domingo, agosto 08, 2010

Pequenas histórias I


Ela nos recebeu na estação de trens de Shanghai. Demonstrava ser competente profissional e falava o melhor espanhol-chinês que eu encontrei.
Aparentava pouco mais de 50 anos . Era uma pessoa simples e muito elegante. Acompanhou-nos , durante três dias, naquela metrópole. Éramos dois casais: Ronald e eu, Pedro e Maria, uns espanhóis encantadores.
No final do primeiro dia, perguntou , muito formalmente, sobre meus filhos, quantos eram e que idade tinham. Ao responder, acrescentei informações sobre os dois filhos de meu marido. Eu não sabia que estava “dando um nó” na cabeça daquela elegante senhora . A partir daí , sempre que era possível, vinha ter comigo uma conversa particular, à procura de novas informações que a levassem a entender o fenômeno. Meus filhos haviam concordado com esse casamento tardio e com um estrangeiro? E os filhos dele, haviam-me recebido bem? E os demais familiares nossos como reagiram?
Percebi, depois , que a dificuldade maior era a relação minha com meu ex-marido. Quem ficara na casa, perguntava ela? Meu ex-marido concordara com meu casamento? A cada conversa, a situação se complicava mais. Saber que meu atual marido tinha duas ex-esposas e que meu ex-marido era casado , foi um choque para ela. Contou-me que jamais os filhos dela concordariam com uma situação tão extraordinária assim. Dei-me conta que o abismo era muito mais cultural que lingüístico.
A cada intervalo nas explicações sobre Shanghai, novas perguntas e novos comentários. Ela estava sempre ansiosa para saber mais. Discretamente ansiosa. Procurava sempre ser discreta.
No último dia, quando nos acompanhava ao aeroporto, após pedidos de desculpas pelas indagações todas e muitos elogios ao meu espanhol e à minha disponibilidade para conversar, ela fez a mais difícil das perguntas: junto com quem eu seria enterrada quando morresse. Com qual dos meus maridos estaria o lugar para mim. Entendi essa pergunta porque me lembrei da Slovakia, onde ficava pronto, ao lado do cônjuge morto, o lugar do que ficara vivo – na lápide, nome e data de nascimento do sobrevivente , faltando apenas colocar a data da morte!
Depois, já no avião, eu ri muito, imaginando um cemitério estranhamente comunitário, com meu ex-marido, a mulher dele, o ex-marido da mulher dele, meu marido, mais as duas ex –mulheres dele com seus maridos e ...Quanta gente! A pobre senhora chinesa não poderia mesmo entender .