sexta-feira, abril 05, 2013

Óbidos, a Cidadela Fortificada.



Localizada na Região de Turismo do Oeste,  com apenas uma centena de habitantes dentro de seus muros, menos de cinco mil na vila toda e bucólica paisagem rural ao seu entorno, a  medieval Óbidos fez com que eu prometesse a mim mesma um convívio com ela de , no mínimo, três dias - talvez no Natal ou na sua famosa Semana Santa.


Localizada a 85 km de Lisboa, pertencente ao  município de Leiria, situada numa elevação que propicia vistas magníficas, pode-se chegar a Óbidos por ônibus,carro ou trem. A Estação Ferroviária está distante 2 km do centro. Havendo tempo, o percurso é bonito e certamente é bem agradável fazê-lo.



Na entrada de Óbidos, está o Portal da Vila, onde se lê:  A Virgem Nossa Senhora foi concebida sem pecado original. Essa inscriçao traduz um agradecimento de D. João IV por proteção recebida. A Porta da Vila leva à rua da Direita, a mais importante da cidade.

Clássicas muralhas, dentadas e com dois km,  cercam o centro histórico da Vila das Rainhas , como se ainda houvesse necessidade de protegê-lo contra ataques inimigos. Retorna-se no tempo! Desperta-se ao ver um centro cheio  de labirintos e ruazinhas calçadas com pedras, casas brancas com floreiras, lojinhas de artesanato, cafeterias e muitos turistas num ir-e-vir que  parece não ter fim. Os visitantes experimentam - e compram -  a ginjinha, licor feito com uma fruta semelhante à cereja e servido em copinhos de chocolate.


O nome  Vila das Rainhas, como também Óbidos é conhecida , vem do fato de cada rei oferecê-la à rainha, como presente de casamento. Em 1228, a Vila foi dada de presente por D. Dinis à sua esposa dona Isabel. Inaugurou-se, assim, essa tradição que permaneceu até o século XIX. Lindo presente, porque o lugar é belíssimo. Antes de 1228 , foram os mouros que o embelezaram - os mesmos mouros que expulsaram os visigodos, que, por sua vez,  expulsaram os romanos.


Destacam-se,  no magnífico conjunto de Óbidos, o castelo e o aqueduto. O castelo foi construído num pequeno monte, que era beira-mar, pois, até o século XV, Óbidos era litorânea, depois, no entanto, a baía foi sendo assoreada, e a cidade distanciou-se do mar. Está classificado como Monumento Nacional e  foi  eleito uma das sete maravilhas de Portugal. Os Templários os protegeram por algum tempo.Sua história remete a tempos antes de Cristo. Foi ocupado por lusitanos, romanos, visigodos e muçulmanos.


Em 1755, um terremoto destruiu grande parte de Lisboa e atingiu também parte do litoral. Foi um dos mais violentos de que se tem registro. A ele seguiu-se um maremoto que se acredita que tenha alcançado trinta metros. Causou danos na estrutura do Castelo de Óbidos, que , até 1932, por diferentes causas, sofreu intervenções, reconstruções e restauros. Nele, hoje, há uma luxuosa pousada.



O aqueduto de Óbidos, que data do século XVI,  tem uma extensão de 3 km, unindo o monte da Usseira e o de Óbidos. Está localizado a sudeste do portão principal. Foi  mandado construir pela rainha D. Catarina da Áustria, esposa de D. João III (1521-1557) para que transportasse  a água que abastecia os chafarizes da Vila.


A Vila é conhecida por sua história e pelos eventos e festas que realiza  anualmente. Durante 12 dias, no mês de março, Óbidos realiza o Festival Internacional do Chocolate, que atrai mais de duzentas mil pessoas. É quando ocorre, realmente, uma  extraordinária degustação e muitas outras atrações, como uma exposição de esculturas de chocolates e uma casinha de brinquedo, onde crianças pequenas são autorizadas a degustarem as paredes.


Em julho, acontece em Óbidos o Mercado Medieval, realizado dentro do castelo. Desde 2005, realiza-se o Festival de Ópera, com apresentações ao ar livre. Outro grande evento é a Semana Santa, com procissões, encenações religiosas e a cidade toda iluminada com tochas - contaram-me que esse evento é encantador e a ele comparecem muitos visitantes.

Pinturas de Josefa

No final da rua Direita, é bem importante visitar a igreja matriz - Igreja de Santa Maria - e admirar as pinturas de Josefa de Óbidos, que, influenciada pelo barroco, também pintou,magistralmente, flores, frutas e objetos inanimados . Aos 19 anos de idade, ela fez a gravura da edição dos Estatutos de Coimbra. Trabalhou depois, como pintora,  para diversos conventos e igrejas e retratou membros da família real portuguesa, entre esses a rainha Maria Francisca, esposa de D.Pedro II, e a princesa Isabel. Foi uma mulher além do seu tempo, quando o domínio da fama era masculino.

Pintura de Josefa - séc.XVII
Filha de um pintor português, que viveu um tempo na Espanha, Josefa nasceu, em 1630, na bela e apaixonante Sevilha. Ainda criança, entretanto, retornou a Portugal onde se fixou. Nascida numa época em que às mulheres só  eram ofertadas duas alternativas , ou casar ou ser freira, ela conseguiu aprender pintura com o pai e tornar-se conhecida, respeitada e ... solteira. Assim, morreu com  54 anos, casta e religiosa, como escreveram os cronistas daquele tempo e lugar.
Chegou a estudar no convento de Santa Ana, mas de lá saiu e radicou-se em Óbidos, tornando-se conhecida como Josefa de Óbidos e não como Josefa de Ayala Figueira, seu nome de batismo.
Belos contrastes entre luz e sombra
 A influência exercida pelo barroco tornaram-na uma artista com interesses diversificados.Trabalhou com pintura, estampa, gravura, modelagem do barro e desenho de figurinos. Suas pinturas mostram impressionante uso da cor e da forma. Na igreja matriz, que está no mesmo lugar onde já esteve um antigo templo visigodo e uma mesquita, há belas pinturas dessa artista  à direita do altar. ( Somente as duas fotos anteriores eu as busquei na internet ).

Pinturas de Joseja na Igreja Matriz

Ela não se tornou freira, como seguramente era esperado na época, mas, a par de seu talento magistral, soube aliar-se à igreja e aos nobres - de quem fez históricos retratos. Contam que seu prestígio era tal, que até pessoas da realeza desviavam o caminho para Caldas da Rainha e vinham a Óbidos só para cumprimentar a famosa Josefa. Foi realmente uma mulher que conseguiu ir além do seu tempo.