domingo, dezembro 02, 2012

Meu querido Senhor do Bonfim...

Peu, meu querido afilhado
Emocionei-me ao retornar a Bonfim depois de quase sete anos. Tenho boas lembranças desta região. Participei, como trabalho voluntário, durante quatro anos,  no  Instituto de Teologia e Pastoral de Bonfim -ITEPAB- da construção do projeto e da  aprovação pelo MEC, do curso Superior de Teologia e Pastoral, pertencente à Diocese. Foi trabalho e aprendizado, humano e intelectual, com pessoas inesquecíveis, coordenadas pelo Pe. Ramón Cazalas Serrano, espanhol que hoje mora em Portugal. Deixei raízes neste lugar.
Minha querida  Zoraide



Vim agora para reencontrar meus quatro afilhados - pena que somente dois ainda residem aqui. Encontro-os crescidos, bem formados, maravilhosas pessoas. Pedro Paulo, o Peu, publicou um belo livro de poesias ; Jânio está concluindo o terceiro colegial. Jantei na casa de minha amiga Zoraide, que reuniu seus familiares, meus afilhados e alguns amigos. Conversamos muito. Relembramos história vividas por nós, pelo Pe. Ramón e pelos meninos do Seminário, onde eu me hospedava quando vinha trabalhar.



Típica paisagem do semiárido
Rimos ao recordar uma Romaria da Terra, em 2004, com seis mil pessoas que percorreram, sob sol escaldante e terra seca e árida, mais de cinco quilômetros. Eu, sem experiência de sertão, sem chepéu e sem bloqueador solar, num vermelhão que tornava pálido o mais robusto camarão, passei mal e fui socorrida por uma senhora na entrada da cidade onde findava a Romária. Tinha febre, dores fortes pelo corpo e vomitava muito. Desidratação. Fui salva pela pela batida de polpa e  água do coco. Procurei fazer, naquele dia,com que o mico fosse um mico discreto. Impossível. Dormi e acordei quando a dona da casa fazia relatos do meu estado de saúde para amigos meus e curiosos.
Bode para venda na feira de Bonfim
Senhor do Bonfim , localizado no semiárido, a 360 km de Salvador e a 110 km de Juazeiro- cidade que divide Bahia e Pernambuco- tem hoje 75 mil habitantes e a segunda maior feira do Nordeste - a maior é a de Caruaru. Nos sábados, essa feira é uma festa. Pode-se, entre outras coisas, comprar frutas, verduras, legumes, flores e árvores, cerâmicas, roupas, sapatos, redes, galinhas mortas e galinhas vivas, bodes vivos e bodes em pedaços , artesanato em couro e em madeira; pode-se ouvir o genuíno forró e as músicas de Luís Gonzaga, que está completando seu centenário.

Feira de Bonfim no sábado
A história de Senhor do Bonfim está  relacionada à busca de ouro e pedras preciosas e à introdução da criação de gado no sertão baiano. Ainda no século XVI, portugueses pertencentes à Casa da Torre  organizaram expedições com destino ao rio São Francisco e às minas de ouro de Jacobina, iniciando a ocupação do interior da província e a formação de canais de comunicação com o litoral. A zona de passagem dessas expedições, com suas rancharias, possibilitou a fixação de vaqueiros, bandeirantes e desbravadores. Foi em  1750, que se estabeleceu  o núcleo que deu origem à cidade.


Na feira, esperando o dono...
Bonfim tem a maior e mais tradicional festa de São João, na Bahia. Considerada Capital do Forró, o São João  dura em torno de cinco dias ( contam que o atual prefeito perdeu a eleição porque a diminuiu para três dias ) e começa na rodoviária, onde chegam centenas de ônibus de todo o estado, e as pessoas são recebidas com música - gaita, pandeiro, triângulo e voz. A primeira vez que lá cheguei, ri sozinha, entre surpresa e encantamento com a animação. O povo amanhece - e passa o dia - dançando e cantando.


Forrozinho na feira de sábado
Senhor do Bonfim preserva características tradicionais, como trios de sanfoneiros, quadrilhas, bandas de pífanos e alvoradas juninas, quando  multidões dançam pelas ruas durante as madrugadas. Mais tradicional, entretanto , é a guerra de espadas - bambus cheios de pólvora . A guerra é realizada em área determinadas, as casas recebem proteção especial, as luzes são apagadas e as pessoas que brincam com as espadas precisam usar capacetes. Embora me dê medo, é um belo espetáculo. Por indescritível, indico um vídeo onde esse espetáculo pode ser visto:
http://www.youtube.com/watch?v=L41vOxvx-UQ
Jânio, meu afilhado, meu marido e meu compadre




Não é fácil morar no sertão. Como escreveu Euclides da Cunha, o sertanejo é, antes de tudo,um forte.
Quem nunca palmilhou a terra seca e árida dificilmente o entenderá. Paradoxalmente, é , no entanto, o povo mais doce e generoso que eu conheço. Dizem que o sol do sertão desperta a doçura das frutas e a coragem de viver. Acredito que desperta também a doçura das gentes.




Do livro Vivências e Utopias, escrito por Peu - Pedro Paulo Souza Rios - mimoso da dinda, transcrevo o poema:
Chuva no Sertão

Chuva,chuva!
Boa nova aos povos do sertão
Evangelho encarnado e experimentado.

A trovoada chegou
A natureza se põe a cantar - e canta
Melodias do tempo novo.

A pachamama suspira
O sertão refloresce em espigas de milho
Em flor de margarida
De maracujá e de mandacaru
Sinto no ar o aroma da novidade.

O jovem que em tempos passados partiu, retorna
renasce a esperança
O sertão se renova.



Na esquina
O povo declama a justiça
Encena a liberdade
e no terreiro dança o amor.

Onde reinava a opressão
Agora reina a organização
Aliança dos pobres criada e recriada
Diariamente em mutirão.