sexta-feira, maio 10, 2013

Meteora: Colunas do Céu

Encantamento da chegada
Os patrimônios mundiais pela UNESCO constituem uma das minhas referências para elaborar roteiros. Com essa informação , mais leituras e conversas, inclui - felizmente! - os Mosteiros de Meteora no meu plano Europa/2013/1. Pesquisei bastante para saber quando ir, como chegar e como sair de lá para Thessaloniko. No post anterior, já escrevi sobre o trem de Atenas a Kalabaka e do táxi para Kastraki. Sobre os melhores meses para a visita, acredito que são os mesmos para a Europa toda: maio e setembro, meados da primavera e início do outono. Como ir de Meteora a Thessaloniko, escreverei no próximo post.
Vista de Kalabaka
Meteora, que em grego significa rochas supensas ou colunas do céu, é o segundo maior complexo de mosteiros da Grécia. O maior mesmo é o Monte Athos, que vi de longe uma vez, sem poder entrar, já que nele não se admitem nem animais fêmeas. Meteora permite visitas nos seis mosteiros habitados, cinco masculinos e um feminino. Houve um tempo em que havia ali vinte e quatro mosteiros. Os seis que ainda existem são: Megalos Meteoros - Grande Meteoro ou Mosteiro da Transfiguração; Varlaam ; Agio Stephanos - Santo Estêvão; Agia Triada - Santíssima Trindade; São Nicolau Anapafsas; e Roussanou.

Muitas  flores em todos os lugares

Os horários de visita aos Mosteiros têm variações para cada um deles , bem como variações para diferentes estações do ano. Ao planejar as visitas, é preciso estar atento também aos dias da semana, porque todos eles fecham durante um  dia, mas em dias diferentes. Roussanou, por exemplo, permanece fechado às quartas-feiras; enquanto São Nicolau fecha às sextas. O Mosteiro da Transfiguração, um dos mais bonitos, fecha às terças-feiras. Todos cobram uma entrada de 3 euros.

Montanhas junto a Kastraki

O acesso aos Mosteiros era feito por escadas rudimentares, atadas umas nas outras. Para receber alimentos e objetos  , usavam uma  rede  que era lançada e puxada pelos monges. Mais tarde, surgiram os  guindastes. Em 1920, foram construídas escadas de acesso. Agora, já há boas estradas até perto deles, sem livrar-nos, entretanto, das escadarias que parecem sem fim. Penso que chegar aos seis Mosteiros, deve dar direito a terreno de esquina no céu. Não foi desta vez que ganhei meu terreninho!Desisti no terceiro.

Beleza nas montanhas e nos mosteiros
Os Mosteiros de Meteora, Patrimônio da Humanidade pela UNESCO,  estão localizados na Grécia Central, em rochedos de arenito que ficam  a nordeste da planície da Tessalia, perto do rio Peneios e dos montes Pindo. O maior pico em que está um mosteiro tem 550 metros; o menor, 305 metros. Mesmo sem os mosteiros, o lugar seria impressionante por sua grandiosidade e beleza. Kastraki, o povoado mais próximo de Meteora, tem 2 252 habitantes - foi o que me informou , com muita convicção, um habitante da localidade .

Mosteiro mais próximo de Kastraki

Li que os monges consideram as rochas como sua morada e crêem que elas conjugam  Acrópolis e  Santa Sofia; Helenismo e Romanismo.  Tessalia é uma das regiões da Grécia povoada desde a Antiguidade, tendo sido referida como região que tomou parte na guerra de Troia. Acredito eu, portanto, que a região participou da entrega do primeiro presente grego! Não se  sabe , exatamente, em que momento começaram a surgir, nessa região, os monastérios. Certo é que, no século XI, monges e eremitas já se haviam instalados em grutas e pequenas celas nas montanhas.

O único mosteiro feminino

Como o número de monges aumentava , criaram a Ermita de Stagae, primeira organização sistemática dos que ali viviam. Foi no século XIV, entretanto, que os príncipes sérvios, senhores de Tessalia, decidiram acordar privilégios à Ermita. Por esta época, chega Athanasios, vindo do Monte Athos, edifica o primeiro monastério e batiza a rocha com o nome de Meteora - suspensa no ar. Athanasios estabelece também as regras dos mosteiros em conformidade com os rituais do Monte Athos. Em 1990, festejaram-se os 600 anos de fundação dos Mosteiros de Meteora, um lugar não só de recolhimento, mas também de produção artística e literária. Parece-me que só não imaginavam o quanto de turismo iriam produzir mais tarde.

Saias para empréstimo aos visitantes
Muitos turistas chegam, o tempo todo, a Meteora. Vêm em motos, bicicletas, cavalos, carros, ônibus ou caminhando. Percorrem estradinhas bonitas, agradáveis e com perfume de mato. Visitam logo o interior dos mosteiros. Para entrar neles,no entanto, é preciso usar roupas adequadas - e essa adequação é bem rígida, nada de transparências, saias curtas, calças apertadas. Quando fomos ao  mosteiro das monjas, por conta da minha calça justa, precisei usar uma dessas saias longas . Valeu. O mosteiro é lindo - e esse é fácil de chegar - tem ícones de rara beleza, um museu interessante e uma lojinha com belas reproduções e artesanto bem original.

Ícone em Roussanou.

Durante a ocupação turca, os mosteiros - todos eles -  mantiveram viva a cultura helênica e suas tradições. Dizem que eles não foram somente centros religiosos, foram ainda centros  acadêmicos e artísticos. É provável que, sem os mosteiros, a cultura helênica teria ficado muito enfraquecida, e a Grécia moderna , por essa razão,  teria  pouco conhecimento de suas raízes e história, tornando-se  um reflexo do império otomano. Os mosteiros atraíram  não somente pessoas profundamente religiosos, mas também os filósofos, poetas, pintores e pensadores gregos.

Mercado em Kalabaka

Kalabaka , com mais de mil anos, é hoje um encanto de cidadezinha, muito limpa e cuidada. Com menos de dez mil habitantes, arquitetura bonita, muitas cafeterias, restaurantes, hoteis - de luxuosos a muito simples - vive do turismo e da produção de pequenas propriedades. Descobri que  sábado era dia de feira na cidade. Reservamos, então, esse dia para estar lá. Fomos caminhando desde o povoado de Kastraki  já que apenas dois km separam as duas localidade. Encantou-me o mercado, variado, interessante, grande e com muita gente. Pareceu-me que toda a cidade estava lá. Um dia perfeito para ver a cultura local.

Igreja Ortodoxa Grega de Kastraki
Visitei esta igreja quando estava para iniciar uma cerimônia religiosa. Perguntei se podia fazer uma fotografia do altar. Pediram para eu esperar um pouco. Percebi que conversavam sobre isso. Uma senhora, depois, comunicou-me que eu poderia fazer as fotos. Fotografei o altar e as pessoas. Havia muitas mulheres , vestidas com roupas pretas e com crianças que me pareceram netos. Via-se um bonito contraste entre as roupas pretas, a igreja com paredes brancas e os ícones com muito colorido e dourado. Lindo mesmo. Em frente a igreja, havia um bar e cafeteria e ali estavam muitos homens. Descobri, então, porque as mulheres estavam sozinhas na igreja.

Já sentindo saudades...
Saí de Meteora sensibilizada com o que conhecera - e agradecida por ter conhecido um lugar tão especial como esse - um lugar de paz e beleza; de silêncio e de sons naturais.  Eu me perguntava como aquelas construções tinham sido feitas, assim, emparelhadas com os rochedos. Lembrei-me, então, da lenda que diz ter o monge pioneiro contado com a ajuda de uma águia para chegar mais perto de Deus. E preferi não pensar mais ...

"Estou cansado, é claro,
Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado.
De que estou cansado, não sei:
De nada me serviria sabê-lo,
Pois o cansaço fica na mesma.
A ferida dói como dói
E não em função da causa que a produziu.


Mosteiro da Transfiguração


Sim, estou cansado,
E um pouco sorridente
De o cansaço ser só isto —
Uma vontade de sono no corpo,
Um desejo de não pensar na alma,
E por cima de tudo uma transparência lúcida

Do entendimento retrospectivo..."

Fernando Pessoa