artesanato marroquino tradicional
Há peças em prata ou em cobre - entre elas , admiráveis filigramas - delicadíssimas e cuidadosamente trabalhadas. As peças feitas com  madeira de cedro , que são vendidas em todo o país, são tão lindas quanto ruins de carregar - o mesmo ocorre com as lindíssimas cerâmicas. As roupas típicas - Chilabas, gandouras e albernozes - são difíceis de resistir. São feitas em algodão ou seda.

Tapetes árabes e beriberes
Por sorte sou alérgica a tapetes, assim fujo das tentações. Além de bonitos, são tantas as variedades quantas as tradições tribais. Os tapetes árabes são mais delicados e próprios para a cidade; os bérberes, chamados Kilims, são mais fortes e feitos com lã de ovelha. O couro, em acessórios diversos, mostra cores vibrantes e bonitas, mas cuidem que alguns têm cheiro nada agradável  e bastante  persistente.

Sobremesa
A gastronomia de Fez é a mais tradicional de Marrocos, com destaque para o couscous e o tarrine.O tarrine é um guizado graúdo, cozido numa panela de barro com tampa cônica que mantém o calor. Pode ser de peixe, frango ou cordeiro, geralmente complementado com amêndoas ou ameixas. Gostei das sopas, com muitas especiarias. Há outros tantos pratos, inclusive da cozinha internacional. Como sobremesa, vem uma fruta da estação,ou um bolo, ou um doce - seguidos sempre por um chá de hortelã.

Muralhas de Fez
A Mesquita e a Universidade - abrigadas no complexo denominado Kairauine - constituem o centro espiritual de Fez e talvez de todo o país. O complexo, fundado em 859 por Fátima el Fihria e ampliado pelos almorávides no século XII, pode receber até 20 mil pessoas durante a oração. Diz -se que a Universidade é a mais antiga do mundo com funcionamento ininterrupto. Kairauine só pode ser visitado por muçulmanos.

Muitas palmeiras pela cidade
Há outra universidade muito prestigiada em Marrocos :  Al Akhawayn, localizada em Ifrane, a 60 quilômetros de Fez, no Médio Atlas. Nessa pequena localidade, que se parece com a Suiça e que no inverno é famoso lugar de esquiar, há mansões luxuosas, com belos jardins. Comenta-se que são resdências de férias, pertencentes , a maioria, a moradores da Medina de Fez.


Artesanato de couro
A Cidade Nova - Ville Nouvelle fundada pelos franceses no inicio do Protetorado -  fica meio sem graça depois da visita à Medina. É como qualquer outra cidade grande, com muitos hoteis luxuosos e muitos restaurantes e cafeterias - adorei as cafeterias: tinham um café bem razoável. É interessante observar que os hoteis daqui são bem mais econômicos se comparados com os da parte antiga de Marrocos. A larga e extensa avenida Hassan II , a principal da Cidade Nova, tem canteiros bem cuidados, muitas flores e muitas palmeiras. Pode-se passear tranquilamente por ela, inclusive à noite - o que não é aconselhado fazer na Medina.

Palmeiras e canteiros de flores
Gosto de Marrocos, tanto que voltei a visitá-lo. Verdade que cada visita é única. Nada se repete igual. Não penso, entretanto, retornar, nem mesmo a Fez , cidade de que gosto mais. Fiz uma lista de prioridades e não foi possível colocá-la. Vai faltar vida. Simples assim.

Ruazinha da Medina

" Quando tornar a vir a Primavera
Talvez já não me encontre no mundo.
Gostava agora de poder julgar que a Primavera é gente
Para poder supor que ela choraria
Vendo que perdera seu amigo. 
Mas a Primavera nem sequer é uma coisa:
É uma maneira de dizer.

Escola marroquina com nome do fundador de Fez


Nem mesmo as flores tornam, ou as folhas verdes.
Há novas flores, novas folhas verdes.
Há outros dias suaves.
Nada torna, nada se repete, porque tudo é real."

Fernando Pessoa

Paisagem do Médio Atlas