domingo, janeiro 20, 2008

Aos pequenos de minha família



Quando eu era menininha e vivia na Bela União, minha mãe, nas longas noites de inverno, depois de limpar a cozinha e enquanto costurava, remendava, "escolhia" feijão ou iniciava o preparo de algum alimento para o dia seguinte, contava-nos histórias dela e de nossas familias materna e paterna.
Minha mãe falava também de sua infância, de suas irmãs e irmãos, de seus pais, tios, padrinhos, primos e primas. Falava sobre lugares, roupas, objetos, boas maneiras e costumes em geral da região .

Desde cedo fui apresentada e inserida numa família muito grande. Desenvolveram, dessa maneira, em todos nós, o senso de historicidade : antes de nós, começara já a nossa história. Aprendi, assim, quem eram e como eram e como se chamavam meus parentes - alguns já mortos , como tio Oscar e tia Lola, e outros que eu não cheguei a conhecer. Eram histórias bonitas. As histórias "feias " seguramente não podiam ser contadas para as crianças.

Eu amava essas narrações, intercaladas por descrições minuciosas de cenários, comportamentos e caracteríticas pessoais .Quando eu aprendi a escrever, fazia listas com os nomes das pessoas da família ( estratégia que usei muito na escola, quando trabalhei com crianças, visando à fixação da grafia, o uso de maiúsculas com substantivos próprios e à integraçao delas no universo familiar ).

Aprendi o nome de minhas tias e tios maternos : Luís, Lourival ( Lorito), Oscar, Claristina, Carmela, Ítala, Maria Júlia, Lola, Alda. Aprendi o nome das minhas tias e tios paternos: Bernardo, Joaquim Luís, Constantino, João, Tobias, Napoleão, Estêvão, Alberto, Maria Antônia, Constância(Pina) e Maria Rosa.
Pensei nisso hoje, ao falar para o Pedro ou relembrar com ele o nome de seus tios , dos primos de sua mãe e dos filhos desses primos. Dei-me conta de que a família cresceu muito, os contatos já não são freqüentes e muitos dos "pequenos" eu nem os conheço. Não consegui relacionar o nome de todos os filhos dos meus sobrinhos, de quem eu sou tia-avó. Procurei fotos e fiz uma amostragem. Crianças, adolescentes e jovens lindos - lindos mesmo esses bisnetos dos meus pais.
O poeta e jornalista angolano Aires de Almeida Santos escreveu " os netos são filhos com açúcar"... imaginem os bisnetos!