quarta-feira, janeiro 08, 2014

Sobre o inesperado de uma viagem - 3a. e ultima parte.


( ...continuacao)
Pelos numeros dos monitores, percebi que a situacao dele piorava gradativamente. Pediram-me que eu saisse do quarto ( ocupavamos um quarto dentro do Intensive Care ) por 20 minutos. Iriam muda-lo de posicao e trocar alguns aparelhos. Vim para a sala de visitantes e recomecei a escrever - unica maneira que eu encontrara de me administar. A qualquer momento, tocaria o telefone da sala, autorizando-me a voltar para junto com Ron. Meus labios estavam secos, eu sentia sede, dor de cabeca, tremia muito, estava com medo e assustada. Dava-me conta de que nao temos informacoes minimas sobre a morte de qualquer ser humano - informacoes basicas, como respiracao, pressao, dor. Ate da morte - certeza absoluta - nossa visao eh idealizada.


Quando voltei ao quarto, encontrei-o limpinho e vestido com uma bata branca, com pequenos desenhos verdes e azuis. Pensei em contar a ele sobre o modelito que estava usando. Informaram-me que ele estava totalmente sem sedacao. Percebi que o estava testando no aspecto neurologico. Nao havia, entretanto, reacoes ou respostas.  Continuei falando com ele o tempo todo. Eu o abracava e contava das noticias enviadas, das mensagens recebidas, da preocupacao e da tristeza de tantas pessoas, em diferentes lugares do mundo. Relembrava nosso cotidiano: os meus tenis que ele lavava e punha os cordoes; os armarios que ele arrumava por eu ser baixinha; o cafe que ele aprendera a fazer no Brasil...Falava no Gifford, nosso Labrador, adotado pelo Antonio Angelo; falava da mesa de carpinteiro que ele esta construindo em Torres e do seu gosto de trabalhar com madeira; relembrava planos e projetos nossos. Falava de nossos filhos,de Jim, na China; de Kevin, em Oregon; de Gugu,na Bahia; de Patati em Atlanta; de Fabiana,em POA.


A enfermeira preocupa-se comigo. Mede minha pressao. Diz que esta alta no momento. Aconselha-me a procurar um cardiologista. Prometo que farei isso no Brasil. Surge um problema a mais: Pedro tem 14 anos e, neste pais, ninguem com menos de 16 anos, pode estar sem acompanhamento de adulto por ele responsavel. O gerente do hotel me comunica que Pedro nao pode mais ficar no hotel sem mim. O pessoal do hospital , por saber da situacao do Pedro, sente-se responsavel tambem. Improvisam, novamente, na ultima noite, um quarto para mim e para ele, numa sala dos funcionarios. Conseguem ate um DVD e filmes para o Pedro ver. Em torno de 02h, fui ver como Pedro estava. Ele acordou e propos-me uma troca: eu dormiria durante uma hora, e ele ficaria ao lado do Ron. Duas horas depois, ele me acordou. Havia mesmo estado, esse tempo todo, ao lado do Ron. 


De manha cedo, vim trazer Pedro ao Hotel. Em menos de hora, chamaram-me ao hospital para uma reuniao com  a medica e a enfermeira responsaveis pelo Ron. Como envolvia muitos termos tecnicos e era preciso que eu tivesse clareza da situacao, haviam chamado uma tradutora tambem. Detalharam o quadro cardiologico e neurologico do Ron, evidenciando a certeza de que nao havia mais funcao cerebral. As maquinas seriam, entao, desligadas. Perguntaram quanto tempo eu gostaria de estar sozinha com nele antes do desligamento. Pedi 15 minutos. Perguntaram-me onde eu queria estar quando os aparelhos fossem desligados totalmente. Escolhi ficar junto com ele. Deram-me todas as informacoes, incluindo o que ocorreria ate ele ser declarado morto. Perguntaram-me quais pessoas do hospital eu queria que estivessem presentes naquela momento. Pedi que fosse somente Louise, a enfermeira.


Voltamos as duas para o quarto do Intensive Care. Abracei o Ron. Contei-lhe o que seria feito, mesmo sabendo que ele nao me ouvia. Pedi-lhe que nao tivesse medo nem ficasse assustado. Louise ia desligando cada aparelho e me explicando a consequencia que teria. Eu chorava muito e o abracava muito forte. Por ultimo, ela me disse que desligaria o oxigenio, e ele deveria morrer em pouco tempo. desligou. Ele ainda viveu 15 minutos. Nesse tempo, a respiracao foi ficando mais suave, mais espacada, ate que parou completamente. Sua expressao ficou serena. Fechei-lhe os olhos e rezei, rezei tudo o que eu sabia rezar. As maquinas foram todas retiradas, e eu permaneci - acredito -  mais uns 15 minutos com ele, ate que consegui decisao e forca  para afastar-me.


Aguardava-me outra reuniao para que me orientassem como proceder a partir dai , no que se referia `a parte burocratica: atestado de obito ( que em poucos minutos me foi entregue ), registro desse atestado, pagamento do hospital pelo Seguro de Viagem - ou por mim; escolha da funeraria; rituais de cremacao; documentacao exigida para transporte da urna com as cinzas. Terminada a reuniao, voltei  onde estava Ron. Fiquei um tempo com ele. Tinha expressao serena. Estava bonito como sempre foi. Vim para o hotel avisar o Pedro, que me disse ja ter-se despedido do Ron, ainda de manha cedo.


A partir dai, ate este  momento, procuro ser a mulher corajosa e forte de que Ronald sempre se orgulhou. Meu unico objetivo eh preservar minha vida , unico bem que realmente importa , mesmo que seja uma vida dilacerada pela dor e pela saudade. Ainda nao sei como poderei continuar...mas vou descobrir e tracar o caminho. Sobram-me a memoria das boas  lembrancas e a certeza de que Ron e eu vivemos plena e intensamente o pouco tempo que tivemos casados: 4 anos, 6 meses e 20 dias. Ele inspirava  confianca, serenidade, afeto. Era essencialmente do bem. Eu fui prioridade na vida dele. Ronald deixa, a todos que o conheceram,  um legado de respeito , um exemplo de homem honesto, correto , trabalhador, sensivel e com inesgotavel condicao de amar.
Dorme doce, meu amor. Ajuda-me a cuidar das pessoas que amamos - nossos familiares e nossos amigos.Ajuda-me a continuar vivendo. Se existir mesmo vida apos esta, a gente se encontra, como se encontrou em Illinois, naquela festa de Natal, em  2005.