quarta-feira, julho 17, 2013

New Orleans : muito além das expectativas


Óleo que bem registra New Orleans

Quando iniciei este blog, há sete anos, escrevi , referindo-me a comparações entre países ou cidades: comparações limitam o olhar. Para se ver é preciso ter olhos limpos, olhos de ver, sem que uma imagem contamine a outra. Quando temos duas imagens sobrepostas, uma deixa de ser nítida - se uma dessas imagens for de lugar muito conhecido ou familiar, esse certamente ganhará em nitidez. De longa data, penso assim e  usualmente  não comparo . O Correndomundo pode provar o que estou afirmando.

A esquina mais fotografada de New Orleans

Nesta viagem, entretanto, precisei, por duas vezes, segurar o ímpeto de comparar New Orleans com uma cidade brasileira, onde já morei e de onde gosto muito. Minha potencial comparação referiria-se aos centros históricos, às cores e à musicalidade das duas cidades que seriam comparadas. Limpei o olho para ver bem está  fantástica cidade.

Ferro trabalhado parecendo renda.
Situada no sudeste da Louisiana,  entre o lago Pontchartrain e uma curva do rio Mississippi, com  cerca de dois metros abaixo do nível do mar, a cidade parece uma ilha com muitas pontes e água por quase todos os lados.  Sua área  é de 516 km. Sua população, que antes do Katrina era de 500 mil habitantes, aproxima-se hoje a 250 mil pessoas.

Árvores grandes e frondosas no Parque das Esculturas

Katrina foi o mais terrível furacão que atingiu a Costa do Golfo, fazendo com que aquele agosto de 2005 se tornasse tristemente inesquecível. Os ventos chegaram a 280 km e destruíram casas e edifícios, derrubaram árvores e postes, provocando quedas do sistema elétrico e causando muitos incêndios. As chuvas inundaram mais de 80% da cidade e deixaram 200 mil casas embaixo d´água. Morreram mais de mil pessoas e metade dos habitantes de New Orleans não retornaram às suas casas. 

Royal Street
Nesta viagem, foi-me possível constatar a decisão de permanecer e de recuperar-se dos habitantes de New Orleans - uma população, composta hoje por 62% negros, 33 % brancos 5% vindos de diferentes países.
A cidade está bonita, bem cuidada, cosmopolita, musical e com muitos turista, que nunca deixaram de visitá-la e que, certamente, com essa atitude, contribuíram para que a cidade se mantivesse em cena.

Centro de New Orleans
É bom lembrar que ,tanto a Louisiana quanto a Flórida foram compradas por Thomas Jefferson , em 1803, pagando o que lhes pediu Napoleão Bonaparte : $ 15 milhões! Mas antes de pertencer à França, esta cidade pertencera à Espanha. De longa data, portanto, diferentes povos contribuíram na sua formação cultural e histórica. Dentre esses povos, podem-se mencionar africanos, franceses, espanhóis, ingleses, irlandeses, eslavos, italianos, gregos e cubanos.

Homenagem ao jazz e a músicos famosos

Não faltam museus e esculturas para lembrar a vocação musical de New Orleans. Berço do Jazz, que veio da música tocada em bailes, desfiles e funerais e da mistura de culturas da região, nele estavam cantos de trabalho, cantos religiosos da África e influências europeias e americanas. Muitos dos primeiros jazzistas começaram a se apresentar na zona de prostituição, a Storyville. A partir daí, desenvolveu-se, cresceu, ganhou mundo e tornou-se a mais importante contribuição americana para a música mundial.



Bonitos e delicados são os trabalhos de ferro que estão por toda a cidade. Muitos parecem rendas, por sua delicadeza e pelas minúcias que podem ser vistas nos detalhes. Os primeiros trabalhos foram feitos por artesãos alemães, irlandeses e afro-americanos. De ferro batido, totalmente feitos à mão, é claro, encantaram as famílias ricas que passaram a encomendá-los para adornar as fachadas de suas casas. Depois, começaram os trabalhos de ferro forjado, que era derretido e colocado em moldes em motivos decorativos diversos. Podemos admirar esses trabalhos principalmente no French Quarter e no Garden District.

Passeio pelo French Quarter

O French Quarter - ou Bairro Francês - é a parte antiga de New Orleans, o seu centro histórico. Encanto dos turistas e viajantes, concentra nele restaurantes, bares, galerias de arte, lojas sofisticadas e antiquários. Por sorte, já no primeiro dia, fomos percorrê-lo no horário que, de fato, é o melhor : de manhã cedinho. Havia pouca gente nas ruas - tanto que foi possível estacionar na frente do Museu do Jazz. É bom lembrar que estacionamento nessa área é bastante difícil encontrar.

Museu do Jazz

Como estava tudo muito tranquilo, podemos observar os detalhes da arquitetura, as casas coloridas, as esculturas, os pátios escondidinhos, os trabalhos em ferro, as plantas, os antigos lampiões ainda acesos. Podemos, ainda,  ler o nome das ruas,escritos em peças de cerâmica, fixadas nas calçadas e ler as placas elucidativas em prédios e locais .  Passeamos - quase com reverência - pela Royal Street, a rua mais bonita do bairro.Quando se intensificou o movimento, apareceram os cantores de rua e ouviu-se  música já saindo dos restaurantes. Precisa-se de tempo para absorver tantas informações e tamanha beleza.

Rio Mississippi
Garden District é a denominação de uma área rio Mississippi acima, em relação ao French Quarter. Foi neste lugar que se estabeleceram os americanos depois da compra de Louisiana e onde os fazendeiros e comerciantes ricos construíram luxuosas e elegantes mansões. Aqui, encantaram-me os jardins, com tantas magnólias, camélias, azaléias, roseiras e jasmins. Tudo com as bênçãos da beleza do rio.

French Market ainda de manhã cedinho
Outrora um lugar mal-falado e mal frequentado; hoje , preferido pelos turistas e pleno de vitalidade, colorido e movimento. Existe por aqui desde 1790 e ,  antes da chegada dos europeus, era um entreposto comercial para os índigenas. No French Market, pode-se comprar de jóias finas a frutos do mar e especiarias; de cerâmicas artísticas a bonequinhas para vodu. Nele, fiz minha primeira compra : vários beads bem interessantes.


Tradicionais Beads

Os tradicionais colares de bolinhas coloridas, com os acréscimo dos mais diversificados temas - carnaval, futebol, frutas, flores, brinquedos - enfeitam a cidade, os habitantes locais e os turistas. São os beads, que dão origem a muitas paqueras. Manda a tradição que uma moça , ao ser presenteada com um beads, em sinal de agradecimento, deve levantar a blusa e mostrar os seios, ao menos um pouco; os rapazes, devem baixar as calças e mostrar o corpo...ao menos um pouco também.

Entrada de grande shopping center em New Orleans

Nem só de comércio para turistas vive a cidade. Há grandes shoppings e muitas galerias, onde qualquer grife pode ser encontrada. No maior shopping, há um Café du Monde, com as mesmas característica do café tradicional que existe no French Quarter há mais de 100 anos. Nele, pode-se experimentar os beignets, bolinhos franceses salpicados com açúcar e tomar um café au lait  - os dois únicos itens oferecidos pelo Café. Pode-se, ainda, experimentar o café de chicória, alternativa para economizar pó de café, criada durante a Guerra Civil. Eu até gostei...mas depois tomei um café - café.

Entrada para o Riverwalk
Área com variadas opções de compra - de que fugi como o diabo da cruz - e magníficas vistas do rio Mississippi ao longo de seu percurso, é excelente alternativa para um final de tarde. Os navios de cruzeiro internacionais e outras embarcações passam por aqui. Muitos atracam ao longo do Market Place. O trânsito fluvial é intenso. Admirei belíssimas esculturas neste lugar e obtive informações nas placas colocadas no caminho que se percorre. Passeio delicioso e interessante.

Escultura no Woldenberg  Riverfront Parque
Difícil selecionar fotos de esculturas em New Orleans. São tantas,tantas ...e muitas de comovente beleza - como esta, um diálogo de gerações. Difícil selecionar sobre o que escrever e o que fotografar,  assim como é difícil não se apaixonar por esta mistura de influências e culturas, pelas lutas duras deste povo - da luta pelos direitos civis à luta pela sobrevivência após o Katrina. Cidade de personalidade forte, que comove e encanta.

Escultura no Jardim das Esculturas do City Park
Uma tarde inteira no City Park, com 607 ha, ainda é pouco. Há muito o que ver. Carvalhos imensos, cheios de barba-de-velho, sombreiam os caminhos por onde se pode passear e , a cada momento, parar e admirar belíssimas esculturas e interessantes monumentos. O New Orleans Museum of Art, criado em 1910,  e o New Orleans Botanical Gardens , de 1930, estão aqui - e são imperdíveis.


Com certeza, eu permaneceria durante um mês nesta cidade e voltaria várias vezes a alguns locais, como o Jardim das Esculturas, no City Park e a Royal Street, no French Quarter. Há o Convento das Ursulinas, uma das construções mais antigas da cidade; o estádio, já recuperado depois do Katrina, quando, apesar dos estragos, abrigou mais de 30 mil pessoas; os cemitérios famosos, os parques e jardins que estão por toda parte. 

Palmeira do City Park
Se eu ficasse mesmo um mês aqui,  faria também mais passeios pelo Mississippi, comeria a comida cajun, ouviria jazz o tempo todo e jogaria moedas no Cassino Harrah´s. Para uma mulher que completa 70 anos em breve, seria perfeito. Vou conversar com Ronald sobre isso. Apaixonei-me por New Orleans.

Iluminação do French Quarter

"Aquilo que a gente lembra
Sem o querer lembrar,
E inerte se desmembra
Como um fumo no ar,
É a música que a alma tem,
É o perfume que vem,
Vago, inútil, trazido
Por uma brisa de agrado,
Do fundo do que é esquecido,
Dos jardins do passado."


Fernando Pessoa