terça-feira, março 25, 2008

"Semana Santa"


Tento viver , aqui na Bela União, a Semana Santa da minha infância. Busco os ingredientes para fazer a comida que minha mãe fazia na sexta-feira : abóbora, mogango, mandioca, feijão verde, bacalhau ou outro peixe e arroz com passas de pêssego. Bacalhau é a lembrança mais distante que tenho. Penso que era meu pai que o trazia da cidade.
Cresci ouvindo que nao se podia varrer a casa, ligar o rádio, tirar leite das vacas, bater em animais, castigar crianças. Tudo isso ficava reservado para o sábado de aleluia. Eu devia ter uns sete anos quando, por julgar-me imune a qualquer castigo na sexta-feira santa, aproveitei para chamar uma tia de " solteirona malvada e louca" . Minha tia chorou. Minha mãe me deu umas chineladas. Creio que foi essa a minha primeira constatação das contradições entre o discurso e a prática, porque não a esqueci - mas não lembro de ter ficado com raiva ou triste.

Sempre íamos colher macela ( ou marcela, como dizíamos). Caminhávamos pelos morros e peraus à procura dessa flor medicinal ,tão perfumada e bonita. Acreditávamos que, quanto mais amarela ela fosse, mais curativa seria. Recordo uma vez que encontramos uma cobra coral longe uns 500 metros de casa. Jogamos pedras nela. Nós a machucamos , mas não a matamos. No dia seguinte, para nosso pavor, a cobra machucada apareceu junto à porta da nossa cozinha. Tenho medo de cobras e , sobre elas, aprendi muitas histórias, tanto aqui na Bela União, quanto nas áreas indígenas onde trabalhei. No Pantanal do Mato Grosso do Sul, fiz alguns trabalhos em escolas indígenas juntos com as Irmãs Lauritas, uma congregação da Colombia, que só trabalhava com índios. Havia uma crença entre elas de que uma irmã dessa Congregação jamais seria picada por uma serpente. Tratava-se de um pacto. Ali , eu andava tranqüila. Minha mãe dizia também que, quando se andava em fila, a cobra só picava a partir da terceira pessoa. A primeira a despertava, a segunda fazia com que ela armasse o bote, a terceira já podia ser a atingida. Na Amazônia, quando eu saía com meus companheiros de trabalho, eu sempre colocava , como primeiro da fila , um índio que sabia rezar para espantar cobras. Eu ia logo depois dele, porque minha habilidade de escapar era bem menor.

Nesta Semana Santa de 2008 ( só teremos outra, no mês de março, daqui a 220 anos!), seguimos os rituais tradicionais ainda possíveis. Alda, minha irmã, foi ao campo buscar macelas; os trabalhos com animais só foram realizados no sábado, exatamente quando fiz a primeira foto. Comi muito chocolate no sábado e no domingo. Ocorreu-me, agora, que eu nunca amei um cafajeste, mas que a minha relação com chocolate deve assemelhar-se a isso. Por algumas horas de prazer, tenho depois muitas horas de dor-de-cabeça e alergia.
Uma parte da família estava aqui: Gugu, Alda, Mile e eu. Sentimos a falta da Zeli e do Ary. Recebemos uma bela visita da Rosana e do Mário. Ficamos em paz. Conversamos muito. Relembramos fatos. Fizemos alguns projetos, comprar um trator por exemplo - pois, como diz Ferreira Gullar, " caminhos não há, mas os pés na grama os inventarão."
Eu ganhei de um amigo, José Carlos Gorski, Luna, a border collie linda que aparece na segunda foto.Fiquei agradecida e feliz!
Vou agora arrumar minha mochila. Viajarei ainda nesta semana. Darei notícias!
" O valor das coisas não está no tempo em que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis." Fernando Pessoa